Toda feminista sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos

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Feminista virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. O coração do seu companheiro está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo. Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida. Busca lã e linho, e trabalha de boa vontade com suas mãos. Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão. Levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das empregadas. Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos. Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços, seja no pilates ou no crossfit. Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite. Estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca. Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado. Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata e tem aquecedor. Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura. Seu companheiro é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra, os compas do partido, as rodinhas punk. Faz panos de linho fino e vende-os levantando fundos para o coletivo, e entrega cintos aos mercadores. A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro. Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua. Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça. Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu companheiro também, e ele a louva. Muitas feministas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente! Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a feminista que respeita a Monogamia, essa sim será louvada.[1]

Pelo título e citação introdutória, algumas pessoas devem estar bastante confusas ou mesmo indignadas, como assim, posso defender que o padrão de mulher valorosa recheada de preceitos conservadores, bíblicos, pode ser equiparado com ideais feministas e laicos? Construirei meu argumento expondo uma tendência de pensamento que encontrei em discursos de feministas que pregam a tão falada sororidade. Esses pensamentos foram expressos em situações de putafobia e exposição de mulheres adúlteras (enchendo a boca para chamar outra mulher de vagabunda com tom pejorativo, entre outras ações que prefiro não listar aqui por vergonha alheia). On-line, é possível encontrar alguns conteúdos que defendem que sair com homem casado é deixar outra mulher sofrendo, portanto, falta de sororidade. Desse modo, o argumento da sororidade pode ser usado para expor, intimidar, e humilhar mulheres que não respeitaram a monogamia e os casais perfeitos e em plena harmonia. A sororidade ataca “as destruidoras de lares”. A incrível Sueli Feliziani compartilhou um vídeo Gospel com uma letra bastante interessante que dá o que pensar:

[Refrão]
Não mexe, não mexe, não mexe com meu varão (3x)
Porque pra mim ele é benção
E pra você é maldição

[Letra]

Clone de Jezabel
Ouça bem o que eu lhe digo
Esse vaso adornado aqui
É o meu marido
Ele é homem de Deus
E pode tirar o olho
Ele já tem compromisso
E a mulher dele vale ouro

[Refrão]

Não pode ver um terno
E nem mesmo a gravata
Fica toda arrepiada
Se mostrando ouriçada
Olha, cuidado com a espada
Que agora vai cortar
Ele é o meu esposo
E quem me deu foi Jeová

A música, para quem quiser ver completa está aqui

Adaptada ao visual de homens de esquerda ou anarquista, poderia ser “Não pode ver uma barba e nem mesmo o chinelo de dedo” ou “Não pode ver o moletom preto e a mão com molotov”, ou seja, o que eu aponto com muitas críticas, é como se torna possível parear e culpabilizar mulheres que não são virtuosas, as que não acreditam na Monogamia, as diretrizes da culpa cristã. Não me refiro a moça iludida que se envolve com o homem casado esperando ele no motel, em surdina, enquanto a “oficial” é vista em público e fica com as datas especiais como feriados. Estou falando da mulher que por suas próprias razões, deliberadamente, decide fazer sexo com homens comprometidos.

A pergunta que pode ocorrer agora é, “Você defende então que as pessoas enganem seus parceiros, traiam, que isso é okey?”. Não, pessoalmente, não acho okey você fazer um contrato verbal com alguém prometendo monogamia e deliberadamente romper esse contrato e nem comunicar nada. As relações extra-conjugais ocorrem há muitos séculos e entre as razões atuais e recorrentes, muita gente separa amor de sexo e se morde de ciúmes imaginando o parceiro fazendo o mesmo, quem pula a cerca, geralmente não perdoaria a revanche. Imaginemos que A casou com B e traiu com C. O contrato é entre A e B, C não tem nada a ver com esse acordo. Ninguém “se corrompe” sozinho, é a mesma coisa supor que simplesmente “andar em más companhias” faz querer consumir drogas. Há muitas, muitas razões para alguém consumir drogas e assim como o adultério, são práticas que fazem parte da humanidade, diferentes tabus interpretados como exercício de gente “fraca da carne”.

Quem sucumbe a uma urgência corporal, ainda mais se sexual e não normativa, é visto como alguém de caráter duvidoso para todo o resto, nesse caso, a traição é vista como um pecado tão grande, que quem o faz só pode ser um calhorda de marca maior. Se alguém disser que o traidor, por exemplo, desviou dinheiro de uma empresa, provavelmente alguns acreditarão porque se não tem escrúpulos para uma coisa, não tem pra outra. Não cabe nessa minha argumentação pontuar se há ou não adultério legítimo, bom ou mal, se quem faz tem trauma de infância, sádico ou sei lá quais outros apontamentos antecedem e motivam os tão fadados chifres. O que precisa ser repensado é a transferência de culpa para a mulher não virtuosa.

Um terceiro e representativo exemplo pode ser elencado além do universo cristão e o Pecado Original (a culpa é da Lilith, da Eva), recorro às novelas. Adoro esse tipo de entretenimento, infelizmente, nunca assisti nenhuma na qual não houvesse a mulher que apanha sendo xingada de vagabunda (saudades Laura Cachorrona). Em A Usurpadora, me espantava todas as vezes que o discurso de Stephanie, mulher religiosa, casada com Willy (um cafajeste que não gosta de trabalhar e adora trair a mulher), era muitíssimo parecido com o que eu já presenciei em discursos de feministas. Na trama, Paulina Martins (usurpadora da identidade da irmã má, devido a coação) é a própria abnegação, salva a Vovó Piedade do vício em álcool, acalma o gênio do Carlinhos, resolve os problemas da Cerâmica Bracho, dá vontade de viver para o ricaço desiludido Douglas Maldonado, e embora se apaixone e tenha um tesão absurdo em Carlos Daniel Bracho, não faz sexo com ele por ser casado no papel com Paola Bracho (a irmã gêmea má, que a forçou a essa dinâmica). Enquanto isso, Paola está curtindo a vida com amantes ao redor do mundo soltando gargalhadas nos lábios pintados de vermelho.

Tanto a raivosa Sthephanie, quanto a quase santa Paulina, são modelos esperados da “feminista direita, certa, honrada”, as que respeitam e defendem com abnegação ou furor, as estruturas monogâmicas a todo custo. O slogan reacionário “direitos humanos para humanos direitos”, pode deturpar até chegar em “feminista humana, é feminista direita”. Ao invés de discutir as estruturas monogâmicas e o quanto são de fachada pra tanta gente, questionar o quanto a pulada de cerca se torna mais legítima socialmente se são homens cis e heterossexuais que o fazem, evidenciar o quanto essa tal de sororidade é seletiva porque no final, querem mais é que quem não ande na risca, se lasque; certos setores do feminismo responderiam o adultério, e sobretudo, a mulher que se envolve com homens comprometidos, com o mesmo vocabulário de uma recém-convertida ao cristianismo mais ortodoxo.

[1] No título, troquei a palavra “mulher” presente em Provérbios 14:1, para feminista. Na citação realizei inclusão de palavras, do texto contido em Provérbios 31:10-30

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Um comentário sobre “Toda feminista sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos

  1. Eu pensava assim: que mulher que dá biscoitinho pra homem comprometido e infiel não tem sororidade. Mas depois do texto, talvez eu comece a pensar que essa é uma forma de domar as mulheres ao invés de mostrar aos homens que podem sim resistir a investida de outras mulheres e ainda assim continuarem homens cis héteros. Enfim, estou aprendendo.

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