Por que homens responsáveis por crimes contra mulheres atraem tanto mais mulheres?

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Alguns palpites:

a) Cristianismo: O homem é cabeça da casa, é preciso respeitar sua autoridade masculina, mesmo e principalmente, se autoritária. Saiu um link recentemente afirmando que cristãs representam 40% do índice de violência contra mulher b) “O amor salva tudo”, quem deve fazer todo o corre para salvar um relacionamento, bem sabemos, são mulheres, logo, maiores poderes vem com grandes responsabilidades. Qual a vantagem? A vaidade de domar leão. c) Atração sexual e afetiva por homens perigosos. É bem comum, mas vai de vários níveis. Pessoalmente, tenho isso em algum grau, por exemplo, me sinto bem atraída por personagens assim na ficção, como o Jason Bourne. É romântico, aquele cara me protegeria de QUALQUER ameaça, dá uma sensação de segurança. Enfim, uma ponta diferente da régua de atração por bad boys. d) Auto-estima cagada. Do nível “isso é tudo que eu mereço mesmo, eu não presto, tenho que dar graças porque somos dois merdas e é isso aí”. Atratividade e identificação por párias talvez seja uma outra variante do item C e) Se achar muito especial porque “comigo será diferente, as outras se deram mal e foram punidas porque não foram boas como eu posso ser”. O que não deixa de ser uma versão orgulhosa da auto estima cagada porque em algum nível, ela acha aceitável punição com morte, mas nesse caso, “a vadia é sempre a outra”. Misoginia internalizada e externalizada na prática. f) Endossa os papéis esperados da feminilidade e da masculinidade. O masculino ameaçador, predatório, irrefreável, sem remorso. O feminino na espera em agradar e provar ser alguém melhor, assumindo toda culpa e responsabilidade.

Você prefere ser gostosa ou inteligente?

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Essa semana a imagem acima tomou as redes sociais. Nela, uma figura feminina bronzeada, de cabelos platinados, salto com amarrações e peitos grandes caminha toda garota. Em sequência, uma figura feminina de saia até o joelho, mini-blusa e brinco grande se espanta ao ver um livro no chão, a terceira imagem é de uma mulher de cabelo castanho claro e solto, mini-blusa e salto, examinando a capa. Na penúltima ilustração,  uma moça com jeans, tênis, rabo de cabalo, lê o livro, e por fim, uma figura feminina de legging, botas de cano médio, coque com cabelo castanho escuro, blusa de manga comprida e livro fechado na mão. A imagem foi apelativa para públicos diversos por muitas razões dado o modo em que ela disposta (linha contínua de transformação), pode aludir as representações da Teoria da Evolução de Darwin (não o irmão do Gumball, aquele outro, o barbudão que falava de seleção natural). A maior parte dos leitores dessa imagem são levados a intuir que se trata de uma evolução, uma melhoria progressiva, em etapas e estágios classificatórios. Somados a esse dado em nossa sociedade há uma separação entre mente e corpo (cabeça e o “resto”), sendo o primeiro de maior importância em detrimento do segundo. Ao feminino, é mais importante ser recatada e inteligente (mas não muito, senão te chamam de frígida e petulante espanta-marido). Quem já leu revistas femininas sabe o quanto o sexy sem ser vulgar é a corda bamba desejada pelos homens, invejada pelas mulheres e ainda ser um modelo, um fio difícil de estabilizar. Em caso de desequilíbrio e queda a mulher é levada ao lugar de temor e mudam as posições: desejada pelos homens no privado e hostilizada por todos, não importa onde esteja já que é uma vadia. Nessa linha de raciocínio dual tanto faz ser um livro secular ou religioso, a prisão do corpo libera o espírito, é o que dizem tanto os ortodoxos do saber acadêmico, científico, quanto os líderes religiosos em seus púlpitos e altares.

Para que um leitura ocorra é preciso considerar os caminhos e raciocínios que o leitor fez para chegar até ali. Isso significa a trajetória pessoal desse leitor, o que mexe com os brios, imaginação, o que desperta raiva e desejo, em que meio ele encontrou aquela produção, quais os referenciais dele acerca do tema, seus conhecimentos prévios da área, se ele conhece a disposição espacial daquelas informações, etc. Por exemplo, como já li receitas, mesmo se eu encontrar em um idioma novo mantida a formatação tradicional, isso é, uma foto de algo que parece comestível, duas partes, uma listada (ingredientes), outra com texto corrido (modo de preparo), entenderei que aquilo é uma espécie de receita, assim funciona para qualquer leitura. No caso dessa receita fictícia, mesmo se eu arrancar a folha e mostrar para outra pessoa aleatória na rua perguntando o que ela acha que é, ela dirá, muito provavelmente, se tratar de uma receita culinária. Porém, arrancar a imagem acima do contexto original de produção e espalhar nas redes sociais, gera muito mais respostas e reações diferenciadas, uma vez que dá bastante prazer expressar o que nós pensamos a respeito de um assunto. A gente ama palpitar nas mesas de bar, na igreja, na faculdade, se o assunto está na moda então, aí que a gente corre pra não ficar de fora. As pessoas gostam de saber que suas opiniões são consideradas relevantes, as redes sociais impulsionam esse comportamento apressado, gerando cobranças inclusive, Como é que você ainda não falou sobre a tragédia tal? A polêmica da semana? E dá-lhe textão. Os que reclamam que só falam a mesma coisa, quem reclama de quem não reclama, quem reclama de que a vida devia ser mais simples, quem reclama que na verdade as coisas são complexas e os outros que são alienados e por aí vai.

Voltando a imagem principal, da loira sem livro até a morena com livro, qual seu contexto e fonte? Sortimid é uma conta do DeviantArt, a página divulga o trabalho de artistas independentes com suas galerias e espaço para texto. É utilizada por ilustradores, desenhistas, coloristas…Sortmid produz conteúdo com apelo sexual e entre os temas preferidos estão os fetiches e transformações, tais como crossdressing (homens vestidos de mulher) e bimbofication (encarnar o esteriótipo da patricinha burra e fútil). Essas transformações passam não apenas pela montagem do personagem, mas uma mudança de voz, atitude, postura. A feminização extrema como jogo também pode ser realizada por mulheres, o álbum Primadonna da Marina and the Diamonds, é excelente nesse sentido (Bubblegum Bitch é uma das faixas que mais gosto). Pois bem, alguém sugeriu ao Sortimid ilustrar o processo inverso, ele criou.

Ou seja, é uma representação de um jogo interpretativo, em inglês, um role play. Esse tipo de jogo pode ou não, envolver mais pessoas. Há quem tenha tesão de ser “forçado” a feminizar, quem busque montagem sozinho e em segredo, outros se exibem na rede, há quem se solte só para o companheiro ou companheira, enquanto outros fazem questão de sair montadas. Depois de três ou mais horas de montagem incluindo depilação completa, faz bastante sentido existir um desejo de exibição na sequência. O que era uma produção de nicho, clandestina (o meio fetichista com suas terminações em inglês e modos de ser pouco óbvios), abre margem para leituras precipitadas, reducionistas, moralistas, conservadoras. O Crossdressing (CD) é uma prática recorrente entre homens casados,  os quais frequentemente escondem a vida dupla de suas esposas e companheiras com medo do abandono, rejeição e exclusão social. Já pensou o que o pessoal da firma faria ao descobrir que o cara que eles bebem cerveja no final do expediente curte colocar um saltão, roupa curta e sonha em tomar banho de porra ou ser enrabado por uma mulher dominante?! Tais práticas e fetiches podem surgir em pessoas que não tem qualquer interesse em estudos Queer, inclusive em transfóbicos, conservadores, ou apenas gente com tesão em vestir a calcinha da esposa, marcar encontro em salas de bate-papo da madrugada para saciar o desejo pontual e voltar ao lar cristão e de bem. Assim, é preciso considerar não apenas o que foi produzido (a ilustração), mas as leituras e leitores que essa produção afetou, o que essas repercussões dizem sobre como lidamos com o corpo, o espírito, o desejo, o público, o privado, feminilidades e masculinidades.

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Artigo Buzzfeed explica a repercussão da ilustração (em inglês)

Programa – A Liga apresenta o universo Crossdressing (entrevistam uma CD que é hétero e curte futebol)

Tentando ser lamparina (ou seria vagalume?)

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Desde menina tenho esse gênio. Um gênero de calma, dedicação, paciência e detalhamento. Podia observar miudezas por horas, buscava bichinhos em jardins, entretida com o que era considerado pouco pelos adultos. Lido como simples. A minha mãe oferecia a opção dos bolos mais deliciosos com cobertura com chocolate, do que é que você quer, ela dizia. Respondia de bate pronto, bolo de bolo, ela um pouquinho chateada emendava se eu não queria mais, com mais cobertura, um granulado, talvez. Enfática, respondia que bolo de bolo. Isso é, um bolo sem cobertura, nem recheio. A paciência e tempo desacelerado continuou nas tarefas escolares, na elaboração das primeiras comidas (a água que eu servia para familiares era com uma rodela de limão na borda do copo), em tudo, fazia questão de que ao receber a minha presença, soubessem o quão especiais eram, o quanto os amava. Esse gênero de calma, dedicação, paciência e detalhamento. Hoje dancei o último módulo básico da Dança do Ventre, a professora elogiou a criatividade. Reparou e muito bem, em como meu corpo por vezes não acelera no compasso da música, isso é, meu estilo de dança é suave, lento, para sentir a música de outro modo, sugeriu tentar uma acelerada nos passos se a música exige. Ainda sobre acelerações, dada a nova rotina no novo emprego (tenho hora para entrar, não muito para sair – inclusive nos finais de semana), fez com que eu tomasse a decisão de encerrar a Dança do Ventre. Tal modalidade exige um comprometimento com estudos, ensaios e tudo o mais, inatingíveis nesse novo momento. Vou procurar algo novo, possibilitando o que raramente tive empenho em explorar enquanto potência corporal: A força e a agilidade, o fluxo da raiva. Sei que sou forte, ágil, é difícil saber. Em alguns contextos familiares e escolares, no olho crítico de um médico gordofóbico é comum lerem meus modos como alguém lerda. Eis uma ofensa que me irrita profundamente, seja dos tempos de menina, seja enquanto mulher adulta, crescida e mais independente: Lerda. Ser processual e tentar ter o auto-controle, foi o modo que o meu corpo encontrou de ser maduro, de protestar, de mostrar como se faz, fazer melhor, dar o exemplo. Já presenciei muitas pessoas em situações de descontrole e minha reação ao ver alguém perdendo a cabeça é a) Apaziguar b) Se a pessoa não se acalma, partir e deixar ela nervosa sozinha.

A teimosia, a insistência e a petulância também são traços desse gênio calmo, dedicado, paciente, detalhado. Um menino o qual educo disse semana passada “Você nunca fica brava comigo, nunca. Ele não sabe que foram raríssimas as vezes que perdi realmente a cabeça, deixei a raiva me dominar. Sexta-feira, em meio ao caos de doze crianças de idades diferentes, agitadíssimas, gritando, batendo pandeiros e flautas, passou a minha supervisora pela janela e perguntou se estava tudo bem. Eu estava sozinha com a minha turma, mais dois irmãos mais velhos de duas dessas crianças. Acenei com o semblante calmo que tudo estava certo. Assim também me comportei em muitos momentos de stress elevado, más notícias, acompanhar pessoas vítima de violência, mediar conflitos entre pessoas coléricas. Respiro fundo e digo, tudo bem. Tudo vai ficar bem. Já acalmei crianças agitadíssimas com saudade da mãe e em prantos, assim. Calma, abraçando, acolhendo. Tudo vai ficar bem. “Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, nenhuma espada corta”. Essa resiliência me mantém, literalmente viva, persistindo. Sei que é meu tipo de força, meu tipo de agilidade. Como no dia em que o mesmo menino se recusava a comer melancia dado que ela possui uns pequenos fiapos amarelados, estendi meu braço e mostrei as minhas veias, ele disse que as dele eram roxas, as minhas azuis, concordei. Contei a ele que assim como as pessoas possuem veias, a melancia também contém as delas e não existem melancias sem pequenos fiapos amareladinhos. Ele entendeu. E comeu a melancia. E todas as outras crianças mostraram suas próprias veias e comeram melancias juntas. A sagacidade é um tipo de agilidade, de linguagem, de inteligência, é a minha estratégia. Não é no grito, não é na cólera. Noutro dia, brinquei de pega-pega com a turma, consegui desviar algumas vezes, um menino me contou “- Nossa, Deborah, você já está ficando craque!”. E é nesse tipo de craque em que desejo aprimorar. Quem brinca junto, quem mesmo no caos, na birra, no grito, tenta entender o que há por trás daquela emoção, observar a ranhura de uma folha curiosa como fazia de menina entre canteiros de jardim, ávida igualmente enquanto pesquisadora universitária capaz de escrever centenas de páginas. Por ora, desejo reinventar um novo tipo de força e agilidade, não para que me validem como sujeito de destrezas corporais, mas, para provar para meu próprio corpo que ele pode desbloquear diferentes movimentos e saberes.

MAS MASSAGISTA E DANÇARINA NÃO É TUDO PUTA???!!

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Pega o lápis, pega a caneta e presta atenção, Luisa:

  • Não é massagista que fala, é massoterapeuta. Tocar, relaxar e cuidar de um corpo com dores é estudo, muito estudo e sensibilidade, queridinha. Não é qualquer um que faz isso profissionalmente, é tipo a diferença entre você conseguir consertar a pia da sua cozinha sozinha e a de quem realmente estudou pra entender encanamentos e como funcionam essas conexões de tubos por dentro de uma parede de concreto, vigas, etc, etc.
  • Não é dançarina de dança do ventre que fala, é bailarina. Essa ideia que fazem de que “odaliscas” são sensuais e dançam para entreter homens é uma construção social fomentada pelo entretenimento, ciência, literatura e a cultura. Tem a ver como enxergamos o Oriente, bem como os papéis de gênero do Oriente, o mesmo vale para Gueixas. Os homens bárbaros e que fumam narguilé, as mulheres disponíveis… o Oriente é invenção do Ocidente, quer saber mais? Leia Orientalismo, do Edward Said. Dança do Ventre também demanda estudo do corpo, do movimento e da expressividade.
  • Puta é profissão. Isso mesmo, profissão. O que a puta, alguém que dança e alguém que toca para aliviar dores tem em comum? São lugares tradicionalmente associados ao feminino e ao domínio do corpo aliadas com técnicas corporais (leia Marcel Mauss). Se espera que todas essas coisas sejam feitas por todas as mulheres e de graça. Só pra entreter, só pra cuidar, só pra causar prazer dos sentidos, de homens.
  • Se faz parte da sua profissão ou você simplesmente gosta e se sente bonita com partes do corpo aparecendo, deve ser respeitada. Ganhando ou não, dinheiro com isso.
  • Danço, desenho, canto, escrevo, faço modelagem, cuido, educo, faço sexo, estudo. Algumas dessas coisas eu já recebi dinheiro para realizar, outras, não, cada um vende seu saber corporal como bem entender.

Gorda menor é uma ova! Bite my shiny metal ass!

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“Menor” é o meu vestido

Caminhava na faixa de pedestre do bairro dos Pimentas, fui buscar meu diploma, na UNIFESP e o semáforo dos pedestres fechou na medida em que me aproximava da calçada. Um motorista apressado, colocou a cabeça para fora da janela e gritou “Sai da rua, leitoa!”. Em choque, continuei caminhando fingindo que nada havia acontecido. Essa não é a primeira vez que um total desconhecido faz referência a uma criatura não-humana para me xingar. Esse verme misógino deve ter uma existência bem miserável, não me espantaria se fosse desses que se acabam na punheta por mulheres gordas, confusos e com vergonha do próprio desejo (escrevi sobre isso em 2013 – O (raivoso) admirador secreto e a indiscrição). Há quem diga que existe uma diferenciação entre gordofobia e pressão estética, o primeiro diz respeito a barreira de direitos que existem para que pessoas gordas ocupem o lugar público, as catracas são estreitas, as roupas que não se encontram nem em araras plus size. Pressão estética seria a coerção para o enquadramento, a qual, atinge invariavelmente a maioria de nós que não trabalhamos como modelos. Desse modo, consideram duas categorias, gordas maiores e gordas menores. Gordas maiores seriam aquelas com o formato e biotipo mais odiado, as que encontrariam no direito de ir e vir, construir relações afetivas e demais interações sociais os maiores entraves. Gordas menores são as que não se preocupam se a cadeira dará para o peso, com corpo em formato ampulheta, podem ser suicide girls, modelos plus size e etc. Não é uma leitura de toda errada, mas seria mais acertado dizer que existem gordas mais ou menos assimiladas. As mais assimiladas seriam a de corpo curvilíneo, barriga menor que o peito, bundão na nuca, rosto de boneca e assim por diante, ou seja, as que encontram algum tipo de representação mesmo se pouca e em nichos de mercado. Tem mais a ver com assimilação dos padrões de beleza, se ela é uma versão aumentada do padrão da gostosona ela é assimilável, tem a ver com forma. E as pessoas tem tanto medo de assumir que uma gorda é bonita, ficam tão perdidas, que necessitam rapidamente fazer comparações tais como Flúvia Lacerda é Gisele Bündchen Plus Size, Mayara Russi é a Ana Paula Arósio GG . Elas sentem que precisam de um paralelo com algo vendável e bonito para a maioria.

Não faz sentido na minha cabeça que uma ~gorda menor~ não sofra gordofobia. Ju Romano, uma blogueira, saiu na Playboy, no recheio, não na capa, com um bíquini grandão, muita gente caiu matando falando que ela incentivava as pessoas a ficarem doentes. A Flúvia Lacerda saiu na capa de uma ~edição especial~ da mesma revista, detalhe, não sairá nas bancas, você compra pra bater uma online mesmo, escondida, para os brothers não tirarem sarro de você bater uma pra mulher gorda. Flúvia, mulherão da porra, com um corpo incrível e uma bunda linda saiu com foto de rosto, na capa. Isso mesmo, uma playboy com close de rosto…Flúvia usa manequim 48, Ju Romano, 50, Preta Gil, 44. Aparentemente, eu sou maior que essas mulheres, uma vez que uso calças tamanho 52. É óbvio que há diferenças gritantes no tratamento entre uma gorda mais ou menos assimilada, só que diferenciar o grau de gordofobia simplesmente dizendo que ~gordas menores~ não sofrem gordofobia é silenciar as violências gordofóbicas que essas passam. Previsão agourenta de médico com base em aparência (não tem nada agora, que você é nova…), patologização do corpo gordo, xingamento desumanizante (leitoa, porca, baleia), toda a experiência de infância e adolescência sendo tratada como “a gorda” do rolê, com gente falando que vai pagar para te beijarem a força, me diz aí, se não é gordofobia, o que raios é? Noto também que conforme se alcança algum tipo de status e reconhecimento, ser gorda é atenuado ou até mesmo apagado por determinados grupos sociais. Na faculdade, mesmo reclamando daquelas malditas cadeiras me machucarem todo santo dia e eu ter de contorcer inteira para levantar e sair delas, ninguém nunca tirou com a minha cara lá por ser gorda. Quer dizer, teve só a vez que uma mina feminista no bandejão disse que gostava de minas gordas mais como a mina que estava do meu lado, manequim 44, do que eu (?!), ou o otário daquele moleque ruivo que me convidou para ir na Augusta com ele para beber e fingir que não ficaríamos (segundo ele, essa era a parte boa de beber?!), enfim, no geral, as pessoas aparentemente focavam em outros aspectos, como eu ser a aluna que lia 98% do que os professores exigiam e bastante participativa. Enfim, notei que conforme fui me afirmando como alguém mais assertiva, em determinados meios, na maior parte do tempo, eu era mais do que “a gorda”. Por essa razão, por vezes eu esqueço que para os outros essa é uma questão é tão importante, sou lembrada em dias como hoje por um zé povinho aleatório que vê a superfície (bonita, macia e cheirosa, aliás), reduzindo o que sou em uma das variadas características que meu corpo demonstra.

Já não sei mais o que guardar

Sou uma acumuladora. De pensamentos, de passado, de tormentos. Mesmo sem estar tão pronta a vida me ensinou sem as palavras o que era ter medo, o que ninguém mais poderia saber. E o que me dói é que esse e tantos segredos, habitam em mim. E eu não sei mais guardar. Resguardei tanto pra proteger o máximo possível quem estava perto. Não quero que ninguém seja dano colateral da minha dor. Não gosto de ser privada e íntima porque esse sempre foi o meu lugar reservado. Do silêncio. Do não poder contar pra ninguém, nem com ninguém. Devo guardar essas dores só pra minha terapeuta? E nem mais uma viva alma? Voltei a desenhar e as palavras secaram (ao contrário dos olhos, vertendo lágrimas cada vez mais pesadas as quais nem entendo direito). O segredo é o que eu sou. Se eu contar, se eu mostrar, vou ter de arcar. Com o sentimento de fraude, culpa, remorso, raiva, desconfiança e desamor.

Why did you give me so much desire?
Por que você me deu tanto desejo?
When there is nowhere I can go
Quando não há onde eu possa ir
To offload this desire?
Para descarregar esse desejo?
And why did you give me so much love
E porque você me deu tanto amor
In a loveless world.
Num mundo sem amor
When there is no one I can turn to
No qual não há alguém com o qual eu tornar
To unlock all this love?
Liberar todo esse amor?

Pois bem, agora há tanto para liberar o afeto do desejo, quanto os demais. Se só podemos dar o que nos tem sem faltar a nossa própria reserva e subsistência, em dias como hoje e ontem eu queria um pouco mais de sabedoria e firmeza para lidar com o embate corpo adentro. Direcionar bons conselhos de amiga, ser meu próprio ombro. Lembrar do incentivo alheio se a pressão for tanta e rir aliviada, ao lembrar das palavras da terapeuta: “Até agora, eu não tive a notícia de ninguém que explodiu”. Não importa o quanto meu sangue ferva e se dissolva em suor ou lágrimas, o quanto ainda não entendo. Posso respirar e deixar fluir. Ninguém morre de explosão. E ao menos agora não estou mais (tão) sozinha.

2016, o ano de limpar os caroços para comer a fruta

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Coração de melão

Deixei o cabelo crescer, comecei namoro, terminei namoro (e descobri que manter contato com ex é algo possível, embora, inédito na minha vida afetiva). Comecei amizade, terminei amizade. Fui chamada pra palestrar em universidade pública. Terminei um módulo de Dança do Ventre. Equilibrei uma espada na cabeça. Dei em cima das pessoas e o mais chocante de tudo, elas deram em cima de mim. As avaliadoras da banca da minha monografia foram unânimes, 10, 10, 10. “Excelente mesmo!”, “Tem gente no mestrado que não escreve assim, não é maduro assim”. Li alguns livros. Fui ao cinema algumas vezes. Viajei de avião para viver uma aventura e acabei encontrando um grandessíssimo amor, desses que em nada eclipsam minhas forças, sonhos e afetos, em verdade, só me faz maior.

<melosidade_açucarada>

Gatinho, você é uma das melhores coisas que já aconteceram e eu te amo, precisava dizer. E tô com saudade. E quero te encher de beijinhos

 Tei, mesmo de longe você é e sempre será uma inspiração, é lindo ver o quanto você avança, you go, girl! 

</melosidade_açucarada>

Cuidei de muita gente, muita gente cuidou de mim. Chorei até pingar lágrima do cabelo. Entristeci diante de todos. Reergui e consegui orgasmos mais intensos, de corpo todo. Escrevi carta, recebi mimos e lindezas. Voltei a desenhar. Comecei uma terapia com alguém respeitosa e profissional, a qual escuta de verdade. Aprendi a fazer olho com delineado de gatinho. Aprendi a usar primer, corretivo, base e pó. Uso protetor solar e sou apaixonada por passar tônico na pele antes de dormir. Emagreci e engordei. Estou lendo os mangás de Sailor Moon. Me aproximei mais da minha família. Mudou a minha forma de sonhar (agora sonho em primeira pessoa e não preciso mais ficar salvando as pessoas o tempo todo). Percebi que o Facebook é o maior rouba brisa, geral só compartilha desgraça e bad, desconfiança e desamor. Desativei a conta. Estou procurando mecanismos para manter a minha ansiedade e crises dissociativas/disfóricas em controle. Estou aprendendo que o choro pode ser um gesto regulador importante pra minha saúde psíquica. Buscando mais contato humano, ao mesmo tempo prezando e muito meus momentos de introspecção e auto-cuidado. Distribuí currículos. Tenho tentado viver mais o presente sem ser sugada para o passado ou aflita pelo que virá. Tenho sentido mais, me explicado menos.  2017 hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.