Meu tesão não conversa com a minha ideologia, e agora?

1) Miga, o desejo é muito traquinas, uma hora você se vê toda umidificada por uma coisa ~errada~ não é mesmo?

2) Por exemplo, você critica os padrões eurocêntricos e se vê desejando ferozmente aquele cara loiro de olho azul.

3) Ou você é lésbica e defende isso como um verdadeiro amor livre. E se vê desejando um homem com pinto.

4) Ou critica o patriarcado e quer passar por um bondage e cumprir papéis abertamente submissos sexualmente. Aí você me diz, e agora?

5) E agora você vai ter que lidar que tá tudo bem ter certas incoerências entre o que se diz/acredita e o que se sente/deseja

6) Você pode a) Lutar contra a própria libido para se livrar dessa tendência, chorando de culpa depois de se masturbar ou acordar melada

7) Você pode b) Tentar ter um olhar mais generoso diante do próprio desejo e tentar trabalhá-lo (com terceiros que consentem, e/ou sozinho)

8) É verdade, seu desejo foi construído. E pode mudar. Igual seu paladar.

9) Seria desonesto eu defender que: “Faça o que te faz sofrer menos” porque muitas vezes tanto o desejo quanto a culpa nos fazem sofrer

10) Assumir o que você é pra você mesmo pode fazer se sentir vulnerável porque isso afeta a forma como te tratam, com toda certeza

11) Não é só uma treta você versus o mundo, é você versus a sua consciência e auto-imagem, identidade, por isso é uma ação tão difícil

12) A gente tenta evitar a todo custo a sensação de abandono de “NINGUÉM TE AMA E NUNCA AMARÁ”

13) Quanto mais experiências ruins de rejeição e mesmo de violência a gente passa, mais a gente teme experimentar tudo novamente

14) Eu passei por crises de consciência horríveis quanto mais forte batia meu desejo por FemDom

15) Eu, que sempre defendi relações igualitárias desejando usar homens como objetos com mordaças (ou seja, calados, sem voz)

16) Quanto mais eu abafava, mais forte isso se tornava, mais isso esgarçou as minhas relações afetivas e de amizade

17) E eu não acredito, hoje, que as pessoas tem a obrigação de achar esse pedaço da minha sexualidade “normal” ou “aceitável”

18) Podem achar incoerente até o talo. Mas faz parte da construção do que eu sou.

19) Eu tenho a minha própria ética e não obrigo ninguém a se relacionar (mesmo que só uma foda) comigo

20) O que me ajudou [pausa dramática] foi ler Freud (sete mil unfollow)

21) Também ajudou muito ler Nietzsche [meu, deus agora todo mundo me odeia, então vamos mais um foda-se:] e Foucault

22) Porque o feminismo tradicional que eu conhecia não dava conta de responder as minhas angústias sexuais

23) E esses três teóricos me ajudaram a me amar mais no sentido de: Todos somos dotados de pulsões de vida e pulsões de morte

24) Antes de buscar tanto a verdade. Melhor buscar a potência.

25) Não é preciso patologizar tudo o que se sente. Você não é uma aberração, você é só alguém com muita libido.

26) E se outras pessoas não querem, não gostam, não gozam com as mesmas coisas que você: Isso diz sobre elas, não sobre você.

27) “Pensar com a cabeça de baixo” não significa “Agir com a cabeça de baixo”. Não é crime “Escutar” e não se culpar pelo que “ela diz”

28) Incrível que não obstante em fingir orgasmos, as pessoas são pressionadas a sentir uma culpa horrenda pelo que as realmente faz gozar

29) Então não se culpe, miga, teu desejo te faz humana, não importa o quão “errado” ele pode ser. Encontre formas de canalizá-lo sem remorso

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44 comentários sobre “Meu tesão não conversa com a minha ideologia, e agora?

    1. Olá 🙂

      Obrigada e seja bem vinda! Do Freud eu li algumas conferências. Do Nietzsche eu li Para Além de Bem e Mal (aqui um texto que produzi), a Gaia Ciência e outros trechos da Coleção Os Pensadores. Do Foucault li Vigiar e Punir, um pedaço de “As palavras e as coisas”. De todos os autores eu li além deles mesmos, comentadores. 😉

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      1. Do Foucault tem A História da Sexualidade que é bem interessante e mostra como a noção de sexualidade foi construída e como a medicina tentou se apropriar dela, especialmente sobre o controle da mulher. E do Nietzsche tem A Genealogia da Moral, que é fantástico, potência pura!

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  1. Eu, homem, branco, modelo de olhos azuis (vulgo “opressor”) tive uma ereção só de ler o item 15. Não são só vocês que sofrem de tesão contraditório meninas hahaha :/

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    1. Dan, poucos homens admitem que extraem prazer com a submissão masculina. Isso mexe diretamente com a ideia central de que “homem de verdade” quer o controle e não, ser controlado. =*

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      1. Olá, JPaulo
        Não achei graça da piada com o ~opressor~ As coisas não são tão simples, o desejo, o prazer, o tesão, são sim, construídos e uma expressão importante de cada pessoa. Por mais “mente aberta” que alguém seja (isso inclui você), os limites devem ser respeitados. As pessoas tem “travas” e inseguranças sexuais por históricos de vida. Ninguém precisa fazer sexo X vezes de um jeito Y para ser bem resolvido com a própria libido.

        Saudações

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  2. Gostei da tua eloquencia, afora disposição em tópicos. Bati palmas pro “Não se deve patologizar tudo, vc não é uma aberração”. Naturalmente tenho aversão a -coitadismos- de quem sempre se põe como vítima em situações desnecessárias.

    Parabéns pelo auto conhecimento.

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  3. Gostei muito do texto, pois ele toca questões muito presentes ultimamente. Como lidar com essa incoerência? Quando a minha ideologia, meu lado irracional se choca gravemente com meu desejo, meu subjetivo. Ando pensando muito sobre isso, porque vivo constantemente nesse embate. Uma guerra quase. E estou tentando aceitar mais todos os lados. E, como vc disse, parar de buscar uma verdade e tentar descobrir a potência. Um outro autor interessante, que tem me ajudado bastante nessa reflexão, é o Roberto Freire, conhece? Ele tem um livro chamado Sem tesão não há solução. Ele fala muito sobre ouvir esse corpo e romper as barreiras da sociedade judaico-cristã. A busca pelo prazer em tudo que se faz, ou seja, o tesão em tudo. Ainda estou tentando digerir essas ideias. Seu texto veio a contribuir ainda mais para o processo 🙂

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    1. Bia,

      Adorei seu comentário! Já estou a procura do livro 😀 É um impasse real e a gente passa por ele sozinha achando que é uma angústia individual. Tão importante quanto encontrar parceiros de similares dores, é encontrar alguém que junto, está em busca de outras formas de lidar com o que nos mobiliza profundamente.

      Beijos!

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  4. Oi, achei bem interessante e me pergunto como lidar com esses tons de sexualidade x ideologias, estar atraido por um modelo de masculinidade “macho alfa dom” me faz sentir que o primo mulheres, homens não-binários/ ou fem e trans…mas é o prazer que sinto e que nasci com…como evitar disforias emocionais quanto a taração?!

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      1. Guilherme,

        O desejo não nasce do vácuo, repensar o quanto ele é construído e o quanto pode ser expandido pode oferecer novas experiências. A melhor metáfora que encontro é a do apetite. O tempo passa, nós mudamos, passamos a ter tédio do que antes era fantástico, abraçar e gostar de novos temperos. Abraços!

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  5. Meu problema. Sou noiva do melhor homem do mundo. Sei que o amo demais, mas porém entretanto todavia, meu desejo é voltado para homens q sentem desejo por mim. Ou seja, qualquer homem que eu repare que tem tesão em mim se torna interessante. E isso me mata de remorso. Pq quero que todos sintam tesão por mim.

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    1. Aline,

      Na sua fala fica evidente que anseia por seu noivo, porque sentir tanto remorso se o que sente por ele (seu noivo) não se modifica? A maioria das pessoas sente desejo por terceiros mesmo se envolvendo monogamicamente (talvez ele também passe por isso), é bastante recorrente. O desejo é uma artilharia pesada e aponta para várias direções. Não há nada do que se envergonhar por sua libido desejar mais experiências, se vai vivê-las ou não, cabe a você. Para causar algum alívio dessa situação, eu recomendaria que se masturbasse pensando nessas outras pessoas, isso é, se você se sentir confortável para tanto. Na minha opinião, o desejo nos atravessa, dá pra fingir que ele não existe ou abraçá-lo (se masturbando, realizando, tentando não se culpar por). Beijos!

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  6. Legal esse assunto, sempre me pego pensando isso. Meus desejos são COMPLETAMENTE incompatíveis com minhas ideologias. Estou tentando achar um meio-termo, mas ainda sinto muita angustia. Fico pensando que tem tudo a ver o fato de eu ser feminista e gostar sexualmente de submissão feminina, é quase a razão tentando compensar as imoralidades do tesão. Mas é isso, o mistérios de sermos tantos em um só corpo, é a graça da vida.

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    1. Gabi,

      Há tantas razões possíveis! O que vivemos agora e pode ser explicado de uma maneira, pode ganhar uma outra interpretação com o tempo. Por exemplo, quem não olha para trás e repensa o que viveu para o bem ou para o mal: “Era feliz e não sabia”, “Como fui ingênua”, “Me machucaram e eu só percebi agora”? Racionalizar o que se vive é um impulso quase instantâneo, às vezes, a ânsia por coerência irrestrita pode ser uma areia movediça. O que eu tenho a te dizer como feminista é: Já temos muitos “diagnósticos” e dedos apontados, não precisamos de mais. Um beijo!

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  7. Excelente texto, posso compartilhar no face?

    Acho que todo mundo passa por crises de identidade causadas pelos seus desejos sexuais. Aquela coisa adolescente de descobrir que você pode sentir tesão, de descobrir o prazer sexual… até com coisas e pessoas que você nunca imaginaria ou sequer gostaria de imaginar. E talvez seja a fonte de algumas das piores culpas/neuras/sei lá que nos afligem… Gosto de meninos ou de meninas? Por que eu quero trepar no cinema? Muitas vezes esses desejos são totalmente contrários ao que fomos ensinados a encarar como normal e saudável.

    Ah, e a coerência… De valores, atitudes, ações. Do que te estimula intelectualmente… e sexualmente. Das suas preocupações morais versus os seus tesões. Acho que o lema que se deve ter em mente quando falamos de sexualidade é: no sexo nada é errado [desde que consentido].

    O sexo é um desses aspectos biológicos que escondemos porque nos envergonham e nos lembram que somos, sim, animais. Porque padres também tem ereções involuntárias e modelos também cagam. Ao mesmo tempo o sexo transcende o aspecto puramente físico: ele tem implicações emocionais, afetivas. Pode ser uma experiência extremamente íntima, de ligação profunda – ou de prazer animal desavergonhado – de transações comerciais-carnais. E faz parte daquelas características que por um motivo ou outro mais nos definem socialmente: nome, sexo, idade, profissão, orientação sexual, raça, signo…

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  8. Olá Deborah!

    Olha eu chegando atrasado, rs.

    Bom, eu não consigo associar o íntimo com o ideológico, pra mim desejo não tem racionalidade e por isso talvez eu ache totalmente ok alguém sentir desejo por algo que teoricamente é contrário as suas idéias, pq bem…. vejo o sexo como uma “brincadeira de adulto”, algo mais lúdico e menos objetivo.

    Colocar homens com mordaças e objetificá-los no contexto do sexo não quer dizer que você está reduzindo-os de alguma forma, acho que está apenas direcionando seu tesão, simplesmente praticando um desejo, mesmo pq os tais homens também tem o desejo e também estão buscando aquilo que os faz se sentir bem e os completa de alguma forma.

    Totalmente diferente de fazer algo à força, BDSM é sempre consensual, a safeword está aí para provar. Não está legal? O Bottom não se sente bem? Safeword. Tem muita gente no meio BDSM que vai pela teoria que numa sessão/seção/ (não sei nuncaqual é nunca o “sessão” correto, rs ) quem “manda” é o/a sub! Pq o Top só pode “obrigar” o que o/a sub está dispostx a fazer. ;D

    O mesmo vale para desejar alguém de um fenótipo (é essa a palavra?) que teoricamente é o padrão que oprime quem não se encaixa nele, bem o padrão é inventado, mas a pessoa que teve “a sorte” de nascer nele não tem culpa! Desejar a pessoa também não é nada demais, coisas do irracional, de corpo mesmo.

    Hum, não sei se esqueci de tocar em algum ponto!

    Abçs!

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    1. Flávio,

      Eu discordo de você no ponto em que defende que o desejo é dissociado do pensamento político, das influências ideológicas. Não há nenhum “gosto” sexual ou não, que não seja construído. Se gosta de ler, recomendo “A distinção” do Bourdieu, ou o filme “O gosto dos outros”. Assim como o paladar e aspirações românticas, o tesão se altera no tempo com impacto direto das nossas relações interpessoais.

      Quanto a quem “manda” nas sessões, as coisas são bem negociadas, mas bem mais fluídas do que costumam pensar. Não é porque o submisso coloca um limite que ele está conduzindo a sessão, ele está respeitando um preceito interno que é considerado pela Domme, mas a decisão de como e o que fazer com ele, tem um escopo imenso. Vamos supor, por exemplo, que a Domme conheça os limites do submisso e que envolvam tão somente uma palavra X e uma prática Y. Ela ainda tem todo o restante do alfabeto para fazer zilhões de combinações: A, AB, GK, CBT (risos) e assim em diante. Isso sem contar que não é raro que os limites queiram ser testados por ambas as partes com o passar do tempo, o que era impensável se torna novidade e excitante (mesmo na vida baunilha).

      É claro que ninguém tem culpa do corpo que nasceu, de ser privilegiado “de berço”, mas há uma distância imensa entre alguém que só sente tesão por gente cis branca e ao menos pensa sobre o quanto aquilo foi construído, daquele que é irredutível em uma suposta neutralidade política do desejo dos corpos. Que há subjetividade, há, mas ela nunca é “pura”.

      Abraços!

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  9. Olá Deborah.

    Ah sim, gosto muito de ler! Já anotei a sua indicação de leitura, tarefa de casa, prometo! ;D

    Sim os limites que o sub coloca quando há a fase inicial da negociação são alterados no curso que a relação com a Domme vai se intensificando, aliás qualquer tipo de acordo pode ser alterado, a parte bacana no BDSM é de que há sempre uma construção para as alterações das cláusulas.

    Toquei na teoria de que o sub “manda” de certa forma mais para ilustrar um pouco o outro lado da ideia que as pessoas tem sobre a dinâmica do BDSM, acho que não me expressei bem! O ponto era debater um pouco o pensamento que muita gente tem (principalmente os iniciantes/ baunilhas) de que o Top é alguém “mal” que “detém todo o poder do universo”.

    Hum, acho que só me enrolei mais… =p

    Também não creio em pureza e esses negócios, acredito que tudo na nossa vida nos influencia, mas o que quis dizer é que nem todas as pessoas tem a consciência de que os gostos podem ser construídos e vivem suas “escolhas” “livremente” sem se preocupar com nada.

    Do outro lado temos as pessoas que despertam para uma consciência política do mundo e daí vem os conflitos, os questionamentos, o que é ótimo. Mas ainda acho que a pessoa pode viver o que sente sem culpas, há algum ponto entre o X e Y…. que possa ser razoável. (X o que seria a teoria do pensamento que a pessoa estuda/pratica/acredita e o Y que seria o que ela gostaria de aplicar ao seu gosto mas está vendo se contradizer).

    Gostei da piadinha do CBT (risadinhas)

    Abraços! Fique bem! ;D

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  10. Me parece que essas três afirmações não conversam entre si.

    6) Você pode a) Lutar contra a própria libido para se livrar dessa tendência, chorando de culpa depois de se masturbar ou acordar melada

    7) Você pode b) Tentar ter um olhar mais generoso diante do próprio desejo e tentar trabalhá-lo (com terceiros que consentem, e/ou sozinho)

    8) É verdade, seu desejo foi construído. E pode mudar. Igual seu paladar.

    Soa como se você conseguisse moldar uma força da natureza, algo que eu acredito piamente não ser verdade. É como dizer, que hoje você dorme gostando de cu e amanhã não vai gostar nunca mais de buceta.

    Seria possível?

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    1. “É como dizer, que hoje você dorme gostando de cu e amanhã não vai gostar nunca mais de buceta.” Sim, é possível, mas não obrigatório. Não é uma equação perfeita, mas uma possibilidade.

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  11. Que texto lindo! Retrata todas as minhas angústias. Meu desejo é totalmente incoerente. Gosto de “trampling”, pena que os gays de hoje só pensam em penetração. Perguntam de cara se vc é ativo ou passivo. Vale não ser nenhum dos dois? No mundo gay, esse comportamento é passível de riso e comentários do tipo ” sai logo desse armário e vai dar essa bunda” são frequentes.

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  12. Além desses autores, seria interessante tu ler o Deleuze e o Guattarri. Nas obras como O Anti-Édipo ou Mil Platos, ambos tentam desconstruir a ideia do desejo como falta e reinseri-lo como força produtora, potência. Acho que tu vai gostar muito.

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  13. Isso gera uma bela de uma discussão, né? Porque entramos no “Procure formas de canalizá-lo sem remorso”. Ok. Como fazer isso? Como acabamos impedindo os outros de fazer isso quando criticamos o desejo delas dizendo “desejo é socialmente construído”? Eu sinto que nessa história de “o desejo é socialmente construído” tem, em muitos casos (não o seu, seu texto é oposto a isso) uma idéia de “reconfigure o seu desejo para se moldar à sua política”, “seu modelo desejante é opressor e ao alimentá-lo você está alimentando a opressão”, etc. Mas aí vem as clássicas frases nesses textos “Ninguém é obrigado a transar com ninguém”, MAS “seu desejo é socialmente construído”. Bacana, gente. Isso tá claro. E o que a gente faz com isso?
    É importante perceber os subtextos nesses discursos. E a hierarquização de que “quanto mais contra a corrente, melhor”. É como se você ganhasse pontos por ser “fora da norma”. Gostou do “estranho”? Parabéns, palmas. Gostou de um homem branco hétero-cis? Cara, desculpe, mas seu desejo é socialmente construído.
    A minha pergunta é: Tá, ele é socialmente construído. E daí? Isso torna ele mais “errado” que os outros? Menos “revolucionário”?
    O problema é que ainda tentamos utilizar a lógica cartesiana, patriarcal e coerente para o desejo. Gente, o seu desejo não vai de acordo com sua política, o seu desejo não necessariamente quer um mundo mais igualitário. O desejo é esquivo, corporal, imanente, não se justifica como a ideologia faz. Ele está cagando para a sua ideologia. É a lógica do corpo, das tensões, dos impulsos.
    E a pergunta é? O que fazemos com isso? Continuamos hierarquizando com uma lógica inversa quais são os desejos mais aceitáveis pois estão mais fora da norma? Ou assumimos que as pessoas têm o direito ao desejo e não merecem ser policiadas?
    O que se pode fazer?

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    1. O que se pode fazer, na minha concepção, é não agir como se o desejo fosse uma espécie de eu-lírico impenetrável pela política. Tesão é reapropriação, temos de procurar parceiros compatíveis. Ou play partners, em termos gringos.

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  14. Gostei muito do texto, diz muito sobre o que estou passando no momento e que me deixa muito confusa comigo mesma. Vou procurar ler sobre os autores que você indicou para me esclarecer ainda mais

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  15. Oi.
    Cheguei aqui por um link da @alinevalek para o post sobre holofote e ruído. Gostei muito, fui ler o resto (já adicionei no feedly) e adorei esse texto.

    Quando eu tava ainda nos primeiros itens, pensei no quanto é comum em meios BDSM a figura da submissa feminista – e conheço um monte de mulheres que, depois de muitos autoquestionamentos, conseguiram encontrar caminhos para vivenciar sua sexualidade E suas lutas políticas sem contradição. E que não é tão comum encontrar dominadoras com um pensamento crítico semelhante. E aí cheguei nos itens 15 e 16.
    🙂

    Porque eu também questiono muito a minha sexualidade submissa. Muitas vezes ela me parece uma caricatura do feminismo – é ok brincar de mulheres dominando homens porque isso fica entre quatro paredes e na vida real não é assim; ou ainda, só é excitante porque é uma inversão do “normal”. Sinto falta dessa discussão.

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    1. Olá, Marcos! Seja bem vindo! Concordo com você e sobre o que isso significa para um homem submisso. E de fato há pouca discussão feminista no BDSM e vice-versa.

      Beijos!

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