Auto-suficiência estética: Quem pode se bancar?

300px-Narcissus-Caravaggio_1594-96 As minas tatuadas aceitas, geralmente, são magrinhas e branquinhas, as minas gordas aceitas são as mais curvilíneas e com bastante peito. As pessoas trans que ganham espaço na mídia tem uma passabilidade bastante alta e são atléticas, ou magras, mesmo as andróginas costumam ter olhos claros e outros aspectos aceitos em larga escala. As pessoas não-monogâmicas com mais gente reconhecendo sua beleza geralmente além de brancas, costumam ser acadêmicas, “artísticas”, entendem assuntos cabeçudos ou falam outros idiomas, tem dinheiro para sair e marcar motel ou saem com aqueles que possuem casa própria (quem é que tem esse culhão –não depender da monogamia como laço econômico- senão, privilegiados?).

Igualmente válida é a discussão que vi em alguns textos sendo compartilhados, a qual afirma que é um tiro no pé responsabilizar unicamente os indivíduos por sua auto-imagem. A gente se constrói na interação com o outro, é bastante cruel exigir que todo mundo se ame loucamente sendo que para uns, é bem mais recorrente achar alguém que respalde essa construção interna. A margem também tem padrões, uma lógica particular, quem sente insegurança, ciúmes, dúvidas, não é menos “elevado” no rolê. É uma pessoa influenciável como todo ser humano, é ao mesmo tempo, mais um sintoma de como o pequeno grupo-bolha opera, o coletivo finge que é uma ilha e não interage com o lado de fora. “Nós”, os desconstruídos fodões e os “outros” com as demandas externas. Sejam externas, internas, internalizadas, as demandas atingem os sujeitos, eles responderão, como todos respondemos. Naquele dia de merda a gente vai pensar se vale a pena remar contra a maré, porque os braços cansam pra caralho e nem sempre estaremos com aquela paciência toda.

Se as pessoas vão abraçar a feiura, a beleza, ou a indiferença quanto à própria aparência cabe a elas decidir. Só não me parece nada novo dizer para pessoas de corpos marginalizados se desligarem ainda mais de sua corporeidade enquanto massas amorfas, afinal, isso já acontece. O corpo que não se encaixa é retratado como abjeto ou indiferente, aquém do esforço individual, isso já está posto. Acredito em uma apropriação e reelaboração da auto-imagem mesmo extirpada por anos a fio e, por experiência própria, aqueles que se sentiram ameaçados fizeram uso da defesa-ataque ordinária: jogar na cara o quanto sou narcisista. Não é proveitoso tanto jogar as pessoas em espirais depreciativos, quanto colocá-las em pedestais inatingíveis (se essa pessoa é branca, cis, etc, etc e você enche a bola dela, você só corrobora com o já posto).

Eis um sofisma barato: Se uma mulher manifesta alguma segurança, as chances de falarem a ela coisas muito, muito duras de ouvir ou simplesmente, a largarem, são elevadas; porque ela supostamente vai dar conta, porque aparentemente, ela sempre vai aguentar a bronca. É uma leitura torta, mas paralela com “andou de saia curta, então agora aguenta o assédio”. Pontuo essas questões uma vez que encontramos textos e mais textos sobre como os padrões de beleza podem ser limitantes, o quanto “a beleza real” de comercial de cosméticos pretensamente inclusivos são ancoradas em moldes normativos, classistas, binaristas, generificados, mas, raramente, se escreve sobre os encargos de quem vivencia a construção da própria imagem nos cenários adversos.

Ao fim se é desestimulado por demandas externas (não se é simétrico e belo nos moldes convencionais), internas (o grupo-bolha pode te culpar por ser um marionete do sistema) e internalizadas (histórico de auto-ódio, memórias de humilhação, exposição e depreciação coletivas). Alguns conseguem se apropriar do termo vadia, sapatão, viado, mas ainda é muito raro tanto encontrar quanto encorajar mulheres e demais pessoas que se tornaram conscientes da própria beleza, sexualidade e carisma, sem se envergonharem disso. O embate não deve ser contra a beleza, mas contra a obrigatoriedade de se encaixar nos termos alheios que não te fazem sentido intimamente. É retirar a carga depreciativa de se amar e torná-la uma possibilidade, caso você deseje ter acesso a ela. Inclusive e tanto mais, se você fizer questão de não se embaraçar, é uma armadilha tolerar apenas a auto-estima humilde e virtuosa, arredia dos confetes como um vampiro da luz. Para tanto, é necessário se achegar aos que incentivem o seu bem-estar físico e psicológico, que massageiem seu ego. Compreendo que para muitas pessoas esse parece ser um discurso perigoso, uma vez que a tendência corrente é sufocar a empatia e só considerar a própria dor e sofrimento, o chamado “umbiguismo”. Porém, há uma distância entre construir a auto-imagem tratorando o que está ao redor (que é mais um escudo de uma super insegurança, do que qualquer coisa), em comparação à elaboração da imagem de si percebendo suas potências, mas também suas limitações humanas, seus dilemas. É exigir de quem te cerca mais respeito e que teu corpo lindo e seguro não se fez e não se fará sozinho, por mais firme que sua postura seja, por mais b.o você tenha a fama de segurar.

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2 comentários sobre “Auto-suficiência estética: Quem pode se bancar?

  1. Você sempre manda tão bem!… mas nesse em particular, falou diretamente comigo. Porque, sim, mesmo nas “margens” há um discurso opressor, de pessoas que muitas vezes oprimem justamente por se acharem tão “livres” e acima das ~obrigatoriedades~ das sociedades tradicionais (machistas, patriarcais, hetero e ou cisnormativas, e por aí vai).

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