O gênero na linha de frente

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Professores, negros e pobres apanham do Estado há eras. Baltimore e Paraná são sintoma, não casos isolados. Antes desses eventos muitos outros ocorreram longe das grandes câmeras. Não é de agora que a resistência é lavada de sangue e as narinas se enchem de gás. Os noticiários impressos, das telas finas ou portáteis costumam retratar mulheres diante da violência do estado em um lugar muito específico: O da mãe. Choram as mães no Oriente Médio com os filhos nos braços, correm as mães com um filho em cada mão no Rio de Janeiro. Para os homens são deixadas as demais representações de militante. Não me refiro ao enfrentamento de famílias quando são retiradas de suas casas, ou das mulheres que já foram humilhadas e machucadas pela polícia com xingamentos misóginos. É claro que mulheres apanham da polícia, mas apanham diferente. A mulher negra, a mulher branca com cara de universitária, a mulher transexual. Cada uma delas, apanha distintamente.

Me detendo à manifestações que já participei, por melhoria do transporte ou da educação em grandes vias da cidade de São Paulo, nelas, as mulheres não ocupam o mesmo lugar dos homens na massa. São eles que costumam arrumar brigas entre si e precisam ser separados, são os rapazes com símbolos fascistas que passam de bicicletas lentamente para amedrontar, são os homens que puxam as palavras de ordem, que seguram bandeiras, que falam no megafone, sobem no carro de som. Quando a polícia chega e começa aquela correria, são os homens que atiram molotov, são os homens que escalam barreiras. Uma vez, encontrei uma amiga com um grupo de mulheres em uma lanchonete, ela havia se dispersado e me disse algo mais ou menos como “A gente saiu na parte fitness”. Ri, tem muito de verdade nessa colocação. É preciso uma boa dose de destreza física para desviar de bombas, correr, desviar, subir portões e muros. Também é preciso disposição para o confronto físico. Mulheres não são socializadas para brigar. Já ouvi julgamento de semi-barbados: “mulher bonita é a que luta”, “não igual as outras”, “não pelega”. É óbvio que mulheres anarquistas e socialistas também vão para o embate, contudo, é demasiadamente superficial supor que as que abrem mão do “momento fitness”, não ajam para além daquele dia. Como se, no tal recorte separassem os bons dos maus militantes, os que ficam depois do estouro dos que partem, os que metem o dedo no escudo do Choque e os que correm. Um rito que separa adultos de crianças, mulheres de homens, covardes de corajosos. Se supõe que quanto mais sangue nos olhos, mais engajado se é, quanto mais estridente for a microfonia mais amor à causa. Nesses termos mais vale o estilhaço e a cicatriz, auto-preservação aparentemente é um péssimo sentimento burguês, recorrente em mulheres e trabalhadores que naquele momento, decidiram não apanhar. Os homens estão na linha de frente porque foram socializados para o atrito, na mídia e no jornal do partido, a rostidade do punho é masculina.

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