“Todo homem trai”

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I. Todo. Todo*. Não. Os gêneros são capazes de desenvolver (ou desejar muito, mesmo lutando contra as pulsões) relações extra conjugais. A monogamia não é a maior das prisões porque isso não existe. Nenhuma estrutura tem poder sozinha. Todavia, é incontestável o respaldo que a mesma encontra no Estado, na religião, nas manifestações e representações culturais e midiáticas. O amor romântico tradicional ainda dualiza mente e corpo, coração e tesão, como se quem seguisse e respeitasse o que o corpo pede tivesse pouco caráter.

As pessoas superestimam fidelidade na esfera pública. Mas vai ouvir o que elas fazem no privado… homens, mulheres, pessoas de todas as idades e classes sociais. Por tédio, por carência, por vingança, por se sentirem incompreendidas, por tesão. A grande questão não é pontuar se toda pessoa trai ou não. É sobre admitir honestamente o quanto em termos gerais a monogamia é hipócrita e uma grande fachada.

* Considerar que todo homem em qualquer tempo histórico, independente da ontogênese, em qualquer recorte geográfico, econômico e cultural fez exatamente a mesma coisa é extrapolar o microcosmo como medida de análise.


II. “Homem” tem seu peso e relevância como categoria de entendimento histórico, como análise macro e estrutural. Porém, tendo a fazer vários recortes juntos, mesmo com o estrutural posto. Por exemplo em GoT, uma coisa é você ser um homem herdeiro do trono sendo bastardo ou legítimo, sendo anão ou com um corpo dentro dos padrões capacitistas. Seria tudo diferente sendo uma mulher anã ou bastarda, mas o fato é que mesmo a categoria mais estruturante dando um montão de privilégios e sustentações não pode ser lida sozinha, é sempre preciso considerar as variáveis porque mesmo pequenas elas fazem o resultado geral ser muito específico. Nas pesquisas qualitativas (meu tipo preferido de trabalho de campo), a gente tenta sondar justamente esse micro permeado de macro. E toda hora precisamos mostrar na metodologia o quanto aquilo é uma amostragem porque fotografia total a gente nunca vai ter braço pra alcançar mesmo. 

Nas do tipo quantitativa e/ou de grande abrangência, os pesquisadores tentam uma amostragem significativa, grandes números grandes dados, grandes análises (tipo que o Bourdieu fazia). Em dados precisos ainda tem margens de erro, para mais ou para menos. É desse tipo de margem que eu tô falando. Mesmo em categorias amplas tem a miudeza muito relevante, como na construção do gosto, pensar nas estratificações extra-econômicas (gênero, escolaridade dos pais, alimentação, etc). Linguisticamente a gente precisa de conceitos encapsulados para construir argumentos, todavia, a frase solta “todo homem x” não pontua o que exatamente está denominado enquanto “todo”, tampouco, “homem”. Com isso, abre margem para interpretações rasas do tipo:

◔ Feminismo meu macho minha vida: quem fica com omi comprometido não tem sororidade
◔ Feminismo monogamia só rola entre e com mulheres: porque só omi tem fogo nas venta e no cu
◔ Senso comum: homem tem instinto e desde “o tempo cavernas” quer espalhar semente em ancas protuberantes (jacuzzi de bebê)
◔ Homem como categoria atemporal e sem qualquer recorte

Se o pessoal é político demanda critério e cuidado na avaliação. Ainda mais em um tema tão passional quanto as relações com os corpos e a sexualidade, adentrando as instituições conservadoras derivadas da monogamia heterossexual como a família e o matrimônio.

A minha grande clavícula, o médico gostosão, as três residentes e muito lubrificante

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Havia o receio de que eu tivesse alguma disfunção na tireóide. Os médicos pediram pra ficar de olho. Testes refeitos, refeitos, nada, nada. Hoje, mais um ultrassom. O médico gostosão pergunta:
– Quantos anos a Senhora tem?
– Trinta

SPLET. O gostosão me bezunta o pescoço de lubrificante (não precisa dizer o que estão pensando, pode apostar que confabulei só o mais baixo nível, ainda mais com ele me chamando de Senhora).

– Graças a Deus, a Senhora não tem nada, nódulo. Nada. Tá perfeitinho.

** Insira aqui minha imaginação com ele e aquele tanto de lubrificante** Mas continuemos a história pois tenho compromisso em ser realista nas minhas crônicas, por mais fantosiosas que pareçam ser e ao contrário do que podem supor os incrédulos, são narradas com justeza

Me limpei. Gostosão me passou para outra sala.
Cheia de mulheres.Residentes.

– A gente pode fazer outro exame em você?
– Outro? É que eu já fiz da…
– Da tireóide, mas a gente tá treinando.
– Pra que?
– Pra anestesia – Disse uma
– Para não dar a geral no paciente, – Disse a outra
– Para poupar a anestesia total – Emendou a terceira

Consenti. Começaram pelo braço. SPLET. Taca lubrificante na maquininha. SPLET. A maquininha desliza enquanto elas apontam empolgadas pra tela:
– Aqui a derme
– Olha, ali, ali, não pode ser!
– É o olho? Que grandão!
– O que que é grandão?
– Seu olho egípicio, é bem grande, faz uma imagem bonita

E chamam um médico, depois outro aparece, todo mundo olhando meu olho grego, quer dizer, egípicio. Empolgadas com a minha permissividade (estavam alisando meu braço, bezuntada e sendo elogiada, deixei rolar. Mais que uma incentivadora das descobertas científicas, sou hedonista), perguntaram se podiam fazer o mesmo no meu ombro. Concordei. Propuseram cabaninha pra eu tirar o sutiã, já que iam me melar mais. Não me fiz de rogada, dispensei a cabaninha. SPLET. SPLET. Moça, você tá subindo muito no meu pescoço, daqui a pouco SPLET SPELT vai na minha cara HAHAHAHA SPLET SPELT É que a sua clavícula SPLET SPLET é muito grande. Nossa menina, olha que clavícula grande SPLET SPLET

E esse foi meu sábado à tarde. Eu, um médico gostosão. Três residentes e alguns orientadores mais experientes ensinando como tirar um ultrassom de braço. Todos admirados com a beleza do meu organismo em grandes estruturas. Minha beleza interior nunca foi tão elogiada.

Não sou privilegiado não, eu até sofro

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Quando as pessoas dizem que você tem privilégio elas não estão dizendo que você não tem problemas. Elas estão dizendo que você não tem os problemas específicos oriundos da opressão. Esse não é um conceito difícil. 

Semanas atrás na faculdade assisti um vídeo que falava da relevância de Leila Diniz. O que elenquei foi: Ela dizia coisas que chocavam? Sim. Ela deu entrevista e foi censurada? Sim. Ela mostrou o barrigão de grávida enquanto as mulheres escondiam seus ventres? Sim. Mas ela era uma mulher jovem, branca, com projeção midiática, de uma beleza incontestável (com ares de Brigitte Bardot), dizendo que amava fuder e ser livre. Mesmo com um discurso pouco ortodoxo ela era assimilável de algum modo, porque era privilegiada mesmo com as desventuras em ser mulher e todas as auguras em pertencer ao gênero humano.
 
E não foi Leila Diniz sozinha, nem Simone, nem Pagu, nem qualquer indivíduo escolhido como “a cara” de uma linha de pensamento, o dono dos louros da vitória na emancipação de um grupo. Respeito e gosto da história de Leila Diniz, mas exageram na dose em pintar ela como a cara e o corpo da emancipação das mulheres brasileiras. Mesmo quebrando tabus uns corpos são mais autorizados a assumir publicamente suas contestações. Se a Jennifer Lawrence posar se lambuzando com um hamburguer e falando que, nossa, ela adora comer, arrotar e ainda peida, as pessoas vão achar o máximo. Põe a Gabourey Sidibe fazendo o mesmo e espere a comoção pública…
 
Se alguém te diz que você é privilegiado porque é branco, classe média, magro, jovem, estudou em colégio pago a vida toda, tem o rosto e/ou corpo padrão, fala muitos idiomas e tem milhas acumuladas num programa de viagens, entre outros privilégios, essa pessoa não está assumindo que você nunca se fodeu. Ou que nunca te foderam. Ou ainda que em aspectos que fogem da superfície você não pode sofrer terrivelmente por dentro. Duas coisas contam e muito para que você se beneficie nas estruturas: 1) Seu Capital Cultural 2) A sua aparência
 
1) Capital Cultural
 
É um conceito nomeado pelo Bourdieu. Imaginem duas crianças, uma com pais educadores de esquerda e que curtem Jorge Ben Jor, viajou para a Índia e vários países. A outra, uma criança que os pais são pouco escolarizados e não incentivam muito sua permanência na escola, escutam o que está mais na moda do momento, nunca viajou de avião. Essas crianças vão para a mesma escola (vamos supor que os pais educadores acreditam na Escola Pública), a professora mostra uma foto do Taj Mahal em aula. Quem provavelmente vai levantar a mãozinha e contar como é de perto, além de lembrar a música do Jorge Ben? Ou seja, não é só o que você fez com seus privilégios (viagens internacionais), mas também tudo o que culturalmente você experimentou e teve acesso (diferentes sabores, ouvir outros idiomas, sua educação musical considerada de “bom gosto”). Obviamente a educação não se dá apenas com a primeira socialização (tradicionalmente associada ao núcleo familiar), a relação com a escola e o saber pode tomar rumos que desafiem os destinos sociais prévios, mas aí é ponto fora da curva (o estudo de Lahire é uma boa fonte de análise caso busquem fundamentação teórica nesse sentido).
 
2) A sua aparência
 
Você é apresentável? Isso é, as pessoas se orgulham de andar “com alguém como você”? Você apresenta algum maneirismo ou ato ordenador repetitivo que demonstra com gestos que você não é “normal” (algum grau de autismo, por exemplo, com movimentos mais duros ou espasmáticos)?. Seu corpo visivelmente apresenta algo que as pessoas leriam como um grande excesso ou falta (você não tem um braço ou é muito gordo)? Você já andou de mão dada com alguém e a pessoa soltou rapidamente o contato ao perceber que podiam ver vocês caminhando juntos? Você já perdeu uma vaga de emprego para alguém igualmente ou até mesmo menos preparado para o cargo com base no que você aparenta? Você parece hétero?
 
Caso o leitor seja do tipo mais ingênuo pode dizer que no seu círculo social não, no seu meio não há esse comportamento. Julgar pelas aparências é coisa de gente mesquinha e preterimento não rola onde o raio problematizador faz morada, certo?. Até porque uma mulher bonita demais sofre na mesma medida que a feia porque as duas são desacreditadas, certo?. Bad news, everyone! Dá uma olhadinha quem recebe mais investidas no Spotted da faculdade, quem é que “sobra” nas festinhas, quem é apresentada pra família? Vai escutar de quem essa história é comum “Ele disse que estava num momento complicado e não queria se envolver com algo sério, dias depois assumiu com outra mais bonitinha”. Vai ouvir quem recebe mais propostas unicórnio (alguém que entra numa relação sexual casual para apimentar e depois é descartado)… Corpos que não atendem a norma logo de cara, logo na superfície, sofrem encargos muito específicos.
 
Nos casos que a mulher é muito bonita e é tratada como troféu não se compõe a mesma vivência de um corpo abjeto. Usando o filme Malèna de exemplo, a mulher recebe muitos estímulos para ser bonita, se ela consegue atenção pela sua beleza vai despertar raiva porque desperta desejo (seja por ser como ela, seja por desejarem fazer sexo com ela), em alguns casos isso pode gerar atitudes violentas para tornar aquele corpo abjeto. O estupro, é uma forma de tornar um corpo abjeto, raspar os cabelos e machucar é outra. A desumanização é um instrumento de poder aplicada aos corpos para reafirmar ou transformar, corpos em matéria abjeta.
 
Um rostinho bonito não resolve toda a vida mas abre portas, ganha mais credibilidade, recebe mais atenção, carinho, afeto. Isso desde os bebês. Bebês mais branquinhos e lidos como mais graciosos e menos pesados ganham mais atenção. O super estímulo e a extrema paparicação podem gerar tristeza, pressão por manter alto padrão, dependência, o lucro da cosmética e dos remédios controlados, assim, o cenário é desolador para quase todos. Todavia, não é porque é para todos que se dá sem alguns facilitadores ou inibidores. O corpo não abjeto recebe ao menos mais convites, é chamado ao falar, é escutado, lido, ele é em algum grau um modelo a ser seguido, tem legitimidade, mesmo a transgressão vende mais se acompanhada de formas simétricas.
 
Referências
 
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 2. ed. rev. São Paulo; Porto Alegre: EDUSP: Zouk, 2013.
 
LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Ática, 2004.
 
OLIVEIRA, Fabiana de; ABRAMOWICZ, Anete. Infância, raça e “paparicação”. Educ. rev., Belo Horizonte , v. 26, n. 2, p. 209-226, Aug. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982010000200010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on 02 Aug. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982010000200010.

Amor de pica

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Minha definição de amor é mais ou menos assim: você gosta de cafuné, mas de todos os cafunés do mundo quer o de determinada pessoa. É o anseio de um gesto e movimento específico de uma pessoa específica, porque cada sujeito tem um modo muito particular de construir seus gestos num combo de sentidos (força, velocidade, pressão, cheiros…). Portanto, acredito que os cães podem amar. Por exemplo, coçadinha na barriga faz a perninha mexer, mas eles buscam mais algumas pessoas que outras.

Somos mais animais e fisiológicos do que gostamos de admitir. A gente gosta de prazer, fazer uso e ser instrumento de gozo e chamo isso de amor, porque é um atravessamento afetivo em diversos graus e profundidades. “Pensar com a cabeça de baixo” (acusação que já ouvi mais de uma vez em relação abusiva), não me faz alguém em débito com a humanidade ou de pouco caráter. Busco sensações e experiências, não acredito em encontro de almas mas em afinidades e parcerias. Chamo isso de amor e me considero extremamente romântica. Amo com os braços, com estímulos mentais, com a boca, com os pés e claro, com a minha buceta.

A segurança do castelo, o perigo na torre – Sinais de um relacionamento abusivo

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A Sueli Feliziani disponibilizou uma lista de links (gringos) que discutem e nomeiam uma série de comportamentos abusivos dentro de um relacionamento. Passado um dia da minha leitura, ainda preciso ponderar e pensar a respeito das coisas que li. Quero ter tempo pra maturar a ideia, no entanto, nada impede que eu traduza para que vocês também pensem, certo? Aqui vai uma explicação ao meu modo do apanhado das coisas que li, abaixo, os links com os conteúdos originais para quem tem interesse, traduzi os conceitos para o português para melhor entendimento:

Love bombing (bombardeio de amor)

A pessoa te enche de amor, afeição, elogios, se comporta como uma pessoa preocupada, gentil, te lota de mensagens e faz você pensar que aquela pessoa é sua alma gêmea, amor da sua vida, tudo mais. A pessoa faz MIL planos de futuro com você (future faking), parece um conto de fadas, uma comédia romântica ou um roteiro bem açucarado. Se a pessoa tá fingindo isso, essa afetuosidade toda, ela terá um prazo de duração e a pessoa muda “da água pro vinho”, isso é, a pessoa te faz sentir a rainha do universo, depois um lixo e a pior coisa que já existiu sobre a terra. Essa mudança de humor pode ser bem lenta e quando você perceber, estará apegada ao passado, aquele fiapo de que “com ele é diferente, ele é sensível e carinhoso, ou melhor…era bastante, até ele mudar…e fazer me sentir horrível”. A mudança pode ser brusca também. Se antes seus modos de ser eram o que encantava a pessoa “você é autêntica! você é orgulhosa! você usa roupas que valorizam o seu corpo! adoro você ser assim!”, por exemplo, as coisas começam a ficar invertidas, porque antes o que a pessoa incentivava e amava, se vira contra você “você vai mesmo sair com essa roupa? isso não combina com você! você é orgulhosa demais e auto-suficiente! olha como você gosta de chamar atenção! olha quantos likes nas suas fotos, é claro que você não tem problema de auto-estima!”. Como a pessoa afetada (alvo) se sente culpada pela mudança de comportamento, é julgada e cobrada por quem a “bombardeou de amor”, tenta desesperadamente se adequar, modificar, para tentar voltar ao tempo “da lua de mel” do relacionamento. A sensação é “ele é um cara sensível e incrível, se mudou comigo é porque eu não dou valor para o homem que ele é”. Ás vezes é sutil, outras vezes é até verbalizada a satisfação e a expectativa que aquela pessoa (abusador) tem em te ver na merda. Isso é, se antes a pessoa conseguia te colocar nas nuvens, agora ela faz questão de te passar uma rasteira e ainda ter ar de quem dá uma lição. “Se me amasse você estaria sofrendo mais”, etc. Ou ainda quando a pessoa só para de te acusar, constranger, deixar confusa, quando você tá fragilizada e chorando. Não importa o quanto você tentar, nunca será boa o bastante. O descarte (término) acontecerá de uma maneira cruel, fria, distante ou humilhante.

Um outra forma de “bombardeio de amor”, é quando a pessoa te manda muitas mensagens durante o dia, faz muitas ligações, exige muita atenção e o tempo todo. Não dando tempo pra você pensar a respeito se aquilo está te sufocando, se aquele comportamento impede você de processar aquele tanto de informação, se atrapalha sua rotina, trabalho, estudos…

Degradation (degradação)

O objetivo é minar sua auto-estima: Uso de sarcasmo, te chamar por nomes que te irritam ou humilham, repreensão, menosprezo, culpa excessiva, isso te deixa vulnerável e faz duvidar de si (te faz sentir incapaz intelectualmente, fisicamente, emocionalmente)

Verbal Assaults (agressões verbais)

Repreender, depreciar, ameaçar, sarcasmo, humilhação. Exagera todas as suas falhas, te coloca pra baixo, mesmo em público. Isso também tem por propósito diminuir sua auto-estima.

Emotional Blackmail (chantagem emocional)

Ele usa os seus gatilhos, suas questões emocionais mais profundas pra fazer sentir culpa, remorso, medo, ameaçando terminar a relação, dando gelo e outras táticas de medo. Vamos supor que você teve traumas e tem travas com determinado assunto, é isso que a pessoa vai usar contra você, ela vai no seu ponto fraco pra doer.

Isolation (isolamento)

Você fica dependente da validação daquela pessoa, ela toma várias decisões que te afetam, ou afetam aqueles que você cuida, sem te consultar. Por exemplo, marca férias com a família (se vocês tem filhos) e nem conversa a respeito com você antes. Ela (a pessoa que abusa) pode te afastar de amigos e familiares, controlar seu dinheiro, espalhar mentiras a seu respeito. O objetivo é fazer você viver pra ela, para aprovação.

Unpredictable Responses (respostas imprevisíveis)

Isso torna a pessoa (alvo) muito ansiosa. Você queimou o feijão, quebrou um copo, esqueceu a manteiga destampada? O abusador tanto pode ter uma reação super nervosa, explosiva, com gritos ou xingamentos, quanto pode não dar em nada. Você fica ansiosa por não saber o que acontecerá nessa “bomba relógio”.

Gas-lighting (deslegitimar memórias)

Aquele dia que você lembra daquelas coisas que ele fez ou disse? Não existiram, não foram bem assim! O alvo sabe do que sentiu ou viveu, mas o abusador fará ela questionar sua sanidade, memória e percepção dos fatos.

Enforcing Trivial Demands (impondo demandas triviais)

As coisas triviais vão tomar proporções imensas, o que em português a gente chama de “procupar pêlo em ovo”, “tempestade em copo d’água”. O objetivo é reforçar a complacência do alvo, tornar o alvo permissivo, comer pelas beiradas.

Occasional Indulgences (indulgências ocasionais)

Sem qualquer razão aparente ou logo após de conseguir o que quer (te fazer chorar, por exemplo), a pessoa abusadora te oferece presentes, mimos, faz uma gentileza, o que te faz baixar a guarda e parecer exagerada por se sentir tensa e “paranóica”, isso é, “porque eu estava com medo e confusa? Olha só como ele é doce e gentil!”. Pode acontecer da pessoa usar o seu desejo como arma, por exemplo, fazer um sexo incrível com as palavras e os gestos que te encantam e logo depois, te culpar pelo prazer que extraiu. Por exemplo, ele te faz se sentir horrível pelo seu corpo e sexualidade, mas enquanto vocês fazem sexo ele te faz sentir desejada, bonita, gostosa, verbalizando, inclusive. Isso vai te deixar confusa e moralmente esgotada.

Fontes:

https://relationshipedia.me/2015/04/15/the-early-warning-signs-and-stages-of-a-toxic-relationship-everyone-should-know/

http://thenarcissisticlife.com/narcissistic-brainwashing/

https://datingasociopath.com/sociopath-character-traits/cunning-and-manipulative/i-love-you/seducing-and-love-bombing/


Feminismo é (entre outras coisas), estudo constante, compreender melhor os mecanismos internos de relacionamentos abusivos fortalece o importante auto-cuidado. Hiper-vigilância não faz bem para ninguém, em verdade, impede qualquer experiência social, produz isolamento (ainda mais severo se a pessoa já tem invisibilidade por ser quem é[1]). Se o  relacionamento mina sua confiança, te faz sentir inadequada, suga as energias num nível que você não consegue nem mais ficar contente sem se sentir culpada, isso é um relacionamento abusivo. Aliás, essa é outra forma de manipulação psicológica não tão rara, com três desdobramentos possíveis. Vou nomear de

Sofrimento como prova de amor:

1) Socialmente homens cis são ensinados a atacar se machucados emocionalmente: Insatisfeito com o relacionamento, o abusador pode exigir que você sinta o sofrimento na mesma medida que ele, nos padrões do que ele entende por sofrer, uma competição por sofrimento nos parâmetros dele: Por exemplo, “eu estou sofrendo muito mais que você, minha vida está uma merda” (não importa o quanto você diga que também está sofrendo, ele vai ignorar solenemente).

2) Você não consegue comemorar bons momentos e “conquistas” com a pessoa abusiva, sem ela te culpar por estar feliz, te chamando de insensível porque você “está feliz com a promoção no emprego enquanto eu estou aqui chorando e sofrendo”. Isso é, o relacionamento não é mais sobre apoio mútuo, partilha de bons e maus momentos. É sobre te ver definhando.

3) Espetacularização da dor: Não adianta sofrer e uma lagriminha, não, o abusador quer o sofrimento cinematográfico, rímel borrado escorregando atrás da porta, a vida em pedaços, ele quer o zoom e a maximização do sofrer. É um comportamento sádico.

Considero que ninguém está livre de ocupar um ou mais lados dessas dinâmicas. Quem se comporta de modo abusivo, não necessariamente faz isso com a lucidez da implicação dos seus atos, isso é, não é alguém que deliberadamente tem essas atitudes. Como pontuei, homens cis são ensinados desde muito pequenos que as mulheres “devem” docilidade, que se eles se dedicaram num relacionamento “não são como os outros” e portanto a mulher deve ser muito grata porque alguém lhe deu atenção e não bordoadas. Ou seja, ele deve ganhar medalhas e ser tratado como um rei porque ele não é violento fisicamente, lava a louça (esfregar azulejo e privada, nunca), busca o filho na escola vez ou outra. Como mulheres, aprendemos que precisamos ser gratas com quem nos trata bem, os dois cansados de um dia cheio e quem lava louça, faz sexo sem vontade, vai preparar a marmita dele e a lancheira das crianças é a mulher, ela faz um boquete pra ele relaxar depois de um dia puxado, nunca o contrário (pra massagem ela tem que pedir).

É claro que essas dinâmicas podem e ocorrem de baldes em relacionamentos não hétero, monogâmicos ou não, entre familiares e até mesmo amizades, ninguém é imune. Antes de ir perguntar ao seu parceiro ou parceira (filho, amigo, parente, etc) se você tem práticas abusivas, se questione e examine suas práticas, reflita se a carapuça serve.  Não constranja a pessoa que você se relaciona com esse tipo de pergunta, até porque se você for abusivo com ela em algum grau, ela pode não se dar conta ou simplesmente ficar mais coagida ainda e ter de se justificar quando, onde, como ela foi alvo de abuso (provar que foi machucada e pontuar em graus a natureza desse machucado).

Esse não é um texto conclusivo, é uma reflexão compartilhada.

[1] Isso é, se a pessoa escapa da norma e já tem dificuldade em se relacionar em situações triviais da vida cotidiana, com acesso aos direitos básicos tais como moradia, alimentação, educação, lazer, segurança, emprego formal, estabilidade financeira.

É porquê sou gorda?

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Queria acordar um dia e não ter que pensar sobre as proporções e o tamanho do meu corpo. Que isso não fosse fator determinante das minhas relações afetivas, para elas sequer começarem. Queria muito. Não há um problema intrínseco em ser gorda. Em memória e sentido, não recordo algo diferente disso, poucas vezes recebi tratamento afetivo em que isso não estivesse posto. Dos que conheço online e vêem fotos de rosto, ao terem acesso a uma imagem de corpo emendam mas você não é gorda, é gordinha/fofinha/grande/gostosa. Ao vestir roupas de meus companheiros ou namorados (e já namorei homens muito maiores que eu), as roupas caiam bastante bem e muitos deles não tinha metade da dificuldade em comprar roupas como tenho, alguns comentaram se você fosse um homem com seu tamanho, não seria considerado gordo. Talvez. Mas eis que não sou. Sou uma mulher. Chimamanda já diz Ensinamos as meninas a se encolher, a se diminuir, ao lhes dizer: “Você pode ter ambição, mas não muita. Deve almejar o sucesso, mas não muito. Senão você ameaça o homem”. E esse engrandecimento de si parece ainda mais abafado para mulheres gordas, já que ser gorda é ser engrandecida, é ocupar um espaço que não esperavam de antemão, que está acima, que excede parâmetros médios.

Ainda sobre encontros on-line, tenho por preferência avisar logo nas primeiras mensagens que sou gorda. Uma vez que muitos homens (e algumas mulheres) se sentem “traídos”, ao descobrir que aquela pessoa muito interessante que eles conheceram é gorda. Golpe do avatar, é como chamam. Por pressuposto em aplicativos de pegação, se está ali para ter contato com outros corpos de mútuo interesse, se atrair por gordas, aparentemente, abarca um nicho específico, um fetiche, se você não avisa de antemão que é freak, se acham no direito de te ofender. Numa madrugada, anos atrás, resolvi brincar naquele tal de Chatroulette pra ver como era, as coisas mais leves que li e ouvi eram cunt e fat. Fechei na hora. Não tenho controle sobre a cabeça de um estranho pra fora do carro xingando, mas janelas de internet, sim. Com todas as letras, já expressaram que isso é o que me separa de ser popular e desejada seu rosto é lindo, se você emagrecesse um pouquinho, nossa, ia chover. A colega de faculdade no bandejão que apontou para amiga ligeiramente mais magra que eu, até gosto de gordinhas, mas mais como ela. O instrutor de academia antes mesmo de começar as abdominais você é a menina mais preguiçosa da academia. Das pragas jogadas por médicos ao pedir exame de sangue de rotina, antes mesmo de ter os resultados em mãos tem que perder no mínimo quinze quilos, você sabe, né?.

Ontem, com várias blusas de frio, tive que fazer um pequeno esforço para girar a catraca, estava maior que de costume. Girei. Uma moça do outro lado me mediu de cima à baixo. Pensei na hora é porquê sou gorda? Nos episódios de Turanga Leela, do Futurama, recorrentemente lembra o Orphanorum ou o fato de ter um olho, como se conecta facilmente com animais e crianças que eram como ela foi. Com alguma marcação física da diferença, como na vez em que realizou uma cirurgia para parecer “normal”. Imaginei ela ouvindo de algum personagem Um olho? hum, nunca fiquei com ninguém com um olho só; seu olho nem é tão esquisito assim, de certo ângulo, até parecem dois. Mas você não é mutante, mutante, né, daquelas bem bizarronas, você até parece um pouquinho normal.

Foucault (2010) diz Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado. Habitar meu corpo é experiência macia e prazerosa, o pesar é que antes de tocar e sentir ele, há quem rejeite o contato por ser considerado abjeto, mesmo que secretamente bonito para meia dúzia, há os que dão passos mais adiante e partem para agressão verbal/moral. Não se trata de querer ser amada por todo e qualquer um, o incômodo está no fato de ser uma questão a priori, o ponto de partida e até mesmo em alguns casos, de rompimento. Antes de ser qualquer coisa, eu sou gorda e isso barra o acesso ou a vida social e determinadas experiências, isso me separa de um tratamento mais respeitoso. A diferença está posta, pois ninguém lê em meus contornos um corpo pequeno, frágil, esguio. Tentam subtrair essa diferença como elogio, é gorda mas não tão gorda, não é linda mas é bonita, falta pouco, ainda não é. Ser gorda é um vir a ser meritocrático. Você ainda não é suficientemente atraente ou para a via pública, mas pode vir a ser, se apagar essa diferença, se fingir que não é, se comprimir suas formas em cintas modeladoras e lutar contra o corpo desejante.

Não quero deixar de ser gorda. Só que em alguns dias, como ontem, chorei de raiva e mágoa. Esse marcador é o que faz tanta gente se achar no direito de ficar ofendida com o modo que essa matéria na qual habito, ocupa os espaços e lugares.

Referências
FOUCAULT, Michael.El cuerpo utópico. Las heterotopías. Buenos Aires, Ed. Nueva Visión, 2010.

 

O lado paradoxal em ser “Diva”*

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Você é uma mulher segura e gosta de dançar, chamar atenção, dar close. Pronto. Você é Diva. Principalmente pelo tratamento que recebe nas baladas com bicha, sapatão, drag e freaks em geral. Ontem, por exemplo, saí, dancei, rocei workworkworkworkwork na bunda das pessoa sorridente, as bicha gritando lindaaaaaaa, maravilhosaaaaaaa, batendo palma, dança do maxixe com as sapatão, etc. É tipo o like de foto, sabe? Toda delícia toda gostosa e zero beijos. Isso não me entristece, faz parte para qualquer pessoa que sai disponível pra ficar e não beija só pra cumprir tabela.

É interessante que embora a figura da Diva tenha forte apelo sexual, ela fica mais ligada ao entretenimento, ao espetáculo. Há toques, olhares, passadas de mão, elogios. Não há beijo. E migas, não se preocupem d’eu ficar chateada ou achem absurdo eu sair babadeira e voltar no zero a zero. Tava com batom caro pra gastar à toa e só me relaciono mesmo que casualmente, com quem tá a fim, me recuso a forçar barra. Como filhote de Gaga eu vivo pelo aplauso, mores. Como posso reclamar de sensualizar e sarrar numa bicha afeminada enquanto ouço Riri e sou aplaudida?

* Me apropriei dessa alcunha reconhecendo meus próprios limites e humanidade, ainda mais nessa fase que quero experimentar os signos associados a feminilidade como performance.