Se pareço grossa, na verdade sou líquida – La mala leche para los puretas.

Histórico

Esse texto pode disparar memórias desagradáveis relacionadas à suicídio. Se você não está em um bom momento para ler algo nesse teor, por favor, não prossiga a leitura.

Era um jantar entre um dos meus amores. Tive uma manhã difícil e queria vê-lo para conversar, ter alguma companhia, alugar seus ouvidos. Ele estava lá, não sei como a conversa surgiu, mas acabei contando que não fazia muito tempo assim que eu tinha pensado em me matar. Ele ficou chocado. Muito chocado. Ele sabia que eu tinha passado por uns altos e baixos, mas não imaginava que eu tinha cogitado o suicídio. Não foi a primeira vez, eu contei, ele, atento e compreensivo, continuou a escuta. A primeira vez que pensei em me matar, foi um dia passando perto daquela ponte antes do SP Market. “Será que eu morro se me jogar daqui? Será que dói? Ou será que só vou cair nessa água suja, ser resgatada e voltar pra casa envergonhada de não conseguir nem isso?”. Ás vezes eu ficava romanceando a cena, imaginando como seria chegar de noite, sozinha, ficar na beirada, sentindo o vento antes de cair. Cair. Apagar. Sumir. Depois foi com a Ponte do Socorro. Eu estudava bem perto de lá. Minha escola da EJA era pertinho dessa ponte. Eu parei de estudar assim que terminei o Fundamental II. Terminada a oitava série, novo nono ano, resolvi parar. Foi um período de muita introversão e confusão, eu sentia um monte de pulsões auto-destrutivas. Me sentia inútil, perigosa, eu tinha medo dos meus pensamentos. Eu tinha medo da punição divina, não existia amigo, não existia lugar seguro, eu me abria com o meu cachorro e ele morreu. Silêncio, solidão, cansaço, vergonha, era tudo o que eu sentia.

Até hoje, às vezes eu tendo a crer que não há lugar seguro, não há proteção possível. Eu fui estuprada aos dez anos de idade. No quintal da minha casa. Por um parente. Não há nada que possa apagar isso. Eu fui ameaçada sistematicamente e em silêncio. Era o olhar e o gesto, era confuso. Ás vezes ele era amoroso comigo, principalmente depois de terminar, puxa, alguém me fez carinho, alguém quis me tocar, acho que é o máximo que eu consigo, acho que é o máximo que eu mereço. E eu apagava. Apagava mesmo. Tenho flashes de memória, sensações, se eu estou muito triste eu apago. Eu choro, vou dormir. Apago.

Semana passada eu abri a gaveta pra pegar o boleto do meu celular e esbarrei com meu Histórico Escolar. Lá está a data de tudo. Em 2001 eu parei de estudar, eu tinha catorze anos, fiz dietas malucas, todos meus problemas eram por ser gorda, era o que eu pensava. Com muito esforço e fazendo vista grossa para as vozes internas e externas de culpabilização, abandonei as dietas, voltei a estudar. Estava tudo bem, estava tudo bom, pelo menos estava firme o bastante para peitar alunos folgados. Eles sempre existem, eles sempre encrencam comigo falando ou baixando a cabeça. Eu não baixei a cabeça. Mas às vezes em casa, chorava antes de dormir, precisava terminar aquilo. Despertava muitas coisas fortes, fiquei um ano “respirando”. Em 2007, voltei e terminei o segundo e o terceiro ano do médio, peitei mais uma vez, principalmente quando encrencavam com os outros alunos, porque faziam insinuações para mães solteiras jovens, porque contavam aos risos que tinham matado um cachorro, porque zoavam o cara que tinha um aneurisma e tomava remédio, porque o professor de Filosofia fazia trocadinhos entre “Ateu e Atoa” olhando pra minha cara.  Durante o período do EJA eu nunca dei uma voltinha sequer na frente da tal ponte, ela estava bem perto, mas eu não queria chegar lá.

Tentei entrar na Federal. Não que não me achassem esperta, meu histórico escolar não mente, embora me sentisse estúpida como uma porta, as notas eram excelentes. Eu também ficava um pouco descrente, “eu sou esperta aqui”, eu pensava, “mas quando converso com pessoas de escola particulares, eu sei que eu não manjo, eu falo as siglas errado, eu troco tudo”. Meu ex-companheiro me incentivou demais. Eu sentia a barreira da bolha universitária. Estourei. Eu entrei em 2012. E incrivelmente, embora houvessem parágrafos que demandassem algumas leituras seguidas, eu conseguia ler e entender tudo. Os primeiros semestres foram absurdamente maravilhosos, quer dizer, as pessoas não atiravam mais coisas em mim, eu não ouvi nenhuma ameaça do tipo “vou pagar alguém para beijar você”, “fica ligada quando estiver sozinha na rua e alguém te agarrar, fui eu que mandei”, “qual seu problema comigo, só com a minha matéria, você está de brincadeira?”, “Como pode ser tão esperta e tão burra ao mesmo tempo?”. Nem uma ameaça, nem uminha. Até que começaram as aulas de Ensino de Matemática, eu sabia que esse dia ia chegar e em um dia eu fiquei tão, tão nervosa que saí da sala aos prantos e fui pra casa com a cabeça explodindo, o rosto vermelho de tanto chorar. E voltei e terminei a matéria, quer dizer, as duas matérias de Ensino de Matemática e foi bom, desmistificou, passei esse medo imenso, eu consegui.

Com o Bourdieu eu entendi esse desconforto do não lugar. De você se sentir “Jeca”, não importa o quanto suas notas forem boas, porque você sente que vai ter gafe e grande, quando for conversar com gente “cabeçuda”, o trejeito, algo vai dar na cara. As aulas de Psicanálise foram brainstorming. Eu pude entender as motivações por trás dos momentos em que eu pensei em me matar. Ao contrário do que pensam, não é só a pessoa visivelmente “derrotada” que cogita o suicídio. Não quero apontar aqui razões universais para o suicídio feminino, essa é a minha história, essas foram as minhas motivações e eu descobri elas através do estudo, algo que eu adoro fazer, mas que também vira e mexe me dá engulhos.

Passei por uma crise de muitos meses no relacionamento. Eu não tive culpa de não caber mais na peneira dele, ele não teve culpa de não caber mais na minha peneira. Eu faltei vários dias na faculdade. Eu saí chorando de lá, um bom bocado de vezes. Tentei escrever “pedindo ajuda”. Ninguém leu. Ninguém comentou. Ninguém entendeu. Eu pensei que ou as pessoas não se importavam, ou minha crise era frescura, ou eu não sabia nem mais como escrever. Me disseram que eu sempre parecia uma pessoa tão feliz e segura que não dava pra ver qualquer resquício de demanda por cuidado. Eu parecia auto-suficiente demais, sorridente demais, diva demais, notas altas demais, várias IC, uma aluna do caralho.

E talvez essa seja um tipo de dor feminina, quer dizer, eu fiz um bom trabalho ao parecer forte e bem. Mas quem vai mesmo acreditar que eu preciso de ajuda? Como disse a sempre tradutora da minha vida, Britney Spears “If there’s nothing missing in my life. Then, why do these tears come at night?” (Se não há nada faltando na minha vida, então, porque essas lágrimas aparecem à noite?). Se eu conseguia sorrir e dançar aos dez, quem poderia imaginar as coisas horríveis que eu passei? Se eu conseguia peitar os moleques folgados, por que eu precisei de um ano de “respiro”? Por que se eu ia confortavelmente bem em outras matérias, fiquei tão abalada com duas disciplinas? Por que se eu aparentava tanta auto-suficiência pensei em me matar para resguardar as pessoas que amo?

Quando contei para minha mãe do grande acontecido, passou alguns dias e o parente, morreu. Morreu. Sumiu. Chorei com o peito cheio de alívio e remorso. Como se chora de felicidade a morte de um parente? Que tipo de pessoa eu sou? Então a vida não é só um risco para mim, mas para os que de mim se aproximam. E quando houve a crise no relacionamento eu pensei que se fosse alguém nos conformes não teria crise, meu comportamento desviante foi o estopim, eu sou um fardo muito difícil de levar, eu sou um peso pra mim, eu sou um peso pro mundo. E com a cara quente eu pensei por alguns segundos, já estava pra lá da linha amarela mesmo, que falta faria? Talvez eu tornasse o mundo mais leve se eu fosse embora. Mas eu não pulei. She’s so heavy.

Lembro que com o meu primeiro psicólogo um dia soltei “Eu só não me matei pra não dar trabalho para os outros, acho que se fosse me matar cavava um cova, entrava com uma arma e deixava só o trabalho de jogarem terra em cima”. E com ele entendi que sufocava demais toda a força que sentia querendo sair. Ela saia quando eu escrevia, quando eu fazia sexo, quando eu desenhava, quando dançava, quando eu brincava com gatinhos e cachorrinhos, quando eu usava roupas curtas, decotadas, ou tinha alguma postura mais exibicionista, quando comia alguma coisa gostosa, quando eu não me sentia ameaçada por fazer as coisas que gostava. Isso é exatamente o contrário de se sentir destrutiva, um peso, isso é gostar do calor da luz do holofote. Mas sabe como tratam a dor de mulheres que gostam de exposição? Um capricho. “Ah, mas ela era jovem”, “Mas ela despertava amores”, “Mas ela tinha um futuro promissor”, “Isso é mania de perfeição”. Não, não é mania de perfeição, não é uma dor menor. É uma trama de punições e congratulações, de afetos e ofensas, de potência e de amargura, tem dias que estou mais para um lado, tem dia que estou para mais para outro, mas eu não tenho mais vergonha de admitir. Eu preciso chorar, ganhar um abraço, tomar um banho, passar um batom. Sair. Aparecer. Surgir. Aumentar o tom se for necessário. Meu Campus é perto de uma ponte. E eu já passei por ela, mas pra chegar na faculdade, com orgulho de já ter começado a escrever a monografia e flertar com o mestrado.

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8 comentários sobre “Se pareço grossa, na verdade sou líquida – La mala leche para los puretas.

  1. Voce escreveu muito de mim e de tantas outras pessoas (nao soh mulheres). Obrigada. Queria te dar nao os parabens, mas te dizer ‘vai; continua vivendo a tua vida. Porque ela eh TUA’. E queria tambem te dar um abraco (por voce e por mim), virar tua amiga, e de quem mais se sente assim. Porque, afinal, acho que ha sim lugar para nos.

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  2. Olá Déborah!

    Nossa li esse texto e fiquei pensando um bom tempo no que eu escreveria, o que posso dizer de coração é que vc é uma guerreira!

    às vezes tenho uns pensamentos depressivos, já flertei com a possibilidade de suicídio… quando li este texto me veio muitas memórias.

    abçs!

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  3. Ah, que coisa mais maravilhosa e libertadora quando a gente se percebe como alguém que, como qualquer outra pessoa, precisa de um abraço, de um carinho, de um ombro amigo. Me vi em vários momentos do teu texto, e também já flertei com o suicídio quando tinha meus doze, treze anos. Me sentia TÃO diferente, TÃO peixe fora d’água na minha família e no meu grupo de colegas e conhecidos (porque não, não havia amigos nessa época) que parecia que não cabia em lugar algum. Me trancava no quarto com meu rock pesado e pensamentos suicidas. NUNCA pedi ajuda; passei por coisas que ninguém sabe até hoje. Perdi o chão muitas vezes, mas me achei e poxa, conquistei TANTO! Fiz minha tão sonhada faculdade, mestrado e agora tô em vias de terminar meu doutorado. E o que eu posso te dizer é que tem momentos em que meu flerte volta, me dá um “oi” e vai embora, mas eu continuo aqui. Te desejo coragem e muitos, muitos abraços pela tua jornada. Pedir ajuda não nos faz menos fortes; só nos faz humanos. Um abraço apertado pra você 🙂

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