Muito sem pensar

Eu quero sentir os dias muito sem pensar. Só sendo o que tiver de ser, deixando o que deve ficar. Desejo o sol e o tempo cinza, a saudade, o pesar. Não saber se hoje é quinta-feira ou domingo, o sentir tudo e no mesmo dia, nada, o confuso e o não-lugar. O adeus definitivo, au revoir. Não sei se raiva deve emergir, se o perdão devo clamar, aos céus, às forças, às lágrimas, as chuvas, as amoras, os dias que deixei atrás. Bússola molhada da maré que subiu, meu coração é de luta e luto. Meu pai grande e imenso, partiu. Meu pequeno e franzino, homem e muito mais ainda menino, conseguiu partir como sempre me prometeu. Me resta ser filha, ser irmã, ser mulher, ser feliz. Reler sua declaração última, até que eu apreenda todo amor amassadinho que você reservou, encapsulado, dose única, de doer na garganta e pra tomar de um gole só. Eu serei, meu pai, prometo, alguém melhor. E com tempo eu vou digerir as tuas ausências, o melhor que pôde ser, tuas dores e lutas, o teu proceder. E continuarei a ser, a mulher inteira, grande, forte, de alegria a irradiar. A que você viu crescer tanto e tão cedo, a que sempre sempre, há de te amar.

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Fica, fica, fica tudo bem

Se a maré sobe. Se choro dia sim, dia também. Se vejo o amargo, se durmo no trem. Se te vejo na terça, quarta-feira, domingo, convém. No dia cinza, nas nuvens do além, as almas penadas, as cordas mofadas, o que me entretém. As cartas na mesa, com ou sem sobremesa, dieta, não tem. As palavras de crianças feitas de verdade, as do adultos, de porém. A militância me cansa, o ódio se desterra e embriaga, corroem. A palavra me foge quando deixo que o corpo contém, minha dor, meu desejo, minha lágrima, coragem.

A natureza e suas forças deram-me energia indômita, verbo ferino, palavra veloz, deram beleza, um punhado de gana e um bocado de paz. Deram muito pra dar, preciso ainda colher. Não mais os pedaços, os inteiros. Sem caco, farpa, miniatura, tempo de estiagem.

Elogios são fatos. Não mais peso, não mais demais, esse tombo rompendo o assoalho, difícil e enrolado de lidar, ensaio, me canso de segurar, a palavra pula para fora da garganta, sai. Não cabe, não encaixa, não, fica, fica, fica. Nem nos peitos, nos pés, no estômago, na nuca, não mais. Me resta todo o gigantesco resto, os enormes quintais, o ombro beijado pelo amado, o bigode dos animais, a primavera e claro, os carnavais. A rua, a lua, a água que corre, as brasas, os anais, amigos e as risadas, os encontros universais. O tempo e seus ponteiros, não mais rivais, marcando nos compassos atuais. Fica, fica, fica, tão somente o que satisfaz.

Íntimo

O espaço que o amor criou em mim é cheio de ar. Para que não mais exista a água que me afogava e não temo mais. Dei adeus aos incômodos e profecias apocalípticas de tragédia e fatalismo. E agora, restou um grande quadrado tomando todo o meu ventre, com espaço, com som de vento e calmaria. Para que existam entre as minhas vísceras e costelas todo o espaço que couber. Para que novos elementos surjam, se quiserem, que chegue a terra, com planta, vida. Para que eu possa receber, a madeira, o fogo, as pedras, o sal e o mel. Meu oceano dá pé, agora dá. E descobri de dedo mindinho posso mergulhar mais fundo ainda, não mais sem equipamento, não mais sozinha, o que não me falta é apoio para as costas. Sem mais espasmo em agonia e se por ventura me distrair e surgirem machucados, bem, não preciso mais fugir, esconder as cicatrizes. Eu mostro sem remorso, sem pedir desculpas, as lágrimas que aparecem quando for necessário e se o universo continuar generoso como tem sido, não me faltarão boas companhias.

Para que eu possa ser testemunha do céu, das estrelas, dos barulhos de cigarras. E da fumaça do cigarro dele, varanda aberta, como o tórax que se expande enquanto sinto a respiração nas minhas costas, encerrando num suave beijo em meus ombros, ele dizendo, olho apertado, boca grande e sorridente que poderia, pode apostar, passar a noite ali, carinhando meus cabelos. A mão grande toma meu rosto inteiro e a lateral do meu corpo convida, querendo ser travesseiro. Minhas pernas entrosando, tentando prender o tempo do relógio e quem sabe trapacear o agito apressado, só existente da janela para fora.

Stephen Hawking: “preso no próprio corpo”?

Stephen Hawking foi uma pessoa extraordinária. Estava “preso no corpo” tanto quanto nós, uma vez que essa é a condição de todos os seres. As experiências dependem do corpo. Até mesmo o êxtase (seja carnal ou espirutual para os que creêm), geram calores, formigamentos e a adrenalina, ou seja, tudo o que te atravessa os sentidos, é corpo. Está contido nele, não tem como escapar. Hawking, sequer, estava encarcerado na cadeira, ela era parte de sua locomoção. Um corpo é aquilo tudo que a gente tem e é por meio dele que a gente existe. Percebemos as rugas chegando, os roxos passando, os fios crescendo e caindo, a pele que cura e sara formando marcas. Não reduza um indivíduo por tudo o que você acha que o corpo dele poderia ter feito e não fez. Cada árvore produz um fruto, se aquilo não agrada teu paladar, se acha o caroço muito grande, se não está maduro o suficiente, olhe seu próprio solo, raízes, fruto, flor, folhas. Todo corpo é cheio de potências e o Stephen Hawking foi muito vigoroso enquanto esteve aqui.

Ele não é um exemplo de superação. Ele não serve para percebermos “que reclamamos de barriga cheia”. Ninguém serve para ser modelo de inspiração no que julgam se tratar de uma limitação ou mesmo, uma “desgraça”. Aliás, “dozinha” e “peninha”, tira totalmente a autonomia dos sujeitos, se tem alguém que além disso esbanjava sabedoria, é justamente Stephen Hawking. Não por ter super poderes “para compensar” uma lacuna de terceiros. No geral, se diz isso de pessoas que não se encaixam na categoria de corpo “capaz”. Ela é super divertida porque é gorda. Ele tem uma super sensibilidade porque é surdo. Ele é super inteligente porque é autista. Nós somos super e também somos mundanos e medíocres. Isso implica afirmar que não demora até alguém divulgar alguma postura eticamente duvidosa por parte do matemático. Pois, antes de qualquer coisa somos humanos. Falíveis e incríveis, ao mesmo tempo.

Ele aparentemente sabia viver e bem. E como bom professor, soube afectar as pessoas. E é assim que merece ser recordado. Que seja bom, seja lá qual for seu lugar de agora.

As resoluções de uma mulher de pouca fé

Ainda não entendo a barbárie e o absurdo da vida. Sequer se existe de fato uma força protetora que nos resguarde e ampare. Quisera eu ser uma mulher de fé com a certeza de que os meus, as crianças, as mulheres, estariam realmente seguros. Mesmo em meus tempos de fé absoluta, a única certeza que tive é que não existe espaço seguro. E se a gente quer tentar fazer do mundo um lugar mais amoroso é preciso erguer as mangas, abrir os braços e enlaçar. Ser doce é um gesto de bravura. E isso está para além do intelecto, acúmulo teórico ou arcabouço de vocabulário. É isso o que a minha trajetória tem me ensinado. Num mundo bruto, seco e ríspido, há espaço para doçura, mas esse caminho tem de ser aberto com uma grande espada, dessas que se dobram sem nunca quebrar. O amor em tempos de ódio (e quando o mundo foi diferente disso?), é a única forma que conheço de me manter sã.

Ready to start

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Pegar canudo na Unifesp. Primeiro emprego como professora. Registrado. Birra de criança. Criança com diagnóstico. Criança em surto. Trabalhar mais de dez horas. Criança quebrando janela. Criança me dando desenho com coração e número da casa dela (caso eu perdesse esse, podia cobrar outro). Criança quebrando meu óculos com soco. Óculos novo. Grau em um escuro também. Criança rica que viaja de helicóptero. Criança aprendendo a ler. Professora falando mal da criança e traçando mil destinos sociais perversos. Dormir na hora do almoço. Fazer um amigo. Ganhar festa de aniversário surpresa. Happy hour. Outback de graça. Slut-shaming . Presentes e agradecimentos de pais que se importam. Começo de um namoro novo. Término de dois. Ser folguista. a) Amar, ser correspondida, mas não poder concretizar nada. b) Amar, sem ser correspondida (e ainda suspirar por aquele sujeito gostoso do caralho). c) Amar e ser correspondida, mas não poder ficar muito tempo junto pois trabalho e vida. d) Amar e sabe-se-lá se sou correspondida, ele me deixa confusa (e tímida) [O que dá um total de 5 apaixonamentos novos no decorrer e um fechamento de solteirice (?) ao final]. Concurso público. Professora, ainda, agora, mais orgulhosa. Helicóptero que sobrevoa a escola no primeiro dia que estou lá porque aconteceu chacina na noite anterior. Crianças que abraçam e beijam, elogiam e se chocam demais por eu não ter filhos, marido, nem namorado. Criança aprendendo a ler. Professora falando mal da criança e traçando mil destinos sociais perversos. Fiz amigos. No plural. Em processo com a timidez absurda e a desconcertante  tarefa de fazer colegas, amigos ou me declarar sem afugentar pessoas. Acolhi crianças com históricos muito parecidos com a minha trajetória, espero ter dado alguma esperança de dias melhores que virão com luta e orgulho. Assinei camisetas. Participei voluntariamente de uma partida de futebol na quadra da escola (no gol, claro). Bloqueio da escrita pessoal, por meses. Fiquei “alegrinha” ao beber. Desbloqueei a raiva com terapia. Churrasco na escola, com voluntária cozinhando pratos vegetarianos pra mim. Vi o Arcade Fire, de perto. Tatuagem nova. Repensei minha espiritualidade.

Que minha buceta, coração e mente sejam minhas guias e posses. Que eu tenha demasiado amor próprio e discernimento para lidar com meu corpo e espírito. Amém.

Pixei e saí correndo, pau no cu de quem tá lendo

Talvez essa seja a declaração de amor mais rude que eu já fiz, não só pelo título, mas porque esse é o único meio de fazer. Contrastante ao modo como teu sorriso tímido procura meu corpo e eu posso ficar em silêncio, dando colo, cafuné, carinho, escutando você me contar da sua semana. Caralho… dá umas reviravoltas lembrar de como você aperta os olhos pra fumar, meu corpo todo atento tentando entender como tal gesto despreocupado me acelera. Te marco por fora pra mostrar toda a fome e apetite gerado. Como me agita e mexe com os brios. Daqueles que eu mais adoro sentir, tão bonitinho, tão gostosinho, tão bem encaixado, tão macio e pra dentro que eu quero morder, arranhar, fazer o diabo, esmiuçar e quebrantar essa beleza toda. Pra que saiba, caso ainda não saiba, o quanto eu gosto de trocar ideias e fluidos com você, tá aqui, arregaçado e arrombado, dilatado e aberto. Um amor desses que eu gosto de cultivar, sem pressa, sem nome pronto e ideias mirabolantes. Só sei que tá bom e gostoso e quente e relaxante. Você é foda e zika e eu nem sei o que vai achar de tudo isso, porque às vezes me toma de assalto deixar evidente o que causa por aqui. É das causas e coisas, essas amorosas e românticas mas nunca jamais mesmo, tradicionais. Talvez por isso faça sentido, sentir tudo em demasia e só o palavrão, o impulso e a pornografia sejam acurados para eu conseguir te dizer com precisão imprecisa o tanto de coisa que eu sinto se estou perto de você.