Feminismo holofote e Feminismo clandestino: O rugido

Você é uma feminista crudívora, faz sua própria pasta de dente, tem receitas ótimas com soluções que dispensam shampoo e condicionador. Ou, você pode ser uma feminista que adoraria se casar só para usar um vestido do tipo princesa, bem rodado. Pode dispensar depilação na perna e qualquer outra parte porque nunca gostou desses rituais de beleza. Ou, pode querer saber apenas se aquele batom fabuloso foi testado em animais. Esse é um assunto nosso. Um assunto entre mulheres e como tratamos umas às outras dentro do feminismo. Você não é obrigada a achar o máximo Ru Paul, talvez enxergue ali a glamourização da feminilidade, uma repaginada de concursos de beleza, a competitividade capitalista, etc, etc. Certo, é a sua defesa. Mas, para algumas mulheres aquele programa é divertido e ensina sobre amor-próprio. A ilusão e a performance dos corpos, ser outsider dentro do outsider, as muitas formas de ser drag (nem todas elas querem ser “lindas”).

Me sinto confortável em ambientes anarquistas (especialmente se só de mulheres), conheço algumas músicas do Le Tigre, Beth Ditto é maravilhosa. Porém, nos dias que eu estou me sentindo pra baixo, coloco uma diva pop para tocar e me arrumo antes de sair, mesmo que seja só na esquina. Esse tipo de sensação não é valorizada em determinados setores do feminismo. Há quem ache que mulheres de batom vermelho e salto alto só ganham aplausos ao saírem na rua. Não. Elas ganham assédio, fama de presas fáceis. Se você é uma mulher careca, estranhos te abordarão com papos absurdos de conotação sexual (passei por isso anos atrás), se você se veste de maneira meiga e fofa, vão te tirar de otária por princípio. É como a princesa Jujuba, ela realmente tem fibra, é uma cientista, porém, ser uma princesa a torna constantemente perseguida pelo Rei Gelado. Se as mulheres fofas são supostamente mais cortejadas, isso não significa que são mais aceitas ou respeitadas. É incrível que mulheres produzam e façam rock abertamente feminista. Todavia, se Beyoncé aparece com um “Feminista” em letras garrafais há quem fique incomodada, porque afinal, ela é uma estrela, ela brilha, ela tem cabelo esvoaçante. Nem toda feminista é underground, nem toda mulher se sente representada em um visual com pouca feminilidade. E por mais que uma mulher faça todo o esforço em se enquadrar nos padrões, ela nunca será plenamente aceita (beijo, Andressa Urach). As mulheres não ganham biscoito do patriarcado, elas não são aplaudidas, ser mulher é receber vaias, ser mulher é nunca ser boa o bastante.

Toda diva pop faz músicas de superação. Essa é uma das inúmeras razões para fazerem tanto sucesso entre gays e mulheres. Nós sabemos o que é sentir o mundo te pressionando, afirmando que você é errada, boba, superficial, sentir um universo nos ombros. Qual alternativa? Se unir em um coletivo, ocupar as ruas com lambes, distribuir zines, tocar bateria? Ou você pode passar um batom vermelho, ir pro trabalho/faculdade, sair com sua amiga, acolher ela, voltar pra casa e assistir Ru Paul. Nenhuma dessas alternativas te faz mais feminista, sequer, nenhuma das alternativas te faz de marionete. Se amar a própria imagem, sentir-se linda, corajosa e fabulosa é o seu modo de enfrentar o patriarcado, vá em frente, gata. Não precisa abrir mão do carão. Não precisa abrir mão dos sonhos grandiosos. Você sabe dos elos que possuí com as mulheres, você sabe as coisas que já teve de enfrentar, você é autônoma o suficiente para decidir o que te fortalece, é capaz de escrever seu próprio discurso. Seja uma premiação, uma tese, ou explicar para sua mãe o que é misoginia.

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2 comentários sobre “Feminismo holofote e Feminismo clandestino: O rugido

  1. Excelente texto! Há quem queira reduzir o feminismo (ou qualquer ismo) a um bloco compacto e uniforme, mas há inúmeras contradições (ou melhor, aspectos) do movimento e das pessoas ali naquela mistura.

    E eu sorri com a referência a Hora de Aventura 😛

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