A segurança do castelo, o perigo na torre – Sinais de um relacionamento abusivo

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A Sueli Feliziani disponibilizou uma lista de links (gringos) que discutem e nomeiam uma série de comportamentos abusivos dentro de um relacionamento. Passado um dia da minha leitura, ainda preciso ponderar e pensar a respeito das coisas que li. Quero ter tempo pra maturar a ideia, no entanto, nada impede que eu traduza para que vocês também pensem, certo? Aqui vai uma explicação ao meu modo do apanhado das coisas que li, abaixo, os links com os conteúdos originais para quem tem interesse, traduzi os conceitos para o português para melhor entendimento:

Love bombing (bombardeio de amor)

A pessoa te enche de amor, afeição, elogios, se comporta como uma pessoa preocupada, gentil, te lota de mensagens e faz você pensar que aquela pessoa é sua alma gêmea, amor da sua vida, tudo mais. A pessoa faz MIL planos de futuro com você (future faking), parece um conto de fadas, uma comédia romântica ou um roteiro bem açucarado. Se a pessoa tá fingindo isso, essa afetuosidade toda, ela terá um prazo de duração e a pessoa muda “da água pro vinho”, isso é, a pessoa te faz sentir a rainha do universo, depois um lixo e a pior coisa que já existiu sobre a terra. Essa mudança de humor pode ser bem lenta e quando você perceber, estará apegada ao passado, aquele fiapo de que “com ele é diferente, ele é sensível e carinhoso, ou melhor…era bastante, até ele mudar…e fazer me sentir horrível”. A mudança pode ser brusca também. Se antes seus modos de ser eram o que encantava a pessoa “você é autêntica! você é orgulhosa! você usa roupas que valorizam o seu corpo! adoro você ser assim!”, por exemplo, as coisas começam a ficar invertidas, porque antes o que a pessoa incentivava e amava, se vira contra você “você vai mesmo sair com essa roupa? isso não combina com você! você é orgulhosa demais e auto-suficiente! olha como você gosta de chamar atenção! olha quantos likes nas suas fotos, é claro que você não tem problema de auto-estima!”. Como a pessoa afetada (alvo) se sente culpada pela mudança de comportamento, é julgada e cobrada por quem a “bombardeou de amor”, tenta desesperadamente se adequar, modificar, para tentar voltar ao tempo “da lua de mel” do relacionamento. A sensação é “ele é um cara sensível e incrível, se mudou comigo é porque eu não dou valor para o homem que ele é”. Ás vezes é sutil, outras vezes é até verbalizada a satisfação e a expectativa que aquela pessoa (abusador) tem em te ver na merda. Isso é, se antes a pessoa conseguia te colocar nas nuvens, agora ela faz questão de te passar uma rasteira e ainda ter ar de quem dá uma lição. “Se me amasse você estaria sofrendo mais”, etc. Ou ainda quando a pessoa só para de te acusar, constranger, deixar confusa, quando você tá fragilizada e chorando. Não importa o quanto você tentar, nunca será boa o bastante. O descarte (término) acontecerá de uma maneira cruel, fria, distante ou humilhante.

Um outra forma de “bombardeio de amor”, é quando a pessoa te manda muitas mensagens durante o dia, faz muitas ligações, exige muita atenção e o tempo todo. Não dando tempo pra você pensar a respeito se aquilo está te sufocando, se aquele comportamento impede você de processar aquele tanto de informação, se atrapalha sua rotina, trabalho, estudos…

Degradation (degradação)

O objetivo é minar sua auto-estima: Uso de sarcasmo, te chamar por nomes que te irritam ou humilham, repreensão, menosprezo, culpa excessiva, isso te deixa vulnerável e faz duvidar de si (te faz sentir incapaz intelectualmente, fisicamente, emocionalmente)

Verbal Assaults (agressões verbais)

Repreender, depreciar, ameaçar, sarcasmo, humilhação. Exagera todas as suas falhas, te coloca pra baixo, mesmo em público. Isso também tem por propósito diminuir sua auto-estima.

Emotional Blackmail (chantagem emocional)

Ele usa os seus gatilhos, suas questões emocionais mais profundas pra fazer sentir culpa, remorso, medo, ameaçando terminar a relação, dando gelo e outras táticas de medo. Vamos supor que você teve traumas e tem travas com determinado assunto, é isso que a pessoa vai usar contra você, ela vai no seu ponto fraco pra doer.

Isolation (isolamento)

Você fica dependente da validação daquela pessoa, ela toma várias decisões que te afetam, ou afetam aqueles que você cuida, sem te consultar. Por exemplo, marca férias com a família (se vocês tem filhos) e nem conversa a respeito com você antes. Ela (a pessoa que abusa) pode te afastar de amigos e familiares, controlar seu dinheiro, espalhar mentiras a seu respeito. O objetivo é fazer você viver pra ela, para aprovação.

Unpredictable Responses (respostas imprevisíveis)

Isso torna a pessoa (alvo) muito ansiosa. Você queimou o feijão, quebrou um copo, esqueceu a manteiga destampada? O abusador tanto pode ter uma reação super nervosa, explosiva, com gritos ou xingamentos, quanto pode não dar em nada. Você fica ansiosa por não saber o que acontecerá nessa “bomba relógio”.

Gas-lighting (deslegitimar memórias)

Aquele dia que você lembra daquelas coisas que ele fez ou disse? Não existiram, não foram bem assim! O alvo sabe do que sentiu ou viveu, mas o abusador fará ela questionar sua sanidade, memória e percepção dos fatos.

Enforcing Trivial Demands (impondo demandas triviais)

As coisas triviais vão tomar proporções imensas, o que em português a gente chama de “procupar pêlo em ovo”, “tempestade em copo d’água”. O objetivo é reforçar a complacência do alvo, tornar o alvo permissivo, comer pelas beiradas.

Occasional Indulgences (indulgências ocasionais)

Sem qualquer razão aparente ou logo após de conseguir o que quer (te fazer chorar, por exemplo), a pessoa abusadora te oferece presentes, mimos, faz uma gentileza, o que te faz baixar a guarda e parecer exagerada por se sentir tensa e “paranóica”, isso é, “porque eu estava com medo e confusa? Olha só como ele é doce e gentil!”. Pode acontecer da pessoa usar o seu desejo como arma, por exemplo, fazer um sexo incrível com as palavras e os gestos que te encantam e logo depois, te culpar pelo prazer que extraiu. Por exemplo, ele te faz se sentir horrível pelo seu corpo e sexualidade, mas enquanto vocês fazem sexo ele te faz sentir desejada, bonita, gostosa, verbalizando, inclusive. Isso vai te deixar confusa e moralmente esgotada.

Fontes:

The Early Warning Signs & Stages of Toxic Relationships You Need To Know

Narcissistic Brainwashing

Seducing and love bombing


Feminismo é (entre outras coisas), estudo constante, compreender melhor os mecanismos internos de relacionamentos abusivos fortalece o importante auto-cuidado. Hiper-vigilância não faz bem para ninguém, em verdade, impede qualquer experiência social, produz isolamento (ainda mais severo se a pessoa já tem invisibilidade por ser quem é[1]). Se o  relacionamento mina sua confiança, te faz sentir inadequada, suga as energias num nível que você não consegue nem mais ficar contente sem se sentir culpada, isso é um relacionamento abusivo. Aliás, essa é outra forma de manipulação psicológica não tão rara, com três desdobramentos possíveis. Vou nomear de

Sofrimento como prova de amor:

1) Socialmente homens cis são ensinados a atacar se machucados emocionalmente: Insatisfeito com o relacionamento, o abusador pode exigir que você sinta o sofrimento na mesma medida que ele, nos padrões do que ele entende por sofrer, uma competição por sofrimento nos parâmetros dele: Por exemplo, “eu estou sofrendo muito mais que você, minha vida está uma merda” (não importa o quanto você diga que também está sofrendo, ele vai ignorar solenemente).

2) Você não consegue comemorar bons momentos e “conquistas” com a pessoa abusiva, sem ela te culpar por estar feliz, te chamando de insensível porque você “está feliz com a promoção no emprego enquanto eu estou aqui chorando e sofrendo”. Isso é, o relacionamento não é mais sobre apoio mútuo, partilha de bons e maus momentos. É sobre te ver definhando.

3) Espetacularização da dor: Não adianta sofrer e uma lagriminha, não, o abusador quer o sofrimento cinematográfico, rímel borrado escorregando atrás da porta, a vida em pedaços, ele quer o zoom e a maximização do sofrer. É um comportamento sádico.

Considero que ninguém está livre de ocupar um ou mais lados dessas dinâmicas. Quem se comporta de modo abusivo, não necessariamente faz isso com a lucidez da implicação dos seus atos, isso é, não é alguém que deliberadamente tem essas atitudes. Como pontuei, homens cis são ensinados desde muito pequenos que as mulheres “devem” docilidade, que se eles se dedicaram num relacionamento “não são como os outros” e portanto a mulher deve ser muito grata porque alguém lhe deu atenção e não bordoadas. Ou seja, ele deve ganhar medalhas e ser tratado como um rei porque ele não é violento fisicamente, lava a louça (esfregar azulejo e privada, nunca), busca o filho na escola vez ou outra. Como mulheres, aprendemos que precisamos ser gratas com quem nos trata bem, os dois cansados de um dia cheio e quem lava louça, faz sexo sem vontade, vai preparar a marmita dele e a lancheira das crianças é a mulher, ela faz um boquete pra ele relaxar depois de um dia puxado, nunca o contrário (pra massagem ela tem que pedir).

É claro que essas dinâmicas podem e ocorrem de baldes em relacionamentos não hétero, monogâmicos ou não, entre familiares e até mesmo amizades, ninguém é imune. Antes de ir perguntar ao seu parceiro ou parceira (filho, amigo, parente, etc) se você tem práticas abusivas, se questione e examine suas práticas, reflita se a carapuça serve.  Não constranja a pessoa que você se relaciona com esse tipo de pergunta, até porque se você for abusivo com ela em algum grau, ela pode não se dar conta ou simplesmente ficar mais coagida ainda e ter de se justificar quando, onde, como ela foi alvo de abuso (provar que foi machucada e pontuar em graus a natureza desse machucado).

Esse não é um texto conclusivo, é uma reflexão compartilhada.

[1] Isso é, se a pessoa escapa da norma e já tem dificuldade em se relacionar em situações triviais da vida cotidiana, com acesso aos direitos básicos tais como moradia, alimentação, educação, lazer, segurança, emprego formal, estabilidade financeira.

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Um comentário sobre “A segurança do castelo, o perigo na torre – Sinais de um relacionamento abusivo

  1. Parabéns pelo trabalho de tradução.

    Só queria acrescentar uma coisinha.
    Um post muito libertador que li uns tempos atrás era sobre abuso e sobre situações que não são de abuso mas são ruins. basicamente, uma pessoa perguntava se a situação que estava vivendo era de abuso e a resposta foi “Não sei, estou longe, não tenho todas as informações. Mas se você está infeliz com a sua relação, não precisa de um diagnóstico de abuso para sair dela. Mantenha a relação apenas se ela faz você feliz. Se você não está feliz, não precisa da justificativa do abuso para romper.”

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