Como aprendi que sou bicho

Open cage

Às vezes minha mãe pergunta de que lugar eu e minha irmã arranjamos a ideia de nos tornarmos vegetarianas. Costumo responder que pelos documentários de vida selvagem que gostávamos de assistir na TV Cultura, no Globo Repórter. Só que isso é muito pouco, preciso contar dos gatos, cachorros, coelhos, porquinhos da índia e todos os bichos que tivemos em casa em diferentes épocas. Pensei mais um tanto e provavelmente foi uma somatória de experiências familiares e o discurso que vi circular. A minha mãe costuma dizer que ao me esperar em sua barriga não podia passar em frente aos açougues, nem sentir cheiro de cerveja (a exceção era frango assado), ela sentia nojo, passava mal.

Tinha mais ou menos cinco anos no dia em que meu pai chegou do trabalho com uma surpresa na blusa quentinha (a jaqueta parecia uma ovelha do lado de dentro, felpuda por fora), o presente era uma vira-lata, filhote. Fiquei encantada, minha mãe cuidou dela com remédios para ela ficar forte e ficou. Engravidou, eu ganharia uma irmãnzinha. Arrumamos a mudança, precisávamos de uma casa maior, no caminhão fui com a Princesa (a cadela), o mais legal é que essa casa tinha quintal e brincávamos bastante. A Esther nasceu em 92, o discurso ecológico ficou bastante na moda. Criei expectativas em relação ao neném, imaginei que poderia fazer de boneca, colocar para andar, etc e foi decepcionante, bebês são molinhos, fiquei brava por uns dias. Assim que chegávamos dos cultos noturnos na igreja, era comum meu pai entrar primeiro na casa e de modo recorrente achava bichos dentro, a minha mãe me pegava pela mão e dizia para eu ficar ali, a minha irmã bebê, no colo dela. Então, meu pai soltava os bichos no mato, que me recorde: muitos sapos, aranhas, um morcego, uma cobra-cega. A última, fiz questão de ver porque a curiosidade foi muita, um bicho esguio e branco, para minha frustração ele não usava uma venda nos olhos. Na esquina vacas e cavalos (até hoje), na rua de baixo, galinhas, às vezes aparecia na rua um carneiro, um bode, uma ovelha. Os vizinhos recentes, criam perus.

Na casa de uma amiga da família tinha um canteiro de flores com muitos tatu-bolinha, eu gostava de mexer na terra e deixar caminharem com suas patinhas cosquentas e fininhas. Ficar sozinha brincando com insetinhos, observando, deixando caminharem nos braços. Um dia vi um grilo e fiquei com medo, meu pai deu risada e foi pegar o insetão, me tranquilizou, ele não era perigoso. Na minha mão, as patinhas eram um pouco espinhentas, não davam cosquinhas. Meu pai na meninice era moleque daqueles que correm só de shorts, torrado de sol e trepando em árvores, roubando frutas nos vizinhos, pulando em folhas de “talirôu” (segundo ele, as crianças chamavam assim folhas grandes e impermeáveis nas quais se jogavam gritando “talirôôôu”). Ele nos ensinou quais bichos se afastar (lagartas coloridas), quais não ter medo, por exemplo, sapos, aranhas pequenininhas de parede, mariposas gigantescas (tem umas que a asa até faz barulho pesado). Aprendi em dois princípios básicos: 1) Eles só atacam se sentirem ameaçados, em dúvida, não chegue perto 2) Eles têm mais medo de você, do que você, deles.

Minha avó tinha umas histórias de sapos que mijavam no olho e cegavam as pessoas, segundo ela, as borboletas cegavam com um pó. Meu pai, de um ceticismo bonachão, dava risada, eu e minha irmã ficávamos aliviadas, afinal, meu pai manjava dos matos, dos bichos. Ele fazia piada falando de um sapo com mira calculando distâncias para acertar nos olhos dos humanos gigantes. Meu avô tinha mais de vinte passarinhos engaiolados espalhados pelas paredes, também criava codornas num viveiro. A minha avó e ele seguravam as codornas para eu fazer carinho, alguns passarinhos também, eu ficava muito abismada como a minha avó era tranquila para comer não só os ovinhos delas, mas também as próprias codornas (essas eu não tinha coragem de comer).

Um dia pedi um passarinho para meu pai, mas para ser meu e não misturado com os do meu avô, escolhi uma fêmea. Troquei durante um período a água, o girassol, o jiló. Esperei o dia certo e deixei a gaiola aberta me fazendo de desavisada, a passarinha fugiu. Menti para os meus pais dizendo que devia ter deixado “meio aberta sem querer”, “mas você não virou a portinha para o lado da parede? Você é muito distraída!”. Para o bem e para o mal (me elogiando ou culpabilizando pelo exibicionismo), na vida adulta, já me chamaram de “pavãozinho”, deram a entender que sou uma espécie de pássaro raro bonito de ver, difícil de manter, que querem capturar pelo canto, pelas penas. A ave azul é o símbolo da minha vadiagem, da beleza, da sexualidade, daquela que que se enclausurada perde o viço, do não remorso (e será o tema da minha próxima tatuagem).

Não foi só a televisão que me fez pensar sobre os animais, como estou interligada com as espécies, como também sou bicho. Não importa se é formiga ou girafa, não sou melhor que alguém porque parece, anda, se mexe, tem outra comunicação, linguagem, valores, costumes, história que não a minha, dos meus parentes. Foi o contato direito com vários tipos de animais. Do cachorro do parente que eu montava em cima quando pequenininha, dos porcos que eu ouvia gritar quando minha mãe me carregava no colo na estradinha do Jd. Lucélia, dos insetinhos nos quintais, dos ensinamentos do meu pai, dos cuidados que minha mãe dispensava aos animais adoecidos, dos pássaros engaiolados pelo meu abusador, do que eu e minha irmã podíamos fazer a respeito. A gente entrava na frente dos adultos para que eles não batessem nos cachorros, nós fazíamos vários pactos, um deles, nos tornarmos vegetarianas. Se não existiam vegetarianos por perto isso é só um detalhe, estendemos a teoria por exercício reflexivo, desses que os adultos juram que as crianças são incapazes de formular.  Tem a ver com meus gatilhos, meus valores mais profundos, a autonomia dos corpos, minha história. Tem a ver com sentir o sol, brincar, sentir a lama, o gelado e o quente, me alimentar, a fisiologia, a libido, as pulsões, é não me reconhecer no ápice da evolução ou criação divina. Eu sou de coração e tutano, garras e dentes, por fora os pelos, vazando de dentro, fluído.

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