Sofrência: O masculino e etílico auto-abandono

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O forró “Minha mulher não deixa, não”, ficou conhecido por contar a história de um homem convidado a participar de bebedeiras, noitadas e afins. O chamado é recusado e no primeiro momento, desconversa “Por nada, não”, depois admite “Vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa, não!”. Os amigos apelam chamando duas mulheres, “Ei! Vem duas nega! E aí? Vamos arrastar? No Xanadu a gente bota o bicho lá! Quem és tu? És boiolão? Tu vai ou não?”, o refrão repete e assim vai até o final da música. No imaginário popular há um personagem franzino e impotente: O pau mandado de mulher. Quer dizer, o homem que é capaz de rejeitar os convites, antes, absolutamente corriqueiros de noitadas em nome da boa convivência com a esposa. Não são poucas as mulheres que contam que perto dos camaradas, seus namorados e maridos “se transformam”, ficam mais rudes, menos carinhosos, uma vez que “homem sozinho só fala bagaceira”. A carta branca na afetividade masculina é para com as mulheres de seu relacionamento estável, a própria mãe e em alguns casos, a irmã. Você pode gostar de abraço, carinho, colo, mas o amor entre homens é diferente e é preciso manter a pose. Senão, você não é viril o bastante, senão, vão pensar o que? Que uma mulher manda? Uma mulher? Sério? Como diziam na minha quinta série: “OOOOoooora, se fosse eu, não deixava”.

Existem homens que embora não assumam diante da luz do dia, sentem-se plenamente confortáveis com uma mulher controlando seus passos, porém, o orgulho ferido faz dizer “Sabe como é, ela é uma louca, uma barraqueira, vai falar na minha orelha até umas horas”. O indivíduo não lida com as próprias angústias (intra ou extra-conjugais), se atola na bebida, volta pra casa sabe-se lá em que estado e quer que a companheira o receba cheia de amores (“vem logo, vem curar teu nego, que chegou de porre lá da boemia”). A bebida é uma espécie de auto-abandono, se entregar ao amor, idem, sendo o primeiro exemplo másculo e o segundo não. O homem confuso por se submeter e ao mesmo tempo, amar demais uma mulher, faz lamentar a própria sorte na entrega do coração para uma cínica, ele ama uma megera. Os colegas precisam saber desse enlace, é além dele, é amarração. É a algema (aliança), é a camisetinha de “Game Over”, é ele abrindo mão de fazer coisas de garoto, sendo cobrado enquanto adulto, ele foi domado e sente vergonha de ter sucumbido. É como o covarde que sai com a garota gorda e depois coloca a culpa na bebida, finge que não queria de verdade, sente vergonha da própria condição, de não atender a expectativa dos brothers. Surge o prazer secreto por manter uma certa paz no relacionamento com sua amada, emerge a dívida eterna na qual julga que a mulher deve a ele, por fazer o tremendo esforço de se afastar dos gorós. Ama e odeia, se sente incapaz de peitar a mulher, peitar os caras, é o fogo cruzado, é o refém. O homem mártir por amor, embarca na entrega encabulada do próprio melodrama: “Por favor, não implora, porque homem não chora”. E na mesa de bar, entre centenas de casos de amor, para fugir dela, para voltar para ela, com saudade dela, ele sê vê no fundo do copo.

Para saber mais:

CARDOSO, Silvia Oliveira . Paixão de um homem: Música ‘cafona’ nos anos 1970, emoções e gênero. 2014. Fonte: http://www.intercom.org.br/sis/2014/resumos/R9-1773-1.pdf

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5 comentários sobre “Sofrência: O masculino e etílico auto-abandono

  1. Olá! Deborah

    Muito triste viver em função do que os outros acham correto… é o que eu vejo a maioria dos meus colegas homens fazerem, eles vivem uma macheza que nem eles acreditam muito… se soubessem como viver fora da caixinha, (ou melhor, sem caixinhas), é maravilhoso…

    O amor é muito mais plural e diversificado do que se aprende que seja, amar e ser amado também passa por autoconhecimento….

    Meu avô dizia que garrafas de bebida tem boca mas não tem nada a lhe dizer.E que o homem tem uma vida triste por querer carregar o fardo que é o orgulho…

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  2. Acho que a parte mais difícil ao superar ao machismo é lidar com os amigos machistas… Ser taxado de chato, poser, etc… É uma pena que muitos homens prefiram continuar valorizando uma imagem ultrapassada de masculinidade invés de uma visão mais esclarecida do mundo (que também exige coragem)

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    1. Todo mundo tem receio de rejeição nos meios onde até então, era plenamente aceito. A masculinidade hegemônica é muito, muito tensa, porque se você demonstra qualquer desvio já aparece alguém para enquadrar.

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