É porquê sou gorda?

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Queria acordar um dia e não ter que pensar sobre as proporções e o tamanho do meu corpo. Que isso não fosse fator determinante das minhas relações afetivas, para elas sequer começarem. Queria muito. Não há um problema intrínseco em ser gorda. Em memória e sentido, não recordo algo diferente disso, poucas vezes recebi tratamento afetivo em que isso não estivesse posto. Dos que conheço online e vêem fotos de rosto, ao terem acesso a uma imagem de corpo emendam mas você não é gorda, é gordinha/fofinha/grande/gostosa. Ao vestir roupas de meus companheiros ou namorados (e já namorei homens muito maiores que eu), as roupas caiam bastante bem e muitos deles não tinha metade da dificuldade em comprar roupas como tenho, alguns comentaram se você fosse um homem com seu tamanho, não seria considerado gordo. Talvez. Mas eis que não sou. Sou uma mulher. Chimamanda já diz Ensinamos as meninas a se encolher, a se diminuir, ao lhes dizer: “Você pode ter ambição, mas não muita. Deve almejar o sucesso, mas não muito. Senão você ameaça o homem”. E esse engrandecimento de si parece ainda mais abafado para mulheres gordas, já que ser gorda é ser engrandecida, é ocupar um espaço que não esperavam de antemão, que está acima, que excede parâmetros médios.

Ainda sobre encontros on-line, tenho por preferência avisar logo nas primeiras mensagens que sou gorda. Uma vez que muitos homens (e algumas mulheres) se sentem “traídos”, ao descobrir que aquela pessoa muito interessante que eles conheceram é gorda. Golpe do avatar, é como chamam. Por pressuposto em aplicativos de pegação, se está ali para ter contato com outros corpos de mútuo interesse, se atrair por gordas, aparentemente, abarca um nicho específico, um fetiche, se você não avisa de antemão que é freak, se acham no direito de te ofender. Numa madrugada, anos atrás, resolvi brincar naquele tal de Chatroulette pra ver como era, as coisas mais leves que li e ouvi eram cunt e fat. Fechei na hora. Não tenho controle sobre a cabeça de um estranho pra fora do carro xingando, mas janelas de internet, sim. Com todas as letras, já expressaram que isso é o que me separa de ser popular e desejada seu rosto é lindo, se você emagrecesse um pouquinho, nossa, ia chover. A colega de faculdade no bandejão que apontou para amiga ligeiramente mais magra que eu, até gosto de gordinhas, mas mais como ela. O instrutor de academia antes mesmo de começar as abdominais você é a menina mais preguiçosa da academia. Das pragas jogadas por médicos ao pedir exame de sangue de rotina, antes mesmo de ter os resultados em mãos tem que perder no mínimo quinze quilos, você sabe, né?.

Ontem, com várias blusas de frio, tive que fazer um pequeno esforço para girar a catraca, estava maior que de costume. Girei. Uma moça do outro lado me mediu de cima à baixo. Pensei na hora é porquê sou gorda? Nos episódios de Turanga Leela, do Futurama, recorrentemente lembra o Orphanorum ou o fato de ter um olho, como se conecta facilmente com animais e crianças que eram como ela foi. Com alguma marcação física da diferença, como na vez em que realizou uma cirurgia para parecer “normal”. Imaginei ela ouvindo de algum personagem Um olho? hum, nunca fiquei com ninguém com um olho só; seu olho nem é tão esquisito assim, de certo ângulo, até parecem dois. Mas você não é mutante, mutante, né, daquelas bem bizarronas, você até parece um pouquinho normal.

Foucault (2010) diz Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado. Habitar meu corpo é experiência macia e prazerosa, o pesar é que antes de tocar e sentir ele, há quem rejeite o contato por ser considerado abjeto, mesmo que secretamente bonito para meia dúzia, há os que dão passos mais adiante e partem para agressão verbal/moral. Não se trata de querer ser amada por todo e qualquer um, o incômodo está no fato de ser uma questão a priori, o ponto de partida e até mesmo em alguns casos, de rompimento. Antes de ser qualquer coisa, eu sou gorda e isso barra o acesso ou a vida social e determinadas experiências, isso me separa de um tratamento mais respeitoso. A diferença está posta, pois ninguém lê em meus contornos um corpo pequeno, frágil, esguio. Tentam subtrair essa diferença como elogio, é gorda mas não tão gorda, não é linda mas é bonita, falta pouco, ainda não é. Ser gorda é um vir a ser meritocrático. Você ainda não é suficientemente atraente ou para a via pública, mas pode vir a ser, se apagar essa diferença, se fingir que não é, se comprimir suas formas em cintas modeladoras e lutar contra o corpo desejante.

Não quero deixar de ser gorda. Só que em alguns dias, como ontem, chorei de raiva e mágoa. Esse marcador é o que faz tanta gente se achar no direito de ficar ofendida com o modo que essa matéria na qual habito, ocupa os espaços e lugares.

Referências
FOUCAULT, Michael.El cuerpo utópico. Las heterotopías. Buenos Aires, Ed. Nueva Visión, 2010.

 

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