Stephen Hawking: “preso no próprio corpo”?

Stephen Hawking foi uma pessoa extraordinária. Estava “preso no corpo” tanto quanto nós, uma vez que essa é a condição de todos os seres. As experiências dependem do corpo. Até mesmo o êxtase (seja carnal ou espirutual para os que creêm), geram calores, formigamentos e a adrenalina, ou seja, tudo o que te atravessa os sentidos, é corpo. Está contido nele, não tem como escapar. Hawking, sequer, estava encarcerado na cadeira, ela era parte de sua locomoção. Um corpo é aquilo tudo que a gente tem e é por meio dele que a gente existe. Percebemos as rugas chegando, os roxos passando, os fios crescendo e caindo, a pele que cura e sara formando marcas. Não reduza um indivíduo por tudo o que você acha que o corpo dele poderia ter feito e não fez. Cada árvore produz um fruto, se aquilo não agrada teu paladar, se acha o caroço muito grande, se não está maduro o suficiente, olhe seu próprio solo, raízes, fruto, flor, folhas. Todo corpo é cheio de potências e o Stephen Hawking foi muito vigoroso enquanto esteve aqui.

Ele não é um exemplo de superação. Ele não serve para percebermos “que reclamamos de barriga cheia”. Ninguém serve para ser modelo de inspiração no que julgam se tratar de uma limitação ou mesmo, uma “desgraça”. Aliás, “dozinha” e “peninha”, tira totalmente a autonomia dos sujeitos, se tem alguém que além disso esbanjava sabedoria, é justamente Stephen Hawking. Não por ter super poderes “para compensar” uma lacuna de terceiros. No geral, se diz isso de pessoas que não se encaixam na categoria de corpo “capaz”. Ela é super divertida porque é gorda. Ele tem uma super sensibilidade porque é surdo. Ele é super inteligente porque é autista. Nós somos super e também somos mundanos e medíocres. Isso implica afirmar que não demora até alguém divulgar alguma postura eticamente duvidosa por parte do matemático. Pois, antes de qualquer coisa somos humanos. Falíveis e incríveis, ao mesmo tempo.

Ele aparentemente sabia viver e bem. E como bom professor, soube afectar as pessoas. E é assim que merece ser recordado. Que seja bom, seja lá qual for seu lugar de agora.

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As resoluções de uma mulher de pouca fé

Ainda não entendo a barbárie e o absurdo da vida. Sequer se existe de fato uma força protetora que nos resguarde e ampare. Quisera eu ser uma mulher de fé com a certeza de que os meus, as crianças, as mulheres, estariam realmente seguros. Mesmo em meus tempos de fé absoluta, a única certeza que tive é que não existe espaço seguro. E se a gente quer tentar fazer do mundo um lugar mais amoroso é preciso erguer as mangas, abrir os braços e enlaçar. Ser doce é um gesto de bravura. E isso está para além do intelecto, acúmulo teórico ou arcabouço de vocabulário. É isso o que a minha trajetória tem me ensinado. Num mundo bruto, seco e ríspido, há espaço para doçura, mas esse caminho tem de ser aberto com uma grande espada, dessas que se dobram sem nunca quebrar. O amor em tempos de ódio (e quando o mundo foi diferente disso?), é a única forma que conheço de me manter sã.

Ready to start

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Pegar canudo na Unifesp. Primeiro emprego como professora. Registrado. Birra de criança. Criança com diagnóstico. Criança em surto. Trabalhar mais de dez horas. Criança quebrando janela. Criança me dando desenho com coração e número da casa dela (caso eu perdesse esse, podia cobrar outro). Criança quebrando meu óculos com soco. Óculos novo. Grau em um escuro também. Criança rica que viaja de helicóptero. Criança aprendendo a ler. Professora falando mal da criança e traçando mil destinos sociais perversos. Dormir na hora do almoço. Fazer um amigo. Ganhar festa de aniversário surpresa. Happy hour. Outback de graça. Slut-shaming . Presentes e agradecimentos de pais que se importam. Começo de um namoro novo. Término de dois. Ser folguista. a) Amar, ser correspondida, mas não poder concretizar nada. b) Amar, sem ser correspondida (e ainda suspirar por aquele sujeito gostoso do caralho). c) Amar e ser correspondida, mas não poder ficar muito tempo junto pois trabalho e vida. d) Amar e sabe-se-lá se sou correspondida, ele me deixa confusa (e tímida) [O que dá um total de 5 apaixonamentos novos no decorrer e um fechamento de solteirice (?) ao final]. Concurso público. Professora, ainda, agora, mais orgulhosa. Helicóptero que sobrevoa a escola no primeiro dia que estou lá porque aconteceu chacina na noite anterior. Crianças que abraçam e beijam, elogiam e se chocam demais por eu não ter filhos, marido, nem namorado. Criança aprendendo a ler. Professora falando mal da criança e traçando mil destinos sociais perversos. Fiz amigos. No plural. Em processo com a timidez absurda e a desconcertante  tarefa de fazer colegas, amigos ou me declarar sem afugentar pessoas. Acolhi crianças com históricos muito parecidos com a minha trajetória, espero ter dado alguma esperança de dias melhores que virão com luta e orgulho. Assinei camisetas. Participei voluntariamente de uma partida de futebol na quadra da escola (no gol, claro). Bloqueio da escrita pessoal, por meses. Fiquei “alegrinha” ao beber. Desbloqueei a raiva com terapia. Churrasco na escola, com voluntária cozinhando pratos vegetarianos pra mim. Vi o Arcade Fire, de perto. Tatuagem nova. Repensei minha espiritualidade.

Que minha buceta, coração e mente sejam minhas guias e posses. Que eu tenha demasiado amor próprio e discernimento para lidar com meu corpo e espírito. Amém.

Pixei e saí correndo, pau no cu de quem tá lendo

Talvez essa seja a declaração de amor mais rude que eu já fiz, não só pelo título, mas porque esse é o único meio de fazer. Contrastante ao modo como teu sorriso tímido procura meu corpo e eu posso ficar em silêncio, dando colo, cafuné, carinho, escutando você me contar da sua semana. Caralho… dá umas reviravoltas lembrar de como você aperta os olhos pra fumar, meu corpo todo atento tentando entender como tal gesto despreocupado me acelera. Te marco por fora pra mostrar toda a fome e apetite gerado. Como me agita e mexe com os brios. Daqueles que eu mais adoro sentir, tão bonitinho, tão gostosinho, tão bem encaixado, tão macio e pra dentro que eu quero morder, arranhar, fazer o diabo, esmiuçar e quebrantar essa beleza toda. Pra que saiba, caso ainda não saiba, o quanto eu gosto de trocar ideias e fluidos com você, tá aqui, arregaçado e arrombado, dilatado e aberto. Um amor desses que eu gosto de cultivar, sem pressa, sem nome pronto e ideias mirabolantes. Só sei que tá bom e gostoso e quente e relaxante. Você é foda e zika e eu nem sei o que vai achar de tudo isso, porque às vezes me toma de assalto deixar evidente o que causa por aqui. É das causas e coisas, essas amorosas e românticas mas nunca jamais mesmo, tradicionais. Talvez por isso faça sentido, sentir tudo em demasia e só o palavrão, o impulso e a pornografia sejam acurados para eu conseguir te dizer com precisão imprecisa o tanto de coisa que eu sinto se estou perto de você.

Criança se masturba?

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Imagina que loko os cabecinha de ovo descobrirem que crianças tem sexualidade. Que crianças se masturbam. Que elas tem “coceirinhas”, “frio na barriga” e outras emoções de uma sexualidade polimórfica. Imagina que loko eles imaginarem que não é a pornografia, os tempos modernos ou o raio que o parta que faz as crianças sentirem “coisas”, mas que tcham tcham tchaaaaaam nós, seres humanos, somos criaturas sexuais e sexuadas. A diferença é que a “frequência” (no sentido do tipo ondas de rádio)¹ é diferente para nós adultos e elas. As crianças tem o direito de buscar o próprio prazer, descobrir o próprio corpo, nós adultos não temos nada a ver com isso. A nudez do corpo adulto ou mesmo infantil mexe com a curiosidade delas porque elas não tem noção alguma de fisiologia, querem ver como e porque o corpo do Outro é diferente do dela. Não é tesão, é curiosidade, empírica. É compreender o que se tem, o corpo, as possibilidades, elas ficam curiosas se vão ter pêlo ou não, como e onde vai nascer. É uma curiosidade natural. Não criemos pânico. A mente “poluída” é a adulta (não raro, a mais conservadora é a que mais pensa “besteira”).

Falarei uma coisa que talvez seja devastadora para alguns de vocês, mas vamos lá: Em muitos casos o que aterroriza as crianças não é a violência em si, mas todo o fantasma e pudor que vocês colocam em cima das suas experiências e corpos. Os adultos reagem tão exageradamente diante da possível ameaça sexual que as crianças começam a ver bicho papão onde não tem, não raro, começam a imaginar que seu corpo é passível de toda vulnerabilidade e que são “vítimas perfeitas” e sem escapatória. Que o corpo delas ou suas sexualidades são sujas, ruins e Deus, o Diabo, a lei e os homens estão ali de vigilância. As crianças não podem ser criadas em redomas. E elas não são, escute todo adulto super protegido ou até mesmo o adulto que foi negligenciado, as asperezas da vida atingem a todos. O mundo pode ser um lugar hostil, mas também pode ser de acolhimento e fortalecimento. Precisamos empoderar as crianças. Incentivar valentia, coragem e o desbravar do mundo. Educar para uma expressão fluída do corpo e do pensamento, sem tensão, sem temor, sem vergonha. Respeitar seus tempos infantis, suas descobertas. Nós adultos devemos nos retirar e deixar que elas sigam seu curso. O papel do adulto é mediar e proteger do perigo, sim. Mas um perigo real, concreto, não imaginado de uma cabecinha paranóica². Educar pelo medo nunca é saudável.


¹ Para os que faltaram nas aulas de interpretação de texto ou querem agir com má fé: Não defendo pedofilia (inclusive sou sobrevivente desse tipo de violência). O que quero dizer como alguém que estuda a infância e o comportamento infantil é que as crianças tem uma curiosidade natural e “sem maldade” sobre o corpo humano e nós adultos não temos o direito de interferir nessa curiosidade ou fazer elas se sentirem culpadas quando estão tão somente sendo… crianças.

² Se você é uma pessoa que morre de medo da criança pela qual é responsável passar por violência, não crie um estado de alerta. Você não está protegendo a criança assim, está só amedrontando e a deixando mais vulnerável. Procure um profissional de saúde mental para lidar com as suas inseguranças da vida adulta.

 

Cavalo

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Uma imagem mental começou a delinear a minha imaginação. Um cavalo. Não nomeio stress pós traumático, depressão, síndrome do pânico, crise de ansiedade. Preferi e julguei mais acertado imaginar um cavalo. Pouco sociável, abnegado, machucado, forte, estranho, desconfiado e ao mesmo tempo muito grato por qualquer atenção. Nutrido de restos, de sobras, de pouco. Raiva, rancor, ressentimento, abandono. É esse cavalo que no piloto automático faz sentar separada num grupo. Buscar cantinhos. Agradecer demasiadamente por cuidados e reciprocidades, ter dificuldade em ser abraçada (já notaram como sou eu quem se doa e abraça e beija e suspende em rodopios e declama versinhos e elogia escancaradamente?) Porque me encanto e vejo beleza. E reluto em me ver como alguém foda. Ontem recebi um elogio nesse sentido “sempre te achei foda” e numa piadinha desnecessária e autodepreciativa emendei: “e agora me acha uma chatona (porque está me conhecendo melhor)”. E é uma luta cansativa e de décadas. Faço vista grossa, quando dou por mim, o cavalo está cansado e tentado montar na minha parte gata. A parte confiante, descarada e que flerta com meio mundo, desejosa, voraz, sorridente, que se atira, se arrisca. Advinha quem habita esse corpo há mais tempo? Claro que a parte comedida. A parte cavalo. A que se mata de estudar ou doar para provar que tem algum valor. Algo não humano, de carga, sem propósito para além de zelar do Outro, de ser escudo para privar o exterior da dor devastadora que se sentiu. Eu não quero mais, mais que isso, eu não posso mais drenar minha energia negligenciando minha condição mental. Preciso cuidar melhor, escovar a crina, dar espaço para coices e galopes. Não é porque é um cavalo difícil e genioso que vou abrir mão. Só precisa de uma tutoria responsável.

Outro corpo, novo amar, um sétimo sentido felino

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O corpo é uma fruta que demora a morrer, ao menos o meu, durou mais que o esperado. Intuí muito prematuramente a semente de que era feita, um caroço desconjuntado espinhoso e de odor possivelmente repelente. Pois a ojeriza do Outro parecia um aviso ou presságio, nada de bom ou muito pouco de bom poderia sair daqui. Não foram um ou dois eventos isolados, seguidas e repetidas percepções calcadas em anos de observação de faces contraídas, testas franzidas, olhares de preocupação, maldições religiosas e morais, surras, invasões, escurraços, admoestações de todo tipo. A estrada é longa, o caminho é deserto. E o lobo mau passeia aqui por perto. E não é que estavam certos? Os caninos estavam próximos. E para piorar (?) sempre gostei de ser menina. Uma menina sagaz, sorriso maroto, uma cara de quem apronta, que vai dar trabalho, amorosa, calorosa, gentil, com paixão por usar rabos de cavalo e óculos escuros, mini-saias, soltando “pérolas”, deixando os adultos em calças curtas. Ao mesmo tempo em que se acha gracioso menininhas assim, de imeadiato tentam castrar essas garotas, constranger. Foi precisamente o que concluí. As caras, os roxos, os beliscões, chacoalhos e marcas, o escárnio das salas de aula, as palavras duras, punições inevitáveis, é esse o destino das meninas atrevidas e curiosas, a lição mais dura de todas, a contenção absoluta. É dar a elas o apetite mais voraz e não poderem comer,  a natureza dar a pele macia e não desejarem o toque, é dar-lhes um coração imenso e poderem demonstrar tão somente beijos comedidos, roubados e secretos. Me foi apresentada pouca possibilidade de ser outra coisa além de menina que busca aventura e é punida por buscar prazer, no cristianismo e na dieta, não há nada mais pernicioso. A outra possibilidade até então apresentada, era questão de honra não ser. Prometi assim que tive dissernimento jamais me comportar como aqueles lobos de genética desvairada a Canis lokus familiaris. Ou só podia ser vítima, ou só podia ser algoz. E não é que estava(m) errada(s)? Com ajuda de quem me olhou e respeitou, quem escutou e ficou, abraçou e amou de volta e em especial, com a terapia e um olhar franco sobre o que realmente sou é que emerge Felis silvestris catus, uma felina, nem sempre andando de gatinhas. E nesse corpo mais destravado, mais aberto, mais exposto, com maiores receptores de sentido, absolutamente tudo tem se tornado mais sensorial e motivo de gozo. O marco mais impactante foram semanas atrás, quando um amor me levou para comer um risoto de cogumelos e experimentar Cosmopolitan, desmanchei e gemi no fumegante prato, no gelado-quente-cítrico daquele copo de boca larga e haste fina. Eu não preciso mais ter medo de entrega e perder o controle porque já tomei posse do meu corpo, logo, a hipervigilância não se faz necessária, só gera cansaço e é o inverso da proteção e segurança. Com esse novo corpo e bigodes sensíveis sentei num sofá e ganhei carinho na orelha com um velho conhecido, abri a blusa, recostei num peito e ouvi a batida de seu coração, deixei sentir.

 

Ontem no trabalho, em surpresa fizeram um bolo, é mês de meu aniversário. Vem aqui Deborah, quero te mostrar um negócio. Estavam colegas de trabalho todas lá. Corei. E esse é um fato novo. Agora, fico corada, as palmas começaram, chorei, em choque, grata. Aprovação e carinho grupal, em especial dos grupos de vivência cotidiana como trabalho e faculdade mexem demais com meus brios. Estou habituada a ser o bicho raro interpelado sem cuidado ou com pressa demais (você é diferente, exótica, me fala como você faz sexo). Eis que começam uma sucessão de coisas boas, nas quais, os sentidos aguçados dão uma série de prazeres em níveis inimagináveis e olha só que fantástico! Faz muito tempo que não sinto dissociação, ao contrário, me sinto fortalecida, segura, em posse do meu corpo e própria história, se alguém não gosta ou não quer mais, a vida está caminhando, meus projetos, concursos, leituras, vontades, encontros, estão a todo vapor. É calorosamente bom ter abraços sinceros, não ter vergonha de ser transparente ao ponto de corar, de chorar em público, ter coração grande, ter bolo, chegar naquele amor após sair do trabalho às dez da noite e ele abrir a geladeira Olha, comprei o suco que você gosta. Comprei manteiga e parmesão para o macarrão. Ser alimentada, cuidada, nutrida, incentivada, abraçada, beijada, vista, aplaudida, celebrada pelos meus, pelo meu próprio percurso e mérito. The dog days are over, os dias de rugido, calor, manha, coragem e ronrono apenas começaram.