Detesto o termo bullying

127
Ele mistura num saco só vários tipos de violência praticados contra os indivíduos (principalmente se/entre crianças) e não nomeia apropriadamente os tipos específicos de agressão. Valendo para qualquer faixa etária, grau de ligação (colegas, amigos, vizinhos, cônjuges, familiares, namorados…):

[TW: Descrição de situações e expressões gordofóbicas, capacitistas, homofóbicas, lesbofóbicas, racistas]

  • Xingar de viadinho e bater num indivíduo não é bullying. É homofobia.
  • Xingar de sapatão e bater numa pessoa não é bullying. É lesbofobia, misoginia.
  • Xingar de macumbeiro não é bullying. É intolerância religiosa (e em geral, de cunho profundamente racista)
  • Xingar de balofa e saco de banha não é bullying. É gordofobia.
  • Xingar e machucar alguém porque não tem cabelo liso não é bullying. É racismo.
  • Xingar, difamar e maltratar mulheres e meninas que não correspondem expectativas sexuais e afetivas não é bullying. É misoginia.
  • Colocar altas expectativas sobre alunos com descendência ou traços orientais, estranhando se eles “não vão bem” na escola, não é bullying. É preconceito racial, estereotipia do ocidente sobre o oriente.
  • Xingar, machucar, humilhar, excluir, pessoas neuroatípicas não é bullying. É capacitismo.
  • Xingar, machucar, humilhar, excluir, pessoas com mobilidade reduzida ou outras formas de interação motora (cadeirantes, por exemplo), não é bullying. É capacitismo.
  • Rasgar e destruir materiais didáticos ou objetos de um colega de sala não é bullying. É violência patrimonial.

Bullying é um termo generalizante que leva a discursos rasos como “não faz isso que é bullying”, “Não ao bullying”, “não pratique bullying com o colega”. “Vamos dar as mãos, somos todos iguais, vamos nos amar”. Não, não somos todos iguais.

É preciso respeitar o direito a diferença. O direito ao diferente. Não agredir os corpos que não se encaixam aos padrões, seja na sua forma, gestual, expressão. Não é preciso dar as mãos. Não é preciso forçar abraço na frente do adulto se dali cinco minutos as humilhações e agressões continuam. É preciso um debate sério, denso, contínuo, sobre como as violências se manifestam, inclusive sobre a não neutralidade e como qualquer um reproduz as estruturas de poder. Vamos ter mais auto-crítica e ser realistas, vamos parar de romantizar a tolerância e a “inclusão”. Não é “trazer o que tá fora pra colocar dentro”. Já está dentro (porque interage) e já está fora (porque não se adapta). Vai ter disputa e tensão sim, mas não precisa ser arrebentando a corda no lugar de sempre, gerando todo tipo de cicatriz (nem sempre aparente).

Anúncios

Um comentário sobre “Detesto o termo bullying

  1. Oi Débora, em se tratando de preconceito contra asiáticos, pode colocar no seu post que é asianismo. Muita gente não conhece o termo e nem sequer imaginou que uma pessoa oriental possa sofrer preconceito. Tem o caso de yellowface da novela das 6h da globo pra ilustrar. http://www.hypeness.com.br/2016/08/globo-causa-polemica-com-yellow-face-na-nova-novela-das-seis/ Valeu e parabéns pelo trabalho educativo!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s