Fogo com fogo

As mulheres entrando na máquina, eis uma das apostas centrais de Fogo com fogo de Naomi Wolf. O livro estava há alguns anos na minha estante e posterguei a leitura, o momento não poderia ser mais oportuno. Por força das circunstâncias minha sexualidade sofreu uma guinada assombrosa, senti falta de me reaproximar de discussões feministas. Se lesse esse livro cerca de quatro anos atrás, não estaria aberta o bastante para escutá-lo. O livro é de 1996, carregado de ideias da chamada terceira onda. Minhas bases, isso é, a origem e identificação com leituras feministas derivam muito da segunda onda: pornografia, prostituição, aborto, direito ao corpo, crítica ao sistema capitalista, desconfiança das representações femininas e feministas na mídia, e demais pautas confluentes. Ouvia muitos boatos sobre a tal terceira onda: Liberais[1], sexies, divertidas, héteros, abertamente capitalistas, não odiavam homens, eram as feministas legais em oposição ao feminismo ranzinza. O terceiro capítulo do livro é O feminismo da vítima versus o feminismo do poder (realmente em maiúsculas), meus olhos giravam em pensar numa feminista cagando regra chamando outras para “não serem frígidas, não pensarem tanto, celebrarem as maravilhas do sexo (a pornografia)” entre outras recomendações caricatas de um feminismo que não entra em conflito e dá aceno de miss.

Ter pontos de divergência com certos feminismos não me impede de aprender com eles, o capítulo Como arroz, tenha fé nas mulheres de A Política Sexual da Carne também me fez levantar a sobrancelha a primeira vez que passei os olhos no índice. Ser uma leitora, escritora e feminista me ensinou que está tudo bem não aceitar imediatamente o que observo. Se esses discursos são oriundos de figuras de autoridade, admiração e respeito, tanto mais eu devo refletir a paixão e envolvimento com o tema. Naomi Wolf, Alice Walker, Simone de Beauvoir, Gloria Steinem, Carol Adams, entre outras feministas icônicas estão em minhas influências e se discordo delas é dentro de um absoluto reconhecimento de suas trajetórias, para que eu, uma feminista mais jovem, aprenda e reflita sobre o tempo em que vivo. Com a introdução posta, vamos ao livro.

Entre os levantamentos estruturantes da argumentação central estão: a) As mulheres que concordam com o feminismo, mas, recusam o termo feminista, b) as mulheres inseridas e em conflito com os interesses do Estado, c) o feminismo da vítima e o feminismo do poder, d) os arquétipos femininos e a capacidade de dominação feminina.

a) As mulheres que concordam com o feminismo, mas, recusam o termo feminista

De acordo com Wolf, o feminismo nos anos 60 surge em uma proposta marginalizada de esquerda, respondendo ao interesse de mulheres abertamente anticapitalistas. Esse grupo possui críticas às instituições, tais como, o casamento, a família nuclear, o cristianismo e o aborto, nem sempre em sintonia com as donas-de-casa, pró-vida e demais mulheres conservadoras. Por volta dos anos 70, algumas mulheres simpatizantes ao movimento não verbalizavam esse apoio por temerem perder seus empregos ou não ascenderem profissionalmente[2], entrementes, as feministas não ganhavam espaço na mídia para alcançar mais mulheres. O que segundo a autora, causou um rechaço aos meios de comunicação e “Uma tendência a se sentir mais à vontade às margens, pregando às já convertidas, com uma mentalidade de clube fechado” (pg. 98). As teorias elaboradas nesses grupos faziam sentido dentro de um repertório das iniciadas, porém, bastante distantes das preocupações e interesses de quem levavam uma vida comum. Posteriormente, o feminismo despertou o interesse do meio universitário rebuscando cada vez mais a estranha linguagem, abordagem e discurso feministas. De antemão, as feministas eram divulgadas em dois pólos: raivosas, lésbicas comunistas/anarquistas versus esnobes acadêmicas com linguagem difícil, ambas subestimando as percepções e ambições da mulher comum, conclamando as simpatizantes e/ou lésbicas para “saírem do armário”[3]. Ao invés de um grande “Sim” ao prazer e autonomia femininas, a mensagem era de que o feminismo seria uma grande “Não”, a renúncia de desejos tradicionais como ser mãe ou fazer sexo com homens.

b) As mulheres inseridas e em conflito com os interesses do Estado

Entre 1981 e 1983 Anita Hill trabalhou com Clarence Thomas, seu supervisor no Departamento de Educação e posteriormente, responsável pela Comissão por oportunidades iguais de emprego[4]. Em 1991, Clarence Thomas foi indicado à Suprema Corte, Anita Hill trouxe à tona a acusação de sucessivos assédios sexuais nas antigas relações trabalhistas.[5] A repercussão ultrapassou os círculos feministas impactando a opinião pública, imprensa e a elaboração de políticas públicas acerca do assédio sexual. Segundo Wolf, a mobilização das mulheres norte-americanas modificou o modo como enxergavam a participação política, a falta de representatividade feminina no Estado e na mídia em geral. As mulheres sentiam-se seguras para debater e exigir mudanças políticas, fizeram grandes doações às organizações feministas, ganhou destaque a percepção de que mais da metade dos eleitores eram mulheres e elas poderiam de fato, pleitear. Essa reação é chamada de “Sismo Sexual” o qual fez: “que as mulheres fizessem três coisas que há muito eram estranhas à consciência feminina: criar a fantasia de uma vingança política, para um insulto ao sexo, reivindicar e usar dinheiro e imaginar a vitória e apreciá-la” (pg. 62)

c) O feminismo da vítima e o feminismo do poder

As palestras, vivências e contato de Naomi Wolf com mulheres não filiadas a coletivos feministas, fez com que notasse que elas se sentiam mais estimuladas ao ver anúncios da marca Nike com uma mulher de feição altiva, do que banners e frases de efeitos feministas. O enquadramento do último, costumeiramente composto por imagens de mulheres com hematomas, acuadas, frágeis, os anúncios de tênis por sua vez, mostravam figuras femininas com luvas de boxe, correndo, decididas. Ao trabalhar como voluntária em um Centro de Emergências de Estupro no qual ofereciam apoio às mulheres vítimas de violência, presencialmente e por telefone, a autora narra a atmosfera desanimadora do local. Os estofados estavam rasgados, cortinas empoeiradas, iluminação tornando rostos pálidos, nenhuma decoração, xícaras lascadas, bem pouco café e leite disponível. “Aquela miséria era uma estética” (pg. 204), embora houvesse recursos para tornar o ambiente diferente. Reconhecer a violência contra a mulher como uma realidade é fato e “Não há nada de errado com a identificação da vitimização sofrida. Ela é crucial. No entanto, há muito de errado em moldar uma identidade a partir dela”. (pg. 184)

d) Os arquétipos femininos e a capacidade de dominação feminina

“O medo feminino de usar o poder-sobre-os-outros deriva naturalmente de que no fundo do nosso coração não temos assim tanta certeza de que aqueles impulsos agressivos, controladores, dominadores e violentos sejam afinal tão estranhos a nós” (pg. 201). As mulheres e meninas têm fantasias infantis de reconhecimento, adulação, vingança, dominação. É algo difícil de admitir, principalmente se considerarmos que essas características são associadas à falta de caráter e ao pecado original, Pandora, Dalila, enfim, abundam exemplos de como as mulheres “más” são tão ou mais perversas que os homens em suas empreitadas. Para Wolf, alguns arquétipos permitem às garotas e jovens aspirar um pouco desse poder, variando entre representações estão “A Amazona”, “A excêntrica toda poderosa”, “As modelos”, “A noiva” e “A princesa”. Os dois primeiros exemplos são mais evidentes em explicitar a força e o poder feminino, já os três últimos o fazem de maneira muito sutil, mas não menos emblemática. A princesa em contos, filmes e muitas estórias, iniciam suas narrativas de protagonistas comuns desconhecendo a relação inusitada com a nobreza. Depois dos rituais de iniciação, a moça desperta a atenção dos pretendentes, encontra um grande amor e para desespero das rivais que a humilhavam, é coroada e exaltada pelo reino. A noiva e o ritual de casamento têm muito de princesa. Ser o centro das atenções, o vestido rodado, pérolas, uma diadema ou grinalda, crianças abrindo o caminho com pétalas de rosa, um carro luxuoso ou até mesmo uma carruagem. Existe até o “Dia da noiva” onde é mimada, cuidada e por fim, carregada sem os pés no chão até a noite de núpcias.  Quanto mais a filmagem e a fotografia parecerem um conto-de-fadas, melhor. É usual que os bonequinhos em cima do bolo representem uma mulher dominando um homem. Ao que me lembre, o pedido de casamento é o único momento socialmente aceitável para que um homem hétero se ajoelhe diante de uma mulher (mesmo em público), sem ter sua hombridade questionada. O outro arquétipo, a modelo bem sucedida, é uma jovem mulher que ganha muito dinheiro, mantém uma série de pessoas ajeitando seu cabelo, sua pele, suas roupas, ela é capa de revistas e o que diz ganha notoriedade. O que esses pontos têm em comum, são recortes de situações nas quais mulheres podem ser aduladas sem qualquer acusação de egoísmo ou frivolidade, uma trégua.  As mulheres abarcam enquanto humanas, tanto a capacidade de compaixão e empatia, quanto a agressividade e o narcisismo.

Considerações (ou, porque esse livro mexeu tanto comigo)

O feminismo ainda afasta muitas mulheres, meu esforço é fazer com que mais pessoas saibam que o tipo de feminismo no qual atuo, permite divergências. Não julgo problemática a defesa de espaços exclusivos, a crítica anticapitalista, as alianças com temas imbricados, mas não sinônimos diretos, como o direito animal. Não luto só para quem concorda com minhas interpretações. Já senti o tom acusatório de vários lados, por não estreitar laços unicamente com mulheres (lesbiandade política como único amor e sororidade profunda), ou por ser radical demais em não achar potencial revolucionário na pornografia. Do ponto de vista da representatividade, parece justo cobrar que existam mais parlamentares que sejam de minorias, não significa que imediatamente esse governo será mais igualitário, todavia, sem dúvidas, existirá impactos em todas as idades assistir figuras de autoridade com outras feições e biotipos além dos costumeiros. O mesmo vale para lideranças em grandes corporações, não precisamos considerar essa meta um ponto de chegada e ambição máxima do feminismo, até porque, quem alcança esses postos de liderança, costuma já possuir vários privilégios financeiros e extra-econômicos. As mulheres tem o direito de ter ambição, desejo por reconhecimento, postos de trabalho e salários melhores. Minha relutância em tornar públicas inseguranças e aspirações, tem relação direta em não querer a projeção e redução de uma faceta de minha trajetória. Por exemplo, ao falar que passei por uma violência sexual na infância eu não espero ser reduzida a essa ocorrência. Eu não espero ser tratada como uma pessoa incapaz de se defender. Eu não espero que me enxerguem como assexuada. A tal guinada na sexualidade mencionada no começo do texto, tem a ver com o arquétipo oposto, o da mulher de sexualidade exacerbada.

We teach girls to shrink themselves, to make themselves smaller. We say to girls “You can have ambition, but not too much. You should aim to be successful, but not too successful, otherwise, you will threaten the man”[6]

Preciso me alongar no assunto de uma maneira mais explícita, intimamente difícil e sei que corro alguns riscos de reputação para além dos círculos feministas e amigos. Pode parecer imprudente, impensado, desnecessário, porém, descobri minha força através da escrita (e em ser lida), o que diluí expressivamente o limite entre público e privado. Com o coração tamborilando por guardar esse segredo nem tão secreto (meu corpo se põe em alerta faz quase um ano, toda vez que ensaio essa “saída de armário”): Percebi-me Dominadora, em termos fetichistas: “Domme” (Pró-Domme ou Dominatrix é aquela que ganha por suas ações sexuais, eu não ganho nem um centavo pelo que faço). Quando ia ao meu primeiro psicólogo, uma das queixas eram imagens realmente aterradoras (não sexuais), que me invadiam a imaginação quando eu menos esperava. A dica dele foi que eu não as temesse e deixasse fluir, porque assim, elas não ganhariam tanta força. Fantasias sexuais de dominação feminina mexem comigo desde que sou pequena e claro, me assustavam demais, principalmente quando surgiam nos sonhos. Tentei ignorar ao máximo que pude, escrevia contos eróticos e apagava em seguida com o rosto corado de vergonha, quanto mais eu tentava ignorar, mais forte o desejo crescia. Passei a ter medo de escrever, abrasando a escrita, o poder terapêutico e ordenador ao sistematizar inquietações. O riso esmoreceu, o gesto e olhar ficaram amedrontados, qualquer comentário eu lia como indireta, minha carreira profissional, a credibilidade como aluna esforçada, filha amorosa, toda a confiança em me expressar e me aproximar das pessoas foi à míngua. Quando eu lia “Esses pós-modernos de merda, BDSM é doença”, eu me sentia aquela pessoa constrangida pelos familiares, se esforçando para não dar pinta enquanto xingavam viados. Se antes eu queria compartilhar, aprender, dividir, essa reação causou a busca por ostracismo. Cancelamentos sucessivos em redes sociais, deletar fotos, cancelar o blog. Quis sumir para me preservar e aprender a estar forte o bastante para quem sabe um dia, voltar mais confortável em minha própria pele. E agora eu estou livre. Para admitir minhas incoerências e inconsistências, para não repetir falsos mantras com medo de não ser digna. O BDSM é uma expressão da minha sexualidade. Eu ainda amo dormir de conchinha, ganhar cafuné, beijinhos, a minha família, os meus amores. Uma lição que o feminismo sempre reforçou e esse livro reiterou é que ter uma postura questionadora é ameaçador, causa estilhaços. Se você é uma mulher que foge da risca, tanto mais. As pessoas podem te projetar como uma desalmada sem coração, egoísta da pior estirpe, pois você almeja a liberdade que para tantos homens é tão natural e celebrada. Se minha sexualidade fosse mais comum, eu poderia ser “descolada” ou “safadinha” por falar de chantilly e gel para oral, mas meu estilo é aquele que não pode ser manifesto, até agora.

Gosto de me exibir. Quando criança sonhava em ser atriz, dançarina, algo que exigisse um palco. Desde então recebo as mais diversas recomendações para que não tenha esse tipo de postura. Tentei abafar esse ímpeto com vestuário e pensamento religioso dogmático até meus dezesseis anos. Não funcionou. Também afirmaram que tais modos, gestos e palavras eram perigosos e todos os danos infligidos contra a minha vontade recebiam a acusação “Também, ninguém manda se portar assim”.  Não busco exatamente a paz de espírito, gosto de aventuras, descobertas, abalar as próprias certezas. No princípio fazia com naturalidade por não ver nada de moralmente errado em minhas atitudes. As punições verbais e físicas vieram, eu passei a temer meu próprio discernimento e duvidar das emoções emergindo. Se eu tento “não dar pinta”, meus reflexos ficam mecânicos como de um robô pessimista. Se dou forma a esse conteúdo dançando, falando e escrevendo, até o vento no rosto me faz sorrir. Escolhi essa última opção e sei que haverá consequências, apontadores de dedo sempre estarão aí, mas a existência é curta, não vou desperdiçá-la por medo de desagradar opositores.

Essa é uma cabine privativa. Se sente prazer em observar quem gosta de se mostrar, esse lugar será mutualmente estimulante.

Referências

ADAMS, Carol. A política sexual da carne: a relação entre carnivorismo e a dominância masculina. São Paulo: Alaúde Editorial, 2012. 350 p.

WOLF, Naomi. Fogo com fogo: o novo poder feminino e como o século XXI será afetado por ele. Rio de Janeiro (RJ): Rocco, 1996. 453 p. (Gênero plural).

[1] Não sexualmente libertinos como se costuma dizer no senso comum, mas enquanto tendência política de incentivo à meritocracia.

[2] Wolf entrevista jornalistas, diretoras de cinema e outras mulheres que alegam não assumir o feminismo para que seu trabalho fosse “levado à sério”.

[3] “Se as próprias lésbicas em muitas comunidades percebem que não podem se arriscar a se revelar, é pouco realista, e até mesmo elitista, que militantes urbanas de vida confortável esperem que mulheres heterossexuais daquelas mesmas comunidades assumam a identidade lésbica. Embora muitos brancos se filiem ao movimento pelos direitos civis publicamente e com sinceridade, é provável que seus números despencassem se eles tivessem de ser tratados como um membro de uma minoria” (pg. 105)

[4] U.S. Department of Education e Equal Employment Opportunity Commission, respectivamente.

[5] http://en.wikipedia.org/wiki/Anita_Hill

[6] Ensinamos as meninas a se encolherem, para se tornarem diminuídas. Dizemos para meninas: Você pode ter ambição, mas não muita. Você deve ansiar para ser bem sucedida, mas não muito bem sucedida, caso contrário, você vai ameaçar o homem”. Discurso de Chimamanda Ngozi Adichie, utilizado na música Flawless da Beyoncé.

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6 comentários sobre “Fogo com fogo

  1. Adorei o novo blog!

    Faltam-me muitas referências para entender adequadamente o texto, mas vou me arriscar. Eu percebi, graças em grande parte a você, que existem inúmeros feminismos e que o movimento é muito mais fragmentado e heterogêneo do que parece à primeira vista. Sua atitude de manter suas posições, mas procurar aprender mesmo com outras posições que entram em conflito com elas, é muito saudável – para basicamente tudo.

    É uma atitude aberta que eu gostaria de ver com mais frequência. Às vezes discutindo feminismo eu me sinto um pouco hostilizado, como se eu fosse “o inimigo” e nada menos que uma concordância completa seria aceitável. Eu acho que uma atitude de confronto, ainda que às vezes necessária, não leva a diálogos produtivos. E eu acho que se o feminismo quiser “converter” os homens, o diálogo – o entendimento mútuo – será essencial.

    Sobre o ponto a), é importante ter me mente que as pessoas não são unidimensionais e não estão inseridas em apenas um grupo. Gênero, classe social, inclinação política, inclinação sexual, etc… tudo isso conspira para formar o indivíduo. Acho que isso explica a riqueza de feminismos por aí, desde o “de esquerda revolucionário” até o “acadêmico”.

    Sobre o ponto c), é interessante fazer esse contraste de feminismo de vítima e de poder. Como você disse, a vitimização vira uma estética e isso reforça a impotência e vulnerabilidade das mulheres ao focar excessivamente na parte de “você precisa de proteção”. Precisa, claro, mas um feminismo de poder, de “você pode!” estimula uma postura mais ativa, a iniciativa de agir, atuar, militar. Mostra que estamos todos no mesmo patamar e possuímos a mesma capacidade. Acho que isso acaba sendo ilustrado nos arquétipos do ponto d).

    Sobre as considerações finais, fico feliz que você tenha saído do armário. Eu já sabia que você era uma Dominadora, mas um anúncio público e aberto tem uma natureza diferente de conversas privadas. De tantas negações de nós mesmos a que somos levados, a da sexualidade é uma das mais intensas e provavelmente mais danosas. Culpa, vergonha, infelicidade ao tentar conformar-se aos padrões… A verdade é que todos seremos julgados e viver para satisfazer os outros é receita certa para a infelicidade. Porque não é você, mas é a sua vida. É preciso coragem para se atrever a ser você mesma e ser feliz do seu jeito.

    Conte com meu apoio para superar as turbulências que vierem 😉

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    1. Olá! Como vai? Bom ver você por aqui!

      “Ganhar corações e mentes” não é o propósito do feminismo. O objetivo máximo do feminismo, são as mulheres. Se os homens vão concordar com isso ou não, que aprendam. Leu os comentários do Renato Aragão sobre o humor e como antes negros e gays não reclamavam das piadas? Creio que o embate de ideias é inevitável porque força homens a pensarem as coisas que antes julgavam super normais, como exigir e forçar sexo com uma mulher. Outra “pulga atrás de orelha” em ouvir homens falando sobre feminismo é que costumeiramente, acham que entendem mais do riscado do que quem vive na pele. É fundamental saber o lugar de fala, eu, enquanto mulher branca posso apoiar a luta anti-racismo mas devo ouvir mais quem realmente vive preconceitos que nem passam pela minha cabeça. O que não falta é “feministo”: Homens que querem ensinar mulheres a serem “feministas melhores”, em um ditado popular, “ensinar o padre a rezar a missa”. Por mais que um homem tenha uma ótima boa vontade para o tema, ele continuará sendo um homem. Não conheço um homem feminista sequer que não usou seus privilégios de gênero inclusive com suas namoradas/companheiras. Não porque homens sejam intrinsecamente sacanas, mas privilégios serão privilégios. Um patrão, por mais gente fina que for, tem mais legitimidade de descontar nos funcionários as frustrações pessoais do que o contrário.

      Discordo totalmente “de que estamos todos no mesmo patamar e possuímos a mesma capacidade”. Quanto mais privilégios, mais facilitadores. Alguém com “sobrenome”, “contatos” e o escambau mora sozinho, antes dos 30, perto na linha verde do metrô bancado pelos pais. Diferenças geográficas, econômicas, estéticas, abrem e estreitam portas. A capacidade moral de ambicionar todos temos, se as condições vão ser férteis são outros quinhentos.

      Obrigada pelo carinho ❤

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      1. Eu até entendo essa sua posição de que “os homens que aprendam”. De fato, desconstruir o machismo embutido na nossa mentalidade é difícil e muita gente vai resistir ferozmente contra isso. Talvez seja minha característica de tentar minimizar conflitos falando. Ou talvez apenas seja a sensação desagradável de ouvir que você está errado e saber que quem fala tem mais que uma ponta de razão 😛

        Quando defendo uma postura menos “agressiva” do feminismo, não estou querendo ensinar a missa ao padre, apenas colocando meu ponto de vista – que reflete meu jeito conciliador ou de colocar panos quentes, como poderiam dizer. Eu sei que não tenho tanta “autoridade” para falar de racismo ou feminismo quanto uma mulher ou negr@, mas já ouvi que homem não tem que nada que falar do assunto, ponto. Isso pra mim é extramemente injusto e segregador, como se fôssemos tão diferentes a ponto de não haver chance de empatia, de colocar-se no lugar do outro – o que é um pensamento desolador.

        Sobre os privilégios, confesso que tenho dificuldade em identificá-los. Eles se tornam invisíveis para quem os desfruta, embutidos na “normalidade”. Nesse ponto concordo com a imensa diferença de viver na pele a falta desses privilégios. Não acho que tenha usados desses privilégios com companheiras, mas como disse, tenho dificuldade de identificá-los. Mas não pretendo usá-los conscientemente e vou me esforçar para extirpá-los do meu inconsciente.

        Quando disse que “estamos todos no mesmo patamar e possuímos a mesma capacidade” estava defendendo que não devemos encarar uns como melhores ou mais capazes que outros. Estava falando do “a princípio”, do ideal, não da situação real. Para mim a igualdade de gênero, de raça, de qualquer coisa é quando aquilo deixa de ser importante para definir, classificar, ranquear, etc as pessoas. É parar de ver a pessoa como homem ou mulher, branc@ ou negr@, onívor@ ou vegan, mas apenas como a Débora ou o Diogo. Encarar a pessoa na sua totalidade, sem definir o todo pela parte. E eu sei que isso é extremamente ingênuo da minha parte. Muitas correções de desigualdades e mudança de mentalidade serão necessárias até chegarmos a esse ponto.

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      2. Diogo,

        Também tenho um modo de agir bastante conciliador, diria até, pedagógico, mas se o embate envolve abrir mão de certos hábitos, as pessoas não costumam ceder tão facilmente. O livro da Naomi Wolf também fala disso. Ela dá um exemplo interessante ao citar aquele filme “Um dia de fúria” no qual o protagonista recebe uma ordem judicial para que se afaste da mulher, a figura masculina se pergunta “Como assim, eu virei o vilão e ninguém me avisou?”. Usando mais uma vez o discurso do Renato Aragão “Hoje nem posso mais fazer piada de minoria porque eles reclamam”. O humorista tem que repensar no repertório, o homem comum tem que repensar seus modos de agir e expectativas com mulheres (o que envolve não assediar, não bater, não praticar gaslighting, etc).

        O piloto automático é todo mundo reproduzir o machismo, mesmo as mulheres, o que não muda o fato de que o lugar de fala produz resultados completamente díspares. Mesmo se o assunto é feminismo, uma mulher feminista é tomada de antemão como uma estraga-prazeres de marca maior, um cara feminista é visto como sensível (talvez mesmo entre os brothers, seja visto como um cara com coragem). Acredito na capacidade empática de todas as pessoas, mas se algumas feministas escolhem espaços (arquitetônicos, virtuais ou discursivos) só delas, não tenho como não simpatizar. Já estive em espaços de discussões mistas e imagina só quem falava mais? Isso mesmo, os homens. Meu ex-companheiro uma vez ficou fulo da vida porque via a cara de constrangimento das mulheres no local de deixar o sujeito tagarelar por quase meia hora, sem parar. “Eu não acredito que eu, homem, tenho que parar o tempo de fala em um espaço de mulheres, logo a gente tem horário pra sair e você fica usando mais da metade do tempo, esse é um espaço de mulheres”. Ficou um super climão mas o sujeito se tocou. Quando uma mulher fala de suas experiências em ser mulher, da sua trajetória, das suas inseguranças entre outras mulheres que também passam por aquela sensação, ela se fortalece. Já fiz parte de um coletivo exclusivamente para mulheres e poucas experiências foram tão importantes na minha formação. Para que as mulheres consigam ter força de conviver em sociedade elas precisam de espaços seguros. As mulheres que frequentavam o coletivo que eu participava eram hétero, bi, lésbicas, amavam seus pais, irmãos, amigos, namorados, etc. O mundo já é mais do que misto, ele é masculino, fortalecer a identidade de ser mulher (mesmo de uma mulher cis, que é o meu caso) é um divisor de águas. Desse modo, não consigo ler a atitude de vez ou outra pedir para que um homem escute mais ou não participe de um espaço seja nada além de a busca de um lugar seguro.

        Assim como eu convivi a vida inteira ouvindo que eu era “gordinha” e ainda por cima “aparecida” (eu prefiro o termo exibicionista), acumulei histórias e mais histórias de piadas, indiretas, imitações partindo de familiares, grosserias de vendedores de loja, dicas de dietas de desconhecidos transeuntes, colegas etc. Eu me afirmei como mulher gorda, tem gente que acha absurdo porque “nem sou tão grande assim”, mas se eu sou tratada como gorda eu aprendi a reagir como gorda. Já falaram que provavelmente eu experimentarei a solidão por não querer ter filhos, casar, ser monogâmica, já fizerem piadinhas de DST como indireta à minha promiscuidade, enfim, um monte de coisas que eu não teria de ouvir se eu fosse um jovem aspirando carreira acadêmica, variedade de parceiras e morar sozinho. Se eu fosse um cara nessas condições seria louvável e não “um egoísta que pensa na própria carreira e não acredita no amor”. Abraçar uma identidade que é de “segunda classe” ou “o segundo sexo” é um exercício diário, uma resposta e enfrentamento necessário para não caber nas caixinhas que querem nos colocar na marra.

        Beijos!

        PS: Esse link é muito interessante e escrito por um homem: Um guia da cultura do estupro para o homem cavalheiro

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  2. Oi Deborah!

    Que bom que não deixou de escrever, pensei no pior quando encerrou o “aquela deborah”. Seus textos são muito legais.

    Adorei saber que é Domme, gostaria de falar contigo sobre o assunto, se me permite a aproximação é claro! ;D rs.

    abraços cordiais.

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