Desengajamento moral: As muitas formas de não assumir que fez merda

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Caso 1: Uma criança está em lugar público gritando, se agitando, o adulto com pouca paciência afirma: – Se você não parar, eu vou falar para o segurança da loja (ou qualquer figura de autoridade). Caso 2: Um casal de namorados briga, ela aponta onde ele errou. Ele diz que ela é ingrata porque ele já fez um monte de coisas bacanas e já acolheu ela inúmeras vezes desde que estão juntos. Ou ainda, a acusa de não reconhecer todas as coisas incríveis que ele já melhorou desde que começaram. Caso 3: Um político conhecido por sua corrupção deslavada disse a já icônica frase “Estupra, mas não mata”. Caso 4: Um professor em aula, um policial em uma manifestação cometem atos de violência ou fazem vista grossa para os que ocorrem embaixo do nariz, justificam as ações por não ocuparem o topo da hierarquia, mesmo que não concordem muito ou achem aquilo correto. Caso 5: Uma criança xinga e humilha a outra. Quando confrontada por um adulto se defende: – Mas eu não bati, eu só xinguei!

Esses casos tem muita diferença entre si: a autoridade parental e adultocêntrica, as relações de poder na esfera afetiva e privada, uma figura pública e uma afirmação misógina, uma pessoa legitimada pelo estado (um professor, um policial) a exercer poder, uma criança com algum privilégio marcando a não normatividade de outra. Mas qual o ponto comum? O desengajamento moral: São pessoas eximindo sua responsabilidade frente aos atos, por terceirizar, por serem pessoas multifacetadas, humanas, que erram e também aprendem. Note que eu não estou falando no registro da culpa. Culpa é pegar o chicotinho e dizer “Sou horrível, eu estou no lugar do opressor, eu sou péssimo”. E por que essas pessoas devem ser responsabilizadas? Porque elas ocupam lugares de poder mais altos e devem refletir sobre como exercem esses postos, como falam e como pulam fora quando é conveniente, porque em algum nível elas se beneficiam de seus privilégios e agem sobre eles. Ninguém tem corpo fechado para o status quo. Isso significa que tanto caem bigornas em nossas cabeças, como em diferentes ocasiões, mesmo que sem querer ou sem existir uma maquinação sádica premeditada, a gente atira e machuca os outros. Isso não é ignorar seus próprios hematomas, mas admitir que em determinadas ocasiões, também se é o causador das pancadas, dos traumas. Mesmo que a dor seja gigante, não precisa apontar a flecha para o próprio peito (culpabilização), tampouco, necessita só se concentrar nas feridas pessoais para se eximir de que mesmo em dor, se pode machucar quem não tem os mesmos privilégios, que mesmo doendo, se pode meter o dedo na ferida alheia.

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