Só tinha burguês na passeata?

Nem todas as pessoas que são contrárias à Dilma e estiveram na manifestação são ricas. Qualquer pessoa que já viveu na periferia sabe que vizinhos se xingam, às vezes, de favelados. Quando eu ia pra escola pública, por exemplo, havia quem tirasse sarro dos nossos uniformes cinza, enquanto usavam uniformes da escola Pinheirinho (verde e branco) e Albert Einstein (azul e branco). Eu só fui descobrir que essas escolas citadas não eram realmente grandiosas quando comecei a frequentar outros espaços além da Zona Sul, daquele pedaço Belmira Marin, Cidade Dutra, Kennedy. E naquele mundo mesmo, eu via bem mais bandeirinhas amarelas e azuis em épocas de eleição. Minha zona eleitoral ainda é na zona sul e o que eu mais vejo pela área onde eu morava, são tucanos. Isso mesmo. Tucanos.

Talvez pela ética protestante. Talvez pela identidade de um povo trabalhador (da parte italiana e proletária, por parte de pai, da parte nordestina e proletária, por parte de mãe). A gente cresceu sabendo que só se consegue as coisas ralando muito sem depender de ninguém. Nem de bolsa de governo. Ao mesmo tempo, meus pais educaram a mim e a minha irmã para sempre respeitar as demais religiões, os posicionamentos dos outros. E foi essa ânsia em tomar as dores, ajudar e fazer o mundo melhor, que formaram meus princípios. Foi daí que eu fui xingada de feminista e quis saber mais. Descobri que as inquietações não eram só minhas. Com o incentivo de um ex-companheiro (pelo qual ainda tenho amor, carinho e respeito), tentei e tentei até entrar em uma faculdade pública. Na terceira vez passei. Pelo ENEM, pelo SISU. Minha nota não foi estratosférica, mas o suficiente para entrar. Conheci mais leituras e coisas que me fizeram questionar privilégios. Pensando bem, mesmo com tantas indas e vindas desde meus tempos cristãos e memórias infantis, dividir e tentar ajudar quem tem menos, continua sendo a meta. Isso não me faz superior. É só um jeito que encontrei de não menosprezar. Eu não mudei de lado, eu só procurei ser mais coerente com o que realmente acredito e buscar mais formas de agir, além do falatório.

Continuo ralando pra caralho. Lendo, escrevendo, fazendo apresentações. A minha formação acadêmica é toda voltada para atuação, para um impacto na vida das pessoas (nesse caso, crianças). Se faço piada com coxinhas e conservadores, é uma espécie de reversal russa. Não tem o mesmo impacto, não é “preconceito contra classe média, trabalhadora”. Eu já fui trabalhadora assalariada, eu sei o que é acreditar na meritocracia, mas isso não faz parte do que considero justo.

Na meritocracia universitária, por exemplo, porque de todos meus colegas do tempo de escola, quem conseguiu entrar na pública foram: Eu (branca) e uma colega que entrou na USP (também branca)? É difícil porque é estrutural e por isso mesmo, está além do ódio pelas contenções. O ódio que as pessoas sentem da corrupção como essa entidade abstrata é legítimo, as pessoas se sentem afetadas, lesadas, indignadas. Mas para onde jogar essa raiva? O grupo que ocupou as ruas ontem não é uma massa uniforme de pauta unificada, muitos estavam na rua por pura indignação. O difícil é precisar as razões de cada pessoa, esse é o mal da pesquisa quantitativa, a gente trabalha com números, não com as motivações. X pessoas votaram em Dilma. Y pessoas foram para rua ontem. Cada uma com especificidades tão miúdas que fica difícil tabular esses dados.

Nós, de esquerda, precisamos reconhecer que há muitas razões afastando as pessoas de se identificarem e se sentirem acolhidas no lado vermelho da força. É mais do que umbiguismo alheio, tem outros meandros que a gente não consegue captar, porque eles são muitos. São nossos chefes, familiares, ex-vizinhos, ex-colegas de escola. E vai ter atrito, porque são ideias conflituosas Se eu defendo o debate sobre gênero, raça e classe na educação e os familiares da criança, por sua vez, defendem binarismo, determinados temas não eurocêntricos enquanto “coisas do diabo”, redução da maioridade penal, vai ter treta. É desgastante para quem é de esquerda e nem sempre a gente está com paciência, mas olha, ao menos na minha experiência é muito melhor se envolver, enfrentar certos posicionamentos do que ser xingada indiretamente fingindo sorriso amarelo. É melhor do que achar graça de piadinha de puta, travesti, viado, sapatão, pobre, negro.

Tenho amigas e pessoas muito próximas que passaram por violências arrasadoras, por não fazerem parte da norma. Estou dos lado delas, também tenho minhas cicatrizes por isso. Se houvesse intervenção militar, gente como elas e eu estariam desaparecidas.

A piada de coxinha e de quem votou no Aécio não pede a cabeça de conservadores. Não enforca, mesmo que simbolicamente, a figura dos opositores. Por isso a minha proposta não é de ódio, tampouco de um amor universal por todos os seres. É respeito e o mínimo de alteridade.

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