A Garota Dinamarquesa (ou ainda, como personas aparentemente sexuais mudaram quem sou)

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Num dia a mais de um ano bissexto (também conhecido como ontem), o Espaço Itaú de Cinemas resolveu deixar todas as sessões de graça. Com o privilégio das férias da faculdade fui até um dos cinemas (o que me falta em dinheiro, sobra em horários flexíveis). Em quase uma hora de espera, consegui o ingresso para o filme, sabia praticamente nada, além de gostar do cartaz e ouvir boas recomendações. Começou a sessão um tanto barulhenta. Sentei perto de um grupo de típicos comentaristas de cinema, diziam: “Ela é lésbica? Ele é gay? Não estou entendendo”. Simpatizei de início com o casal e na medida em que o drama ganhava força, meus canais lacrimais começaram a trabalhar (tentei conter as fungadas de nariz), em alguns momentos me ofendi com a reação da audiência. O assunto me é muito sério, tocante, para determinadas pessoas aquilo parecia apenas “bizarro”, “esquisito” (foram adjetivos dos mais leves que ouvi em coro).

Daí aquela sensação peculiar de que nem todo mundo acessa a urgência de experimentar outras coisas em seu corpo, em sua identidade, em sua sexualidade. Para tornar meu lugar de fala mais evidente e já me colocando em exposição (quem escreve se revela, não tem jeito), sou mulher cis, com particularidades sexuais, não normativas. Muitos dos movimentos realizados pela personagem central na trama, busquei, na tentativa de compreender melhor, alguma referência, um relato de que não estava sozinha. Ao definir por conta própria um de meus muitos nomes e termos, certo dia, alguém me chamou com todas as letras e assim, me senti amada por completo. Desde então, assim o é para cada pessoa que começo a me envolver, já não consigo me apresentar como “um inteiro” se a pessoa não conseguir ver do que sou formada, “em quantos pedaços” sou composta.

Muitas dessas personas ou identidades, como queiram nomear, surgiram em contextos sexuais, espontaneamente. Foi um processo mais ou menos similar com a escrita na minha identidade, ensaio de coisas maiores, semente germinando em processo de crescimento, indício. Não é um movimento (ao menos na minha experiência), de dissociação, sou consciente de cada persona e elas são performances das muitas coisas que posso ser. São originárias e influem na identidade nuclear “dura” com a história total e completa, aquela que está no RG, é A e também é B, C, D, E… Cada pessoa “interpreta” diferentes papéis sociais, mãe, esposa, mulher, filha, irmã, estudante, profissional, eu gosto de interpretar mais um tanto, vou eu mesma criando ao sabor dos acontecimentos e dando mais densidade a cada uma delas, na medida em que se desenvolvem. Tem quem dê nomes e códigos médicos para minhas demandas, no meu entendimento, isso é excesso de normatividade e busca demasiada por patologias.

Os parâmetros que me invalidam são os mesmos que desqualificam putas, travestis, crianças, mulheres, viados, pessoas não binárias, transexuais, lésbicas, vadias, pessoas que gostam de pessoas, que querem fazer muito ou nenhum sexo. Se espera extrema coerência e uma única seta que aponta para uma só direção. É eliminação da diferença, a pasteurização da norma, a uniformidade e conformidade, os temperos no processador. Por isso chorei no filme, tantas vezes, até minha cara começar a ficar grudando por onde passaram as lágrimas, é a dor de quem já foi moído, resistente o bastante para manter os talos.

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2 comentários sobre “A Garota Dinamarquesa (ou ainda, como personas aparentemente sexuais mudaram quem sou)

  1. Eu também chorei, e acho que pelos mesmos motivos – por me identificar com a Lili, não por ser trans mas por ser fora de padrão. Por viver a cada dia nessa corda bamba entre a autoafirmação de que eu posso ser quem sou com orgulho disso e ao mesmo tempo a pressão social por não me encaixar no que se espera de mim.
    😦
    Sobre a plateia: você viu esse texto sobre pessoas que riem no filme? https://medium.com/@besteira/não-tem-a-menor-graça-806c9f525501

    Curtido por 1 pessoa

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