Veganos: Precisamos falar sobre a bad

Melão + Brócolis = Melãocolia (o vegetal mais triste que existe)
Melão + Brócolis = Melãocolia (o vegetal mais triste existente)

Depois da consciência pesada a gente toma a atitude e vira vegano. Os anos passam, sistematicamente abrimos mão de todas as memórias afetivas relacionadas ao sabor das comidas. Brigadeiro de soja pode emular um brigadeiro, mas nunca, nunquinha, vai dar aquele pico de sabor da bolinha de leite condensado coberta de granulados. A comida vegana é saborosa, maravilhosa, rica em novas experimentações, mas ela não vai te dar aquele pico do industrializado tradicional (no passatempo for you), nem o conforto de um bom pão com ovo. Não sei que tipo de infância você, vegano que me lê, teve, mas a minha teve bolo com as crianças da rua cheio de glacê, misto quente, hotdog da escola, macarrão parafuso com salsicha da merenda, frango assado de domingo e rocambole de morango, essas coisas rememoram a boa relação que tive com meus familiares mais próximos, as memórias escolares felizes (foram poucas, mas existiram). A minha infância também teve joelho dobrado, crença absoluta no cristianismo, gordofobia, muitas coisas que me fizeram sentir deslocada (percebia que era muito difícil ser aceita, partilhar das mesmas coisas e assumia que provavelmente, era pelas minhas crenças e pela minha aparência física). Quando crescida, mantive a tendência a escolhas não muito populares, entre elas, ser vegana.

Não se come só para nutrir, come por desejo, por saudade do aconchego, para partilhar o mesmo momento com os amigos, por tpm. Um vegano pode levar o hummus para o churrasco onívoro, partilhar a batata frita enquanto os outros da mesa comem costela, a gente se integra na vida com os não veganos porque os amamos, porque partilha o mesmo mundo e muito provavelmente, já foi onívoro, contudo, esse exercício acompanhado após ser vegano, é no final das contas, solitário. A gente fica até emocionado quando um onívoro topa, naqueles instantes, comer o mesmo que a gente. Outra coisa que corrobora para o sentimento de deslocamento é a equação tempo e dinheiro. Certo. Comer arroz, feijão, abobrinha, legumes, frutas e etc, pode ser realmente algo em conta, mas ninguém aguenta isso por tanto tempo sem sentir saudade de comer algo quentinho e aconchegante, e não estou falando de batata recheada, mas de lasanha, de pizza, de coisas com queijo ou cremosas, se você é vegano, sabe que a nossa saciedade não vem só de legumes e frutas. A comida vegana disponível fora de casa costuma ser crocante e esfria mais rapidamente. Petiscos de bar? Frios (tremoço, azeitonas, amendoins, etc), comida no quilo (feijão costuma ter carne, até arroz pode ter manteiga, então a gente capricha na salada), café sem leite e sem achocolatado, pizzas com vegetais rolando porque não tem queijo.

Isso sem contar do mega questionário que tem que ter na ponta da língua pra comer qualquer coisa. Vai leite? Vai ovo? Vai manteiga? Vai creme de leite? Leite em pó? Tempero de carne? Dá para pedir sem maionese? É, acho que não vale a pena pagar doze reais nesse lanche tirando a carne, o queijo, o ovo, o bacon e comer pão com salada, pera, esse pão vai leite?…(repete o looping). Às vezes a gente só quer sentar e comer pagando um preço justo, sem ter que deslocar até sei lá onde para comer uma coxinha. Tá com vontade de comer um salgado e mora na periferia? Bora comprar farinha, soja, milho, curry, fazer, preparar, fritar, etc. Quer comer pão de queijo? Bora amassar mandioquinha…ou você poderia ir à esquina e comprar um saquinho de pão de queijo por R$3,50. Pronto, quentinho, feito, rápido, sem ter que mentir (“sabe como é, eu tenho alergia a lactose”), sem ter que aguentar provocações, medições, cara feia, piadas e mais perguntas.

Essa semana cuidei da minha mãe e perdi completamente a vontade de cozinhar, me alimentei mal, comi qualquer coisa, pulei refeições, fiz tudo errado, pensei em deixar de ser vegana. Então lembrei que todos os meus amigos que temporariamente deixaram de ser veganos ou vegetarianos, fizeram em momentos como esse, de crise. Porque tem horas que a gente quer se dar o luxo de encher a cara, comer uma grande bobagem cheia de sódio, com um pico de açúcar elevado, mas se você não bebe, não fuma e é vegano, suas opções ficam bem reduzidas. Essa semana fiquei com muita vontade de comer um misto quente, só que imediatamente fiz as contas, por cima, a carne fatiada da Tofurky é uns R$32,00, o queijo da Superbom é R$23,00, fora o pão e a Becel, ou seja, para eu comer um simulacro de misto-quente eu não vou pagar menos que R$50,00[1]. Recorte de classe dando vários applause na minha fuça, junto com a gourmetização do green money[2].

Os que pensam em voltar a ser veganos sentem vergonha por terem sucumbido, é bad em cima de bad: 1) A bad em consumir sofrimento animal direto te faz ser vegan 2) Alguma bad te leva a voltar os velhos hábitos, porque está cansado de ser excluído dos modos comuns da vida cotidiana, tipo, um pão na chapa com pingado, pedir um parmegiana por menos de vinte e pagar um valor acessível na sua maquiagem 3) A bad por tentar voltar e não conseguir.

Não há como falar sobre veganismo sem falar sobre dor e sofrimento. O ponto de partida é o medo, a dor e o sofrimento dos animais que não são da mesma espécie que a nossa. No entanto, depois, pode virar o sentimento de se sentir sozinho e vencido pela oferta com preços tentadores, a vontade de um consumo sem tantas perguntas, sem tantos dilemas, sem ler tantos rótulos, sem comer comida fria ou jantar feijão com pão (quem nunca?), milho em lata. E muitas vezes, você é a única pessoa da sua família que é vegano ou vegetariano.

Precisamos falar dessa bad e dessa solidão, a gente precisa ser honesto sobre a tremenda reeducação alimentar forçada que fizemos em nome de uma causa que achamos justa, mas que pode ser quebrada em dias difíceis. De como é cruel exigir que todo mundo abra mão de seus escapismos pessoais e aja sempre em nome da causa, mesmo que isso signifique um sentimento forte de inadequação e incompreensão, a não partilha da vida comum, inclusive nos momentos de crise. Como é sem noção exigir que gerações de famílias que finalmente sentem que podem colocar “mistura” na mesa, abram mão de suas comidas prediletas, da conexão que tem com sua história e alimento, em nome da sublimação dos desejos acessíveis cheios de amido e açúcar. Cada um tem os seus tempos, para parar, para pensar, para continuar ou retornar. Estou cansada de ver vegetarianos ou veganos se sentindo como pecadores porque caíram “em tentação”. Ninguém precisa ser mártir. Ninguém precisa aderir eternamente uma causa se ela não está mais te fazendo sentido, mesmo que seja pelo “capricho” de comer por prazer. É do direito de cada um voltar ao vegetarianismo se assim achar justo, ou não se dizer mais anarquista, feminista, comunista, etc, etc, etc.

É necessário dar um respiro e reconhecer as próprias limitações, abrir mão em nome do próprio bem estar psíquico, porque ficar se chicoteando mentalmente porque comeu um derivado de animal não faz de você um ativista de araque, mas uma pessoa que por suas razões, mudou de ideia. Veganismo não é sobre boicote, é sobre se repensar e dentro do possível, agir, abrir mão, você não deixa de limpar a bunda fora e dentro de casa porque a ANVISA só libera papel higiênico testado, certo? Às vezes, por questões financeiras, só vai dar para comprar ou usar o shampoo e sabonete não vegano (como eles derretem rápido!), às vezes, num dia difícil, a gente só vai querer comer em paz, sem ler, sem perguntar, sem falar, só para matar a vontade. Não há consumo 100% ético se considerarmos a libertação animal indissociável da libertação humana, isso é, comer tem a ver com espécie, mas também, gênero, raça e classe social preenchendo hierarquias de poder (quem cria, quem abate, quem vende, quem compra, quais partes, quem cozinha, para quem). Comer ou não presunto não explode o sistema especista. Nossos desejos e gostos são construídos, precisamos falar sobre eles, porém, sem precisar construir um império vazio de virtuosos sobre as urgências do corpo. Sejam o sexo, a língua, a vaidade, dos cosméticos, dos garfos, das facas e pratos, das palavras.

[1] Tofurky vem em algumas fatias e o queijo é de meio quilo, mas não tem a possibilidade de se chegar em qualquer padaria e pedir poucas gramas dessas coisas, mesmo se existisse, o preço seria absurdo comparado com a proteína animal convencional.

[2] Pink Money é o dinheiro cor-de-rosa, o mercado voltado para gays endinheirados. O Green Money é o dinheiro verde, feito para o consumo sustentável ou alimentos naturais, abocanhado no Brasil pelos industrializados da soja, por exemplo, que em sua maioria, não são produzidos para vegetarianos ou veganos, mas para mulheres em dieta.

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4 comentários sobre “Veganos: Precisamos falar sobre a bad

  1. Saber que seu ímpeto de escrever sobre o assunto surgiu no meio de uma conversa nossa, faz eu me sentir, em partes, mãe desse texto. Hahahaha

    Obrigada pela ausência de julgamento e excesso de compreensão, era tudo o que eu mais precisava de uma das minhas melhores amigas ❤

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  2. Muito legal ler esse texto. Acabei de começar no vegetarianismo, mas por razões que não tem a ver com ética. Não importa! Eu me identifiquei muito com o que você escreveu porque mal comecei e já estou sentindo o que você relata. O convite dos amigos para a churrascaria que eu recusei com medo de cair em tentação, o peixe cheiroso e bem feito que a minha esposa preparou e eu não comi, o frango assado que não vou comer com minha família aos domingos… Isso está me angustiando bastante. Ler o seu texto me ajudou a entender melhor a minha reação a essa mudança. Obrigada!

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