Pixei e saí correndo, pau no cu de quem tá lendo

Talvez essa seja a declaração de amor mais rude que eu já fiz, não só pelo título, mas porque esse é o único meio de fazer. Contrastante ao modo como teu sorriso tímido procura meu corpo e eu posso ficar em silêncio, dando colo, cafuné, carinho, escutando você me contar da sua semana. Caralho… dá umas reviravoltas lembrar de como você aperta os olhos pra fumar, meu corpo todo atento tentando entender como tal gesto despreocupado me acelera. Te marco por fora pra mostrar toda a fome e apetite gerado. Como me agita e mexe com os brios. Daqueles que eu mais adoro sentir, tão bonitinho, tão gostosinho, tão bem encaixado, tão macio e pra dentro que eu quero morder, arranhar, fazer o diabo, esmiuçar e quebrantar essa beleza toda. Pra que saiba, caso ainda não saiba, o quanto eu gosto de trocar ideias e fluidos com você, tá aqui, arregaçado e arrombado, dilatado e aberto. Um amor desses que eu gosto de cultivar, sem pressa, sem nome pronto e ideias mirabolantes. Só sei que tá bom e gostoso e quente e relaxante. Você é foda e zika e eu nem sei o que vai achar de tudo isso, porque às vezes me toma de assalto deixar evidente o que causa por aqui. É das causas e coisas, essas amorosas e românticas mas nunca jamais mesmo, tradicionais. Talvez por isso faça sentido, sentir tudo em demasia e só o palavrão, o impulso e a pornografia sejam acurados para eu conseguir te dizer com precisão imprecisa o tanto de coisa que eu sinto se estou perto de você.

Anúncios

Criança se masturba?

faixa etária

Imagina que loko os cabecinha de ovo descobrirem que crianças tem sexualidade. Que crianças se masturbam. Que elas tem “coceirinhas”, “frio na barriga” e outras emoções de uma sexualidade polimórfica. Imagina que loko eles imaginarem que não é a pornografia, os tempos modernos ou o raio que o parta que faz as crianças sentirem “coisas”, mas que tcham tcham tchaaaaaam nós, seres humanos, somos criaturas sexuais e sexuadas. A diferença é que a “frequência” (no sentido do tipo ondas de rádio)¹ é diferente para nós adultos e elas. As crianças tem o direito de buscar o próprio prazer, descobrir o próprio corpo, nós adultos não temos nada a ver com isso. A nudez do corpo adulto ou mesmo infantil mexe com a curiosidade delas porque elas não tem noção alguma de fisiologia, querem ver como e porque o corpo do Outro é diferente do dela. Não é tesão, é curiosidade, empírica. É compreender o que se tem, o corpo, as possibilidades, elas ficam curiosas se vão ter pêlo ou não, como e onde vai nascer. É uma curiosidade natural. Não criemos pânico. A mente “poluída” é a adulta (não raro, a mais conservadora é a que mais pensa “besteira”).

Falarei uma coisa que talvez seja devastadora para alguns de vocês, mas vamos lá: Em muitos casos o que aterroriza as crianças não é a violência em si, mas todo o fantasma e pudor que vocês colocam em cima das suas experiências e corpos. Os adultos reagem tão exageradamente diante da possível ameaça sexual que as crianças começam a ver bicho papão onde não tem, não raro, começam a imaginar que seu corpo é passível de toda vulnerabilidade e que são “vítimas perfeitas” e sem escapatória. Que o corpo delas ou suas sexualidades são sujas, ruins e Deus, o Diabo, a lei e os homens estão ali de vigilância. As crianças não podem ser criadas em redomas. E elas não são, escute todo adulto super protegido ou até mesmo o adulto que foi negligenciado, as asperezas da vida atingem a todos. O mundo pode ser um lugar hostil, mas também pode ser de acolhimento e fortalecimento. Precisamos empoderar as crianças. Incentivar valentia, coragem e o desbravar do mundo. Educar para uma expressão fluída do corpo e do pensamento, sem tensão, sem temor, sem vergonha. Respeitar seus tempos infantis, suas descobertas. Nós adultos devemos nos retirar e deixar que elas sigam seu curso. O papel do adulto é mediar e proteger do perigo, sim. Mas um perigo real, concreto, não imaginado de uma cabecinha paranóica². Educar pelo medo nunca é saudável.


¹ Para os que faltaram nas aulas de interpretação de texto ou querem agir com má fé: Não defendo pedofilia (inclusive sou sobrevivente desse tipo de violência). O que quero dizer como alguém que estuda a infância e o comportamento infantil é que as crianças tem uma curiosidade natural e “sem maldade” sobre o corpo humano e nós adultos não temos o direito de interferir nessa curiosidade ou fazer elas se sentirem culpadas quando estão tão somente sendo… crianças.

² Se você é uma pessoa que morre de medo da criança pela qual é responsável passar por violência, não crie um estado de alerta. Você não está protegendo a criança assim, está só amedrontando e a deixando mais vulnerável. Procure um profissional de saúde mental para lidar com as suas inseguranças da vida adulta.

 

Cavalo

23c9b299591a788d0e9728df2ed8366d--tattoo-horse-tatoo
Uma imagem mental começou a delinear a minha imaginação. Um cavalo. Não nomeio stress pós traumático, depressão, síndrome do pânico, crise de ansiedade. Preferi e julguei mais acertado imaginar um cavalo. Pouco sociável, abnegado, machucado, forte, estranho, desconfiado e ao mesmo tempo muito grato por qualquer atenção. Nutrido de restos, de sobras, de pouco. Raiva, rancor, ressentimento, abandono. É esse cavalo que no piloto automático faz sentar separada num grupo. Buscar cantinhos. Agradecer demasiadamente por cuidados e reciprocidades, ter dificuldade em ser abraçada (já notaram como sou eu quem se doa e abraça e beija e suspende em rodopios e declama versinhos e elogia escancaradamente?) Porque me encanto e vejo beleza. E reluto em me ver como alguém foda. Ontem recebi um elogio nesse sentido “sempre te achei foda” e numa piadinha desnecessária e autodepreciativa emendei: “e agora me acha uma chatona (porque está me conhecendo melhor)”. E é uma luta cansativa e de décadas. Faço vista grossa, quando dou por mim, o cavalo está cansado e tentado montar na minha parte gata. A parte confiante, descarada e que flerta com meio mundo, desejosa, voraz, sorridente, que se atira, se arrisca. Advinha quem habita esse corpo há mais tempo? Claro que a parte comedida. A parte cavalo. A que se mata de estudar ou doar para provar que tem algum valor. Algo não humano, de carga, sem propósito para além de zelar do Outro, de ser escudo para privar o exterior da dor devastadora que se sentiu. Eu não quero mais, mais que isso, eu não posso mais drenar minha energia negligenciando minha condição mental. Preciso cuidar melhor, escovar a crina, dar espaço para coices e galopes. Não é porque é um cavalo difícil e genioso que vou abrir mão. Só precisa de uma tutoria responsável.

Outro corpo, novo amar, um sétimo sentido felino

Cosmopolitan-2
O corpo é uma fruta que demora a morrer, ao menos o meu, durou mais que o esperado. Intuí muito prematuramente a semente de que era feita, um caroço desconjuntado espinhoso e de odor possivelmente repelente. Pois a ojeriza do Outro parecia um aviso ou presságio, nada de bom ou muito pouco de bom poderia sair daqui. Não foram um ou dois eventos isolados, seguidas e repetidas percepções calcadas em anos de observação de faces contraídas, testas franzidas, olhares de preocupação, maldições religiosas e morais, surras, invasões, escurraços, admoestações de todo tipo. A estrada é longa, o caminho é deserto. E o lobo mau passeia aqui por perto. E não é que estavam certos? Os caninos estavam próximos. E para piorar (?) sempre gostei de ser menina. Uma menina sagaz, sorriso maroto, uma cara de quem apronta, que vai dar trabalho, amorosa, calorosa, gentil, com paixão por usar rabos de cavalo e óculos escuros, mini-saias, soltando “pérolas”, deixando os adultos em calças curtas. Ao mesmo tempo em que se acha gracioso menininhas assim, de imeadiato tentam castrar essas garotas, constranger. Foi precisamente o que concluí. As caras, os roxos, os beliscões, chacoalhos e marcas, o escárnio das salas de aula, as palavras duras, punições inevitáveis, é esse o destino das meninas atrevidas e curiosas, a lição mais dura de todas, a contenção absoluta. É dar a elas o apetite mais voraz e não poderem comer,  a natureza dar a pele macia e não desejarem o toque, é dar-lhes um coração imenso e poderem demonstrar tão somente beijos comedidos, roubados e secretos. Me foi apresentada pouca possibilidade de ser outra coisa além de menina que busca aventura e é punida por buscar prazer, no cristianismo e na dieta, não há nada mais pernicioso. A outra possibilidade até então apresentada, era questão de honra não ser. Prometi assim que tive dissernimento jamais me comportar como aqueles lobos de genética desvairada a Canis lokus familiaris. Ou só podia ser vítima, ou só podia ser algoz. E não é que estava(m) errada(s)? Com ajuda de quem me olhou e respeitou, quem escutou e ficou, abraçou e amou de volta e em especial, com a terapia e um olhar franco sobre o que realmente sou é que emerge Felis silvestris catus, uma felina, nem sempre andando de gatinhas. E nesse corpo mais destravado, mais aberto, mais exposto, com maiores receptores de sentido, absolutamente tudo tem se tornado mais sensorial e motivo de gozo. O marco mais impactante foram semanas atrás, quando um amor me levou para comer um risoto de cogumelos e experimentar Cosmopolitan, desmanchei e gemi no fumegante prato, no gelado-quente-cítrico daquele copo de boca larga e haste fina. Eu não preciso mais ter medo de entrega e perder o controle porque já tomei posse do meu corpo, logo, a hipervigilância não se faz necessária, só gera cansaço e é o inverso da proteção e segurança. Com esse novo corpo e bigodes sensíveis sentei num sofá e ganhei carinho na orelha com um velho conhecido, abri a blusa, recostei num peito e ouvi a batida de seu coração, deixei sentir.

 

Ontem no trabalho, em surpresa fizeram um bolo, é mês de meu aniversário. Vem aqui Deborah, quero te mostrar um negócio. Estavam colegas de trabalho todas lá. Corei. E esse é um fato novo. Agora, fico corada, as palmas começaram, chorei, em choque, grata. Aprovação e carinho grupal, em especial dos grupos de vivência cotidiana como trabalho e faculdade mexem demais com meus brios. Estou habituada a ser o bicho raro interpelado sem cuidado ou com pressa demais (você é diferente, exótica, me fala como você faz sexo). Eis que começam uma sucessão de coisas boas, nas quais, os sentidos aguçados dão uma série de prazeres em níveis inimagináveis e olha só que fantástico! Faz muito tempo que não sinto dissociação, ao contrário, me sinto fortalecida, segura, em posse do meu corpo e própria história, se alguém não gosta ou não quer mais, a vida está caminhando, meus projetos, concursos, leituras, vontades, encontros, estão a todo vapor. É calorosamente bom ter abraços sinceros, não ter vergonha de ser transparente ao ponto de corar, de chorar em público, ter coração grande, ter bolo, chegar naquele amor após sair do trabalho às dez da noite e ele abrir a geladeira Olha, comprei o suco que você gosta. Comprei manteiga e parmesão para o macarrão. Ser alimentada, cuidada, nutrida, incentivada, abraçada, beijada, vista, aplaudida, celebrada pelos meus, pelo meu próprio percurso e mérito. The dog days are over, os dias de rugido, calor, manha, coragem e ronrono apenas começaram.

A raiva é outro tipo de parto (ou, amanhã é 31)

photo_2017-08-07_18-00-44

Amanhã, precisamente, ás 7:35, faz 31 anos. Prematura, dois meses de adianto. Era o tempo por direito, parto expulsivo, é o que dizem. Minha mãe fazendo força pra eu ficar (medo de sair com alguma má formação), eu forçando pra sair. Pulei, caí no mundo. Quero dizer, incubadora por uns tempos até ficar forte pra sair de vez (única época em que direcionavam suas preces a meu ganho de peso). Cresci. Muito. Tanto. Fiquei “bitela” como diz minha avó. Adolescente tradicional; não compreendi muito a expansão de um corpo orgânico, me comparava com as outras meninas, menores, sem tantas marcas e estrias e outras sequelas, um corpo germinado e repouso de histórias… corpos Outros, que no meu entendimento, encaixavam melhor, eram mais bem torneados e acabados. Foram-se os anos, neles, a raiva cozinhada em banho maria. Até os trinta e quase um me brindarem com a fúria. Pernas que não se sustentam, voz embargada de ódio, mãos que silvam anunciando a descarga necessária. Deus, o todo-fodelão do Universo perdeu a cabeça e mandou um dilúvio. Jesus desceu o sarrafo com o chicote na mão por misturarem capitalismo e fé. E eu, tão divinamente diabólica quanto a humanidade pode ser, tentando segurar essa barra que é não tilintar de raiva. Nem sempre a vida e o coração são leves, às vezes para entrar nos trilhos é preciso descarrilar. E não mais, julgar esse o pé inicial da loucura e do descontrole, do desamparo e ostracismo, do “caralho, eu sou muito pesada e difícil, ninguém vai saber lidar comigo”. Por vezes, o peso, o vacilo, serão dos Outros e do mesmo modo que minha compaixão se estende a esses, assim também o é admitindo limites e fraquezas. Não dá pra ser empática de verdade se ao me colocar no lugar do Outro, o sentido d’Outro tem muito mais valia. Isso é, se no descontrole de A, eu enquanto B o respeito, merda nenhuma vale quando a mancada é minha achar que tudo está perdido e o desamor (inclusive o próprio) evaporar. Há muito deslize, onde quer se olhe. Raiva, amor, todos os afetos, tem de baciada e não dá pra distribuir mais do mesmo nos mesmos lugares, num empapuçar tedioso e sufocante. Ninguém merece uma medalha por permanecer na adversidade ao lado dos seus, cada um sabe o caroço da fruta que chupa e o quanto de polpa se extraí. Se ainda vale a pena ou não. E isso vale para si. O cultivo e extrato da polpa de dentro, em geral, só se quer admitir as boas safras e esquece a maturação, o amargor, os bichinhos e pragas, o cuidado com o solo e as intempéries do tempo. Pois bem, há luz na escuridão, amigos, ela é atraente, quente, fulgaz, um sinal de fumaça que não pode ser ignorado. Amanhã é 31, mas peço a licença poética que seja hoje.

The fire walk with me…

Se eu posso pensar que Deus sou eu…e brrrrrr

enhanced-24516-1498142122-1
De acordo com teste de Buzzfeed eu sou é bem sociável (não duvido). Pensando aqui, certamente tenho comportamentos que irritam as pessoas, por exemplo: a) Andar calmamente (mozi
Allam sempre reduz a marcha pra andar do meu ladinho) b) Rir alto c) Falar alto d) Se puxam conversa comigo no busão, entro na da pessoa, escuto, converso e opino nos problemas pessoais. e) Escuto pessoas no geral, mesmo se estranhos. Dois minutinhos de atenção não vai tomar meu dia todo e as pessoas ficam felizes em serem ouvidas. E eu gosto de ouvir histórias. f) Canto o tempo inteiro, se deixar g) Se sinto uma conexão com a pessoa me dando abertura e sorrisos, sou toda grude. Toda. Grude. Quando conheci pessoalmente o João isso foi tão instantâneo, rápido e surreal que depois do primeiro abraço eu já estava tratando ele como íntimo e namorado e não conseguia desgrudar da pessoa. h) Na real, eu sou tipo um cachorro feliz (e orgulhoso) com quem gosto.
 
Querendo ou não, esse é um traço importante na minha profissão, sabe? E é uma profissão que me dá abertura pra ser assim. As crianças também são afetivas, “grudentas”, elas também tem uma temporalidade diversa. Um aluno lido como problemático (diagnóstico psiquiátrico, inclusive), é um amor na minha vida, um presente que o universo me deu. Sério. Tenho uma conexão profunda com ele. Em crise, muitas vezes, consigo acalmá-lo e de algum modo a gente se entende, escuta e cuida um do outro (ele é ótimo em cafuné e pentear meu cabelo). Ele ajuda a entender minhas próprias limitações e dificuldades sociais (bem como, as dificuldades sociais que as pessoas tem ao lidar comigo). As crianças barulhentas, tempestuosas, emocionais, são “irritantes” sim, para a maioria das pessoas e tem dias (muitos) nos quais preciso contar até dez para descolar a minha emoção das delas. E são essas mesmas crianças que me ensinam que o tempo, a sociabilidade, o sentir e expressar no corpo o que se sente, é libertador. Então eu canto, abraço, beijo, amasso e dou cheiro, risada. Com elas e com você, porque de alguma forma a gente sabe o segredo. Há momentos nos quais a gente segue a linha para pagar boleto, viver minimamente em civilidade mas assim que arruma uma brecha, só se quer soltar e mostrar a cara. Seja ela amarrada, cinza, trevosa, seja sorridente de colocar as asinhas de fora com muito glitter e pajubá, não raro, tudo isso coexiste num corpo-lugar. Nesse espaço plástico e maleável, estou a redecorar a mobília
 
 
Pra quem tá curioso, tirei 10 de 65 (link aqui)
 
 

18 de carisma

Roll_c52aec_5809516
Domando a cobra e mostrando o pau

Na última sessão de terapia, Renata, a estimada profissional, labutou por volta das vinte e uma horas e trinta e dois minutos, a torrente de pensamentos desordenados que escorriam de minha boca, criando linhas e rotas de fuga por entre as bibocas no asfalto esburacado chamado memória. Qual a surpresa em tropeçar pela enésima vez no mesmo paralelepípedo, meu carisma. Um grande amigo (e ex namorado)  de notável sensibilidade já acenava, há tempos, o que entrava e saia de minhas orelhas dispersas: sabe aquele pessoal que você conheceu naquele dia lá, em minutinhos? Eles ainda lembram de você. Minha progenitora, cheia de saber, e eu, filha, cheia de ahãm, mãe, tá bom, você me acha linda porque sou seu filhote, dei de ombros. Meu pai, contando do amigo dele após me ver rodopiando Morrissey, “Sua filha que dança Smiths! Traz ela! ”.  O fotógrafo do casamento do meu primo, pelas palavras da amiga da família “Você abriu a pista, ele está apaixonado, não para de tirar fotos tuas”. O bebê de fraldas que conta para a mãe dele que dança somente comigo e só quer comer a maçã que eu corto, o detalhe é que só fico com esse bebê no final do dia, e ele lembra com carinho tudo o que fazemos nessa curta duração (certa vez precisei sair da sala e ele chorou, chamando meu nome). Crianças ditas insuportáveis ou geniosas são as que se acalmam, entram em acordo. Esse mel todo não funciona sempre, é claro, tenho meus tempos de azedume, rancor e farpas, tais pormenores e defeitos ficam para outras tantas ocasiões humanamente acessíveis, como exemplo, minha tpm e o ódio profundo por meias molhadas dentro de um sapato fechado, mas imagino, isso não interessa a você e nesse instante, careço tornar esses entraves detalhes menores.

Continuando… estava eu naquele consultório de cheiro reconfortante, segurando meu chá de hortelã com gengibre, dando tempo para Renata pensar, de olhos fechados e iniciar a sua mágica. Falando, falando. As habilidades sociais, a desconfiança em ambientes coletivos, as pequenas conquistas, como ir num bar ou algo similar com colegas de trabalho, numa sexta-feira. Esse fato ordinário inédito, colossal nas proporções que incuti, por supor, escaldada, repudiarem de imediato a presença de meu corpo. Se assim faço, me fecho. Sento separada, vou ao fundo da foto, me escondo, espanto não receber ojeriza, reprovação. Mas vejam só, os tomates podres, não estão aqui. Porque a vida não é o filme de terror adolescente ao qual acostumei protagonizar. Não sou o chiclete grudado no banco, desses que esbarram sem querer e buscam desesperadamente limpar passando as costas da mão na calça. Eu sou e posso ser, a pessoa que entra nos espaços e faz as cabeças girarem e cochichar, não por escárnio (e se for, foda-se), mas de vontade de aproximação e conhecer melhor. Meu coração é feito relógio de bolso, raro e quebrantado, restaurado com muito custo. Lindo de doer, corrente dourada, pedrinhas coletadas e pouco costume aos raios de sol por medo de roubo ou extravio. Se me solto, ele escapa as bordas e ricocheteia o reflexo nos olhos alheios, curiosos em desvendar mais. É o paralelepípedo cravejado de safiras, nessa rua, nessa rua toda minha, ladrilhada com pedrinhas as quais já não quero mais ignorar.

Esse post foi escrito ao som de D.A.N.C.E – Justice