Ventura

Ventura_Los_Hermanos

Ventura dos Los Hermanos é de 2003, eu tinha 17 anos e havia largado a escola há dois. Acreditava em Deus, mas já começava a ter umas dúvidas. Embora simpatizasse com o samba, o pagode, o brega, o rap (desses, o que mais me tocava e representava) circulando no bairro, eles falavam em menor medida sobre as minhas aspirações que pareciam sonhos distantíssimos, nem sabia se era possível ser tão ambiciosa assim. De querer viver aventuras intensas e conhecer um monte de gente, ser percebida no bom sentido, ser querida, amada, retribuída. Aí eu descobri o que as pessoas chamavam de indie, o que encaixava como uma luva, e Los Hermanos (ou Looser Manos, como diziam pra ofender), foi a porta de entrada para eu conhecer as bandas que praticamente ninguém do bairro ou da igreja conhecia. Na realidade, eu não era muito de me abrir em conversas porque era insegura até com a sombra, pouco entrosada nos ambientes (e tinha fortes razões para ser assim). As letras cheias de amores não correspondidos, de colocar quem se ama em um pedestal (tinha até um site que falava disso, com base na música Creep do Radiohead, a tal Teoria Pedestáltica), se sentir em permanente desencaixe com os lugares e pessoas. Costumava ouvir o Ventura arrumando a casa e especialmente, lavando a louça, sem pressa, de um modo quase ritualístico, pedindo a Deus para me levar embora dali, com um fio de esperança solto, me agarrando no vazio numa perspectiva melhor, um tipo de futuro, fosse qual fosse, mas sem me sentir tão estagnada. Dia úmido e cinza, como nos tempos da Zona Sul, coloquei o Ventura para rodar no Spotify. Cozinho para minha mãe, sorridente, ela espera a comida sair enquanto lê no quarto.

– Los Hermanos? Você adorava quando era adolescente, acho que chegou até a pedir CD.
– Sim, esse aí, eu tinha em CD

Cantarolo as letras tristes, recheadas de orgulho Ora, se não sou eu, quem mais vai decidi, o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Ah, se o que eu sou, é também o que eu escolhi ser, aceito a condição. Tenho 29, os amores chamam no Telegram, a tatuagem da coxa ainda descasca, esse ano me formo na federal e sou capaz de olhar com ternura para o inimaginável que virá sabe-se lá em quais formatos. Quero e gosto de estar viva. A comida está pronta, minha mãe falou que está uma delícia.

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