A criança não lê com quatro anos! E agora?

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Que papel lisinho e que colorido interessante!

Quem tem uma criança em casa pode ficar preocupado porque os outros adultos pressionam para “um pequeno gênio”. “Coloca numa bilíngue, põe no balé, no inglês e na natação!”. Aí você olha pro seu bebê e ele tá fazendo bolha de baba, comendo cola, lambendo tijolo, metendo o dedinho no nariz. Mas afinal, o que as diretrizes falam? Pelas Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil, (DCNEI), as quais abrangem o atendimento de crianças de 0 a 5 anos e 11 meses, esse período não deve conter avaliação para promoção, ou seja, não tem “prova”, não tem ranking classificatório, nada do tipo deve ser aplicado. A Educação Infantil deve incentivar o cuidado de si e do Outro, conhecer o mundo, respeitar o direito à diferença, incentivar a se manifestar e respeitar a vez e a voz de terceiros. O DCNEI pode ser compreendido em dois eixos centrais a interação e a brincadeira. É tempo de experiências éticas e estéticas, de dar segurança para se expressar dentro das linguagens que a criança desejar, seja o desenho, a arte, a música, a dança…por que um menino dançando Bang! da Anitta é visto como uma “ameaça” uma coisa esquisita, enquanto outra pequena que decora a capital dos países é um exemplo e espanta pela “genialidade”? Porque separamos mente e corpo (e nesse caso, a questão de gênero binário também faz parte do estranhamento), separamos esses saberes desde muito cedo, sendo que os dois são igualmente interessantes e demandam uma série de processos cognitivos. A criança que não sabe dançar, não sabe ler “como as outras, no ritmo das outras” não deve se sentir péssima.

A valoração do indivíduo, não importa a faixa etária, não deve ser mensurada pelo o que o corpo dele “não é capaz de fazer” em comparação com a média. Infelizmente, a gente aprende mesmo na vida adulta que é mais importante focar em tudo que a gente faz com dificuldade ou não consegue fazer, do que nas coisas que somos realmente bons. Quanto ao desenho, muitos adultos ficam preocupados com as crianças que colorem fora do traço, é importantíssimo deixar a criança se expressar dentro da linguagem que ela julga mais significativa (isso significa pintar uma árvore de azul e o céu de verde se der vontade!), ao modo dela, tanto para trabalhar a motricidade (segurar no lápis, pincel, giz…), quanto as representações que ela tem de linguagem escrita (não tem nada de errado em escrever espelhado, embaralhar letras, quando se experimenta essas combinações (como até virou meme a “Inbonha”), tudo isso faz parte de assimilação do conhecimento e está tudo bem. As políticas públicas mais recentes de alfabetização (como a Meta 5 do Plano Nacional de Educação), preveem que todas as crianças aprendam a ler e escrever aos 8 anos de idade. Para tanto, muitas outras políticas públicas foram implementadas como o ensino de nove anos, uma vez que agora as crianças entram com 6 anos no Ensino Fundamental, dando mais tempo para elas se familiarizarem com os fundamentos básicos dos saberes, tanto quanto para compreenderem o uso do corpo na escola e seu sistema disciplinar (para escrever de forma legível você precisa sentar e dominar a motricidade de uma caneta/lápis). De nada adianta uma criança pequena saber contar até cem se ela não compreende o que é o cinco, que o cinco é uma unidade representativa que indica uma quantidade específica que vem seguida do seis, anterior a ela vem o quatro. Muitas vezes, nem tem como uma criança tão pequena saber tudo isso porque o organismo dela muitas vezes nem está maturado para compreender essas estruturas mentais. Não adianta forçar um bebê de dois anos que está em muitos casos, expressando suas primeiras palavras a falar estruturas complexas.

Uma coisa é você querer dar muitos estímulos para uma criança pequena para ela conhecer muitas linguagens, ganhar segurança e descobrir outros modos de ser e estar no mundo. Outra coisa é você querer forçar ela num punhado de atividades para mostrar para os outros adultos os “truques” que “sua criança” sabe fazer. Pouco adianta você super elogiar a criança sobre o quanto ela é especial e inteligente por saber decorar frases fazendo ela se sentir “melhor que os outros”, se ela não aprender a respeitar as pessoas, não adianta decorar o dicionário. Ela vai encontrar outras crianças que não sabem tudo o que ela sabe por muitas razões, entre elas, não ter família com capital cultural e econômico que proporcionem essas experiências. Criança esperta e curiosa não é sinônimo de criança esnobe. Se ela aprende com facilidade as coisas, incentive ela a ensinar os colegas e amigos, o conhecimento é para ser partilhado, não importa a idade. Explique para criança ter paciência com os próprios processos e com os processos dos outros. Ninguém é obrigado a saber tudo de tudo. Ademais, os programas infantis já são super pedagogizantes (isso é uma crítica, da minha parte) e já ensinam as cores, os números, as letras. A Educação Infantil não é pra aprender a ler-escrever-contar, é para se expressar e descobrir sua corporeidade, sua subjetividade e alteridade, é pra conhecer novas linguagens. O Ensino Fundamental é muito além do ler-escrever-contar. Claro, isso é um direito básico e deve ser explorado nas escolas, mas tecido com outros saberes, criando significados amplos e densos, não apenas decoreba pra passar em testes.

Fontes:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil/Secretaria de Educação Básica – Brasília: MEC, SEB, 2010.

BRASIL, Ministério da Educação. Ensino fundamental de nove anos – Orientações gerais, 2004. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ensfund/noveanorienger.pdf Acessado em 24 de Agosto de 2013

BRASIL, Plano nacional de educação,2001. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm Acessado em 24 de Agosto de 2013

DOLZ, Joaquim; GAGNON, Roxane; DECANDIO, Fabrício. Produção escrita e dificuldades de Aprendizagem. São Paulo: Mercado de Letras, 2010.

FERREIRO, Emília. Reflexões sobre Alfabetização. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1985.

FINCO, Daniela; SILVA, Peterson R; DRUMOND, Viviane. Repensando as relações da Educação Infantil a partir da ótica de gênero. Culturas infantis em creches e pré-escolas: estágio e pesquisa. 1ed Campinas: Autores associados, 2011, v. Pg 59-87

HOGEMANN, Edna Raquel Rodrigues Santos 7º Encontro nacional da ANDHEP.A relevância do afeto e da alteridade na garantia dos direitos humanos. 2012.

LEAL, Telma. BRANDÃO, Ana. É possível ensinar a produzir textos! Os objetivos didáticos e a questão da progressão escolar no ensino da escrita. In: Produção de texto na escola: reflexões e prática de ensino. CEEL/MEC, 2007.

REGO, L. B. Descobrindo a escrita antes de aprender a ler: implicações pedagógicas. In: KATO, M. A. (Org.) A concepção da escrita pela criança. Campinas : Pontes, 2002, p. 105-134.

Você também pode se interessar por:

ARAUJO, B. L. D. ; SÁ, D. C ; MIRANDA, A. D. ; SIOTANI, E. ; FUJISAKA, L. C. H. . O Museu do Desenho da Criança: um estudo da produção gráfica infantil. Revista Educação, v. 4, p. 55-77, 2014.

SÁ, D. C;   JACOMINI, M. A. Alfabetização de todas as crianças até o final do Terceiro Ano do Ensino Fundamental: acompanhamento da Implantação da Meta 5, do PNE 2011/2020 http://goo.gl/Kd1nik

Erro ortográfico, irreflexão do emissor ou do leitor?

O aluno não sabe fazer “O” com o copo?

Um pequeno detalhe no pronunciamento de ontem! Será que vocês perceberam também?

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Panem está em festa! Nosso generoso Presidente fez questão de manter as tradições! Muitos fogos, muitas cores (em especial o vermelho sangue, hit da estação), gelo seco para criar ar de mistério nas ruas por onde cidadãos festejavam! Um estouro! Até helicópteros acompanhavam os cortejos pela cidade!. Alguns podem dizer que ele não surpreendeu fazendo o que todo Presidente faz, mas convenhamos, cada Presidente gosta de dar sua pitadinha, seu toque especial na festa, não é mesmo? Como estava bem penteado nosso presidente! Viram como ele fala bem o Português? Coisa linda demais! E as palavras bonitas? Foram tantas, mas fiz o esforço (ufa!) de separar os trechos mais singelos para vocês saborearem comigo. Vamos lá?

Meu único interesse, e que encaro como questão de honra (…) um país reconciliado, pacificado e em ritmo de crescimento. Um país que dê orgulho aos seus cidadãos

(…)

Panem é uma nação extraordinária. Possuímos recursos naturais em abundância. Um agronegócio exuberante, que não conhece crises. Trabalhamos muito. Somos pessoas dispostas a acordar cedo e dormir tarde em busca do nosso sonho. Temos espírito empreendedor, do distrito 01 ao distrito 12

(…)

O governo é como a sua família. Se estiver endividada, precisa diminuir despesas para pagar as dívidas

Tão nobre! Tão honrado! Os distritos unidos são fundamentais para um show memorável. Os pacificadores, peça chave e com uniformes que nunca saem de moda, terão presença forte, como não poderia deixar de ser. O que seria de Panem sem a dedicação desses mantenedores da Ordem e Progresso? Snow não deixou dúvidas, pacificação é tradição! Homem de fé e coragem! Dias memoráveis como ontem servem para lembrar a nós como somos importantes pra Capital, como a força e a determinação de cada um constrói uma nação unida, sem partido, sem brigas e violência. Cada distrito tem sua função, mas a bandeira é uma só! Às vezes algum sacrifício é necessário para o bem de todos, para abundância e prosperidade. Assim como você divide o pouco que tem com sua família, assim também é a Capital, por isso, não estranhem se os suprimentos vierem um pouco mais escassos. Faz parte de um bem maior, a conta é de todos nós! Ah! O pequeno detalhe que a equipe de Snow esqueceu: Cadê a rosa branca na lapela? Senti falta daquele charme que cai tão bem com os fios platinados!

Feliz Jogos Vorazes! E que a sorte esteja sempre a seu favor!

Preces feitas de livros, granadas, incensos

Textões de Facebook, estudo, livros, dia-a-dia, a gente só tenta viver. O chumbo é grosso como sempre esteve. Acreditar na Bíblia, em Deus, em título de eleitor, em representantes benevolentes e grandes salvadores, não livra. Não liberta a fome e a miséria do mundo, qualquer resposta sozinha nunca será o bastante. Seja qual for o nome da teoria, da sua fé nas palavras ou a escritura preferida. A gente tem que continuar tentando, a gente só tenta viver. Não há onipotência, não há onipresença, não há onisciência. Só existe empenho, o esforço, a teimosia. Enquanto estivermos vivos, teremos treta. Enquanto houver desigualdade, haverá resistência. Não existem águas tranquilas. Nascer é ser jogado no mar revolto. A gente só tenta viver.

O mundo não mudou

“Todo homem trai”

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I. Todo. Todo*. Não. Os gêneros são capazes de desenvolver (ou desejar muito, mesmo lutando contra as pulsões) relações extra conjugais. A monogamia não é a maior das prisões porque isso não existe. Nenhuma estrutura tem poder sozinha. Todavia, é incontestável o respaldo que a mesma encontra no Estado, na religião, nas manifestações e representações culturais e midiáticas. O amor romântico tradicional ainda dualiza mente e corpo, coração e tesão, como se quem seguisse e respeitasse o que o corpo pede tivesse pouco caráter.

As pessoas superestimam fidelidade na esfera pública. Mas vai ouvir o que elas fazem no privado… homens, mulheres, pessoas de todas as idades e classes sociais. Por tédio, por carência, por vingança, por se sentirem incompreendidas, por tesão. A grande questão não é pontuar se toda pessoa trai ou não. É sobre admitir honestamente o quanto em termos gerais a monogamia é hipócrita e uma grande fachada.

* Considerar que todo homem em qualquer tempo histórico, independente da ontogênese, em qualquer recorte geográfico, econômico e cultural fez exatamente a mesma coisa é extrapolar o microcosmo como medida de análise.


II. “Homem” tem seu peso e relevância como categoria de entendimento histórico, como análise macro e estrutural. Porém, tendo a fazer vários recortes juntos, mesmo com o estrutural posto. Por exemplo em GoT, uma coisa é você ser um homem herdeiro do trono sendo bastardo ou legítimo, sendo anão ou com um corpo dentro dos padrões capacitistas. Seria tudo diferente sendo uma mulher anã ou bastarda, mas o fato é que mesmo a categoria mais estruturante dando um montão de privilégios e sustentações não pode ser lida sozinha, é sempre preciso considerar as variáveis porque mesmo pequenas elas fazem o resultado geral ser muito específico. Nas pesquisas qualitativas (meu tipo preferido de trabalho de campo), a gente tenta sondar justamente esse micro permeado de macro. E toda hora precisamos mostrar na metodologia o quanto aquilo é uma amostragem porque fotografia total a gente nunca vai ter braço pra alcançar mesmo. 

Nas do tipo quantitativa e/ou de grande abrangência, os pesquisadores tentam uma amostragem significativa, grandes números grandes dados, grandes análises (tipo que o Bourdieu fazia). Em dados precisos ainda tem margens de erro, para mais ou para menos. É desse tipo de margem que eu tô falando. Mesmo em categorias amplas tem a miudeza muito relevante, como na construção do gosto, pensar nas estratificações extra-econômicas (gênero, escolaridade dos pais, alimentação, etc). Linguisticamente a gente precisa de conceitos encapsulados para construir argumentos, todavia, a frase solta “todo homem x” não pontua o que exatamente está denominado enquanto “todo”, tampouco, “homem”. Com isso, abre margem para interpretações rasas do tipo:

◔ Feminismo meu macho minha vida: quem fica com omi comprometido não tem sororidade
◔ Feminismo monogamia só rola entre e com mulheres: porque só omi tem fogo nas venta e no cu
◔ Senso comum: homem tem instinto e desde “o tempo cavernas” quer espalhar semente em ancas protuberantes (jacuzzi de bebê)
◔ Homem como categoria atemporal e sem qualquer recorte

Se o pessoal é político demanda critério e cuidado na avaliação. Ainda mais em um tema tão passional quanto as relações com os corpos e a sexualidade, adentrando as instituições conservadoras derivadas da monogamia heterossexual como a família e o matrimônio.

A minha grande clavícula, o médico gostosão, as três residentes e muito lubrificante

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Havia o receio de que eu tivesse alguma disfunção na tireóide. Os médicos pediram pra ficar de olho. Testes refeitos, refeitos, nada, nada. Hoje, mais um ultrassom. O médico gostosão pergunta:
– Quantos anos a Senhora tem?
– Trinta

SPLET. O gostosão me bezunta o pescoço de lubrificante (não precisa dizer o que estão pensando, pode apostar que confabulei só o mais baixo nível, ainda mais com ele me chamando de Senhora).

– Graças a Deus, a Senhora não tem nada, nódulo. Nada. Tá perfeitinho.

** Insira aqui minha imaginação com ele e aquele tanto de lubrificante** Mas continuemos a história pois tenho compromisso em ser realista nas minhas crônicas, por mais fantosiosas que pareçam ser e ao contrário do que podem supor os incrédulos, são narradas com justeza

Me limpei. Gostosão me passou para outra sala.
Cheia de mulheres.Residentes.

– A gente pode fazer outro exame em você?
– Outro? É que eu já fiz da…
– Da tireóide, mas a gente tá treinando.
– Pra que?
– Pra anestesia – Disse uma
– Para não dar a geral no paciente, – Disse a outra
– Para poupar a anestesia total – Emendou a terceira

Consenti. Começaram pelo braço. SPLET. Taca lubrificante na maquininha. SPLET. A maquininha desliza enquanto elas apontam empolgadas pra tela:
– Aqui a derme
– Olha, ali, ali, não pode ser!
– É o olho? Que grandão!
– O que que é grandão?
– Seu olho egípicio, é bem grande, faz uma imagem bonita

E chamam um médico, depois outro aparece, todo mundo olhando meu olho grego, quer dizer, egípicio. Empolgadas com a minha permissividade (estavam alisando meu braço, bezuntada e sendo elogiada, deixei rolar. Mais que uma incentivadora das descobertas científicas, sou hedonista), perguntaram se podiam fazer o mesmo no meu ombro. Concordei. Propuseram cabaninha pra eu tirar o sutiã, já que iam me melar mais. Não me fiz de rogada, dispensei a cabaninha. SPLET. SPLET. Moça, você tá subindo muito no meu pescoço, daqui a pouco SPLET SPELT vai na minha cara HAHAHAHA SPLET SPELT É que a sua clavícula SPLET SPLET é muito grande. Nossa menina, olha que clavícula grande SPLET SPLET

E esse foi meu sábado à tarde. Eu, um médico gostosão. Três residentes e alguns orientadores mais experientes ensinando como tirar um ultrassom de braço. Todos admirados com a beleza do meu organismo em grandes estruturas. Minha beleza interior nunca foi tão elogiada.

Não sou privilegiado não, eu até sofro

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Quando as pessoas dizem que você tem privilégio elas não estão dizendo que você não tem problemas. Elas estão dizendo que você não tem os problemas específicos oriundos da opressão. Esse não é um conceito difícil. 

Semanas atrás na faculdade assisti um vídeo que falava da relevância de Leila Diniz. O que elenquei foi: Ela dizia coisas que chocavam? Sim. Ela deu entrevista e foi censurada? Sim. Ela mostrou o barrigão de grávida enquanto as mulheres escondiam seus ventres? Sim. Mas ela era uma mulher jovem, branca, com projeção midiática, de uma beleza incontestável (com ares de Brigitte Bardot), dizendo que amava fuder e ser livre. Mesmo com um discurso pouco ortodoxo ela era assimilável de algum modo, porque era privilegiada mesmo com as desventuras em ser mulher e todas as auguras em pertencer ao gênero humano.
 
E não foi Leila Diniz sozinha, nem Simone, nem Pagu, nem qualquer indivíduo escolhido como “a cara” de uma linha de pensamento, o dono dos louros da vitória na emancipação de um grupo. Respeito e gosto da história de Leila Diniz, mas exageram na dose em pintar ela como a cara e o corpo da emancipação das mulheres brasileiras. Mesmo quebrando tabus uns corpos são mais autorizados a assumir publicamente suas contestações. Se a Jennifer Lawrence posar se lambuzando com um hamburguer e falando que, nossa, ela adora comer, arrotar e ainda peida, as pessoas vão achar o máximo. Põe a Gabourey Sidibe fazendo o mesmo e espere a comoção pública…
 
Se alguém te diz que você é privilegiado porque é branco, classe média, magro, jovem, estudou em colégio pago a vida toda, tem o rosto e/ou corpo padrão, fala muitos idiomas e tem milhas acumuladas num programa de viagens, entre outros privilégios, essa pessoa não está assumindo que você nunca se fodeu. Ou que nunca te foderam. Ou ainda que em aspectos que fogem da superfície você não pode sofrer terrivelmente por dentro. Duas coisas contam e muito para que você se beneficie nas estruturas: 1) Seu Capital Cultural 2) A sua aparência
 
1) Capital Cultural
 
É um conceito nomeado pelo Bourdieu. Imaginem duas crianças, uma com pais educadores de esquerda e que curtem Jorge Ben Jor, viajou para a Índia e vários países. A outra, uma criança que os pais são pouco escolarizados e não incentivam muito sua permanência na escola, escutam o que está mais na moda do momento, nunca viajou de avião. Essas crianças vão para a mesma escola (vamos supor que os pais educadores acreditam na Escola Pública), a professora mostra uma foto do Taj Mahal em aula. Quem provavelmente vai levantar a mãozinha e contar como é de perto, além de lembrar a música do Jorge Ben? Ou seja, não é só o que você fez com seus privilégios (viagens internacionais), mas também tudo o que culturalmente você experimentou e teve acesso (diferentes sabores, ouvir outros idiomas, sua educação musical considerada de “bom gosto”). Obviamente a educação não se dá apenas com a primeira socialização (tradicionalmente associada ao núcleo familiar), a relação com a escola e o saber pode tomar rumos que desafiem os destinos sociais prévios, mas aí é ponto fora da curva (o estudo de Lahire é uma boa fonte de análise caso busquem fundamentação teórica nesse sentido).
 
2) A sua aparência
 
Você é apresentável? Isso é, as pessoas se orgulham de andar “com alguém como você”? Você apresenta algum maneirismo ou ato ordenador repetitivo que demonstra com gestos que você não é “normal” (algum grau de autismo, por exemplo, com movimentos mais duros ou espasmáticos)?. Seu corpo visivelmente apresenta algo que as pessoas leriam como um grande excesso ou falta (você não tem um braço ou é muito gordo)? Você já andou de mão dada com alguém e a pessoa soltou rapidamente o contato ao perceber que podiam ver vocês caminhando juntos? Você já perdeu uma vaga de emprego para alguém igualmente ou até mesmo menos preparado para o cargo com base no que você aparenta? Você parece hétero?
 
Caso o leitor seja do tipo mais ingênuo pode dizer que no seu círculo social não, no seu meio não há esse comportamento. Julgar pelas aparências é coisa de gente mesquinha e preterimento não rola onde o raio problematizador faz morada, certo?. Até porque uma mulher bonita demais sofre na mesma medida que a feia porque as duas são desacreditadas, certo?. Bad news, everyone! Dá uma olhadinha quem recebe mais investidas no Spotted da faculdade, quem é que “sobra” nas festinhas, quem é apresentada pra família? Vai escutar de quem essa história é comum “Ele disse que estava num momento complicado e não queria se envolver com algo sério, dias depois assumiu com outra mais bonitinha”. Vai ouvir quem recebe mais propostas unicórnio (alguém que entra numa relação sexual casual para apimentar e depois é descartado)… Corpos que não atendem a norma logo de cara, logo na superfície, sofrem encargos muito específicos.
 
Nos casos que a mulher é muito bonita e é tratada como troféu não se compõe a mesma vivência de um corpo abjeto. Usando o filme Malèna de exemplo, a mulher recebe muitos estímulos para ser bonita, se ela consegue atenção pela sua beleza vai despertar raiva porque desperta desejo (seja por ser como ela, seja por desejarem fazer sexo com ela), em alguns casos isso pode gerar atitudes violentas para tornar aquele corpo abjeto. O estupro, é uma forma de tornar um corpo abjeto, raspar os cabelos e machucar é outra. A desumanização é um instrumento de poder aplicada aos corpos para reafirmar ou transformar, corpos em matéria abjeta.
 
Um rostinho bonito não resolve toda a vida mas abre portas, ganha mais credibilidade, recebe mais atenção, carinho, afeto. Isso desde os bebês. Bebês mais branquinhos e lidos como mais graciosos e menos pesados ganham mais atenção. O super estímulo e a extrema paparicação podem gerar tristeza, pressão por manter alto padrão, dependência, o lucro da cosmética e dos remédios controlados, assim, o cenário é desolador para quase todos. Todavia, não é porque é para todos que se dá sem alguns facilitadores ou inibidores. O corpo não abjeto recebe ao menos mais convites, é chamado ao falar, é escutado, lido, ele é em algum grau um modelo a ser seguido, tem legitimidade, mesmo a transgressão vende mais se acompanhada de formas simétricas.
 
Referências
 
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 2. ed. rev. São Paulo; Porto Alegre: EDUSP: Zouk, 2013.
 
LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Ática, 2004.
 
OLIVEIRA, Fabiana de; ABRAMOWICZ, Anete. Infância, raça e “paparicação”. Educ. rev., Belo Horizonte , v. 26, n. 2, p. 209-226, Aug. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982010000200010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on 02 Aug. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982010000200010.

Amor de pica

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Minha definição de amor é mais ou menos assim: você gosta de cafuné, mas de todos os cafunés do mundo quer o de determinada pessoa. É o anseio de um gesto e movimento específico de uma pessoa específica, porque cada sujeito tem um modo muito particular de construir seus gestos num combo de sentidos (força, velocidade, pressão, cheiros…). Portanto, acredito que os cães podem amar. Por exemplo, coçadinha na barriga faz a perninha mexer, mas eles buscam mais algumas pessoas que outras.

Somos mais animais e fisiológicos do que gostamos de admitir. A gente gosta de prazer, fazer uso e ser instrumento de gozo e chamo isso de amor, porque é um atravessamento afetivo em diversos graus e profundidades. “Pensar com a cabeça de baixo” (acusação que já ouvi mais de uma vez em relação abusiva), não me faz alguém em débito com a humanidade ou de pouco caráter. Busco sensações e experiências, não acredito em encontro de almas mas em afinidades e parcerias. Chamo isso de amor e me considero extremamente romântica. Amo com os braços, com estímulos mentais, com a boca, com os pés e claro, com a minha buceta.