Não sou privilegiado não, eu até sofro

13895201_1136955069683352_3423384525632231970_n
Quando as pessoas dizem que você tem privilégio elas não estão dizendo que você não tem problemas. Elas estão dizendo que você não tem os problemas específicos oriundos da opressão. Esse não é um conceito difícil. 

Semanas atrás na faculdade assisti um vídeo que falava da relevância de Leila Diniz. O que elenquei foi: Ela dizia coisas que chocavam? Sim. Ela deu entrevista e foi censurada? Sim. Ela mostrou o barrigão de grávida enquanto as mulheres escondiam seus ventres? Sim. Mas ela era uma mulher jovem, branca, com projeção midiática, de uma beleza incontestável (com ares de Brigitte Bardot), dizendo que amava fuder e ser livre. Mesmo com um discurso pouco ortodoxo ela era assimilável de algum modo, porque era privilegiada mesmo com as desventuras em ser mulher e todas as auguras em pertencer ao gênero humano.
 
E não foi Leila Diniz sozinha, nem Simone, nem Pagu, nem qualquer indivíduo escolhido como “a cara” de uma linha de pensamento, o dono dos louros da vitória na emancipação de um grupo. Respeito e gosto da história de Leila Diniz, mas exageram na dose em pintar ela como a cara e o corpo da emancipação das mulheres brasileiras. Mesmo quebrando tabus uns corpos são mais autorizados a assumir publicamente suas contestações. Se a Jennifer Lawrence posar se lambuzando com um hamburguer e falando que, nossa, ela adora comer, arrotar e ainda peida, as pessoas vão achar o máximo. Põe a Gabourey Sidibe fazendo o mesmo e espere a comoção pública…
 
Se alguém te diz que você é privilegiado porque é branco, classe média, magro, jovem, estudou em colégio pago a vida toda, tem o rosto e/ou corpo padrão, fala muitos idiomas e tem milhas acumuladas num programa de viagens, entre outros privilégios, essa pessoa não está assumindo que você nunca se fodeu. Ou que nunca te foderam. Ou ainda que em aspectos que fogem da superfície você não pode sofrer terrivelmente por dentro. Duas coisas contam e muito para que você se beneficie nas estruturas: 1) Seu Capital Cultural 2) A sua aparência
 
1) Capital Cultural
 
É um conceito nomeado pelo Bourdieu. Imaginem duas crianças, uma com pais educadores de esquerda e que curtem Jorge Ben Jor, viajou para a Índia e vários países. A outra, uma criança que os pais são pouco escolarizados e não incentivam muito sua permanência na escola, escutam o que está mais na moda do momento, nunca viajou de avião. Essas crianças vão para a mesma escola (vamos supor que os pais educadores acreditam na Escola Pública), a professora mostra uma foto do Taj Mahal em aula. Quem provavelmente vai levantar a mãozinha e contar como é de perto, além de lembrar a música do Jorge Ben? Ou seja, não é só o que você fez com seus privilégios (viagens internacionais), mas também tudo o que culturalmente você experimentou e teve acesso (diferentes sabores, ouvir outros idiomas, sua educação musical considerada de “bom gosto”). Obviamente a educação não se dá apenas com a primeira socialização (tradicionalmente associada ao núcleo familiar), a relação com a escola e o saber pode tomar rumos que desafiem os destinos sociais prévios, mas aí é ponto fora da curva (o estudo de Lahire é uma boa fonte de análise caso busquem fundamentação teórica nesse sentido).
 
2) A sua aparência
 
Você é apresentável? Isso é, as pessoas se orgulham de andar “com alguém como você”? Você apresenta algum maneirismo ou ato ordenador repetitivo que demonstra com gestos que você não é “normal” (algum grau de autismo, por exemplo, com movimentos mais duros ou espasmáticos)?. Seu corpo visivelmente apresenta algo que as pessoas leriam como um grande excesso ou falta (você não tem um braço ou é muito gordo)? Você já andou de mão dada com alguém e a pessoa soltou rapidamente o contato ao perceber que podiam ver vocês caminhando juntos? Você já perdeu uma vaga de emprego para alguém igualmente ou até mesmo menos preparado para o cargo com base no que você aparenta? Você parece hétero?
 
Caso o leitor seja do tipo mais ingênuo pode dizer que no seu círculo social não, no seu meio não há esse comportamento. Julgar pelas aparências é coisa de gente mesquinha e preterimento não rola onde o raio problematizador faz morada, certo?. Até porque uma mulher bonita demais sofre na mesma medida que a feia porque as duas são desacreditadas, certo?. Bad news, everyone! Dá uma olhadinha quem recebe mais investidas no Spotted da faculdade, quem é que “sobra” nas festinhas, quem é apresentada pra família? Vai escutar de quem essa história é comum “Ele disse que estava num momento complicado e não queria se envolver com algo sério, dias depois assumiu com outra mais bonitinha”. Vai ouvir quem recebe mais propostas unicórnio (alguém que entra numa relação sexual casual para apimentar e depois é descartado)… Corpos que não atendem a norma logo de cara, logo na superfície, sofrem encargos muito específicos.
 
Nos casos que a mulher é muito bonita e é tratada como troféu não se compõe a mesma vivência de um corpo abjeto. Usando o filme Malèna de exemplo, a mulher recebe muitos estímulos para ser bonita, se ela consegue atenção pela sua beleza vai despertar raiva porque desperta desejo (seja por ser como ela, seja por desejarem fazer sexo com ela), em alguns casos isso pode gerar atitudes violentas para tornar aquele corpo abjeto. O estupro, é uma forma de tornar um corpo abjeto, raspar os cabelos e machucar é outra. A desumanização é um instrumento de poder aplicada aos corpos para reafirmar ou transformar, corpos em matéria abjeta.
 
Um rostinho bonito não resolve toda a vida mas abre portas, ganha mais credibilidade, recebe mais atenção, carinho, afeto. Isso desde os bebês. Bebês mais branquinhos e lidos como mais graciosos e menos pesados ganham mais atenção. O super estímulo e a extrema paparicação podem gerar tristeza, pressão por manter alto padrão, dependência, o lucro da cosmética e dos remédios controlados, assim, o cenário é desolador para quase todos. Todavia, não é porque é para todos que se dá sem alguns facilitadores ou inibidores. O corpo não abjeto recebe ao menos mais convites, é chamado ao falar, é escutado, lido, ele é em algum grau um modelo a ser seguido, tem legitimidade, mesmo a transgressão vende mais se acompanhada de formas simétricas.
 
Referências
 
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 2. ed. rev. São Paulo; Porto Alegre: EDUSP: Zouk, 2013.
 
LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Ática, 2004.
 
OLIVEIRA, Fabiana de; ABRAMOWICZ, Anete. Infância, raça e “paparicação”. Educ. rev., Belo Horizonte , v. 26, n. 2, p. 209-226, Aug. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982010000200010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on 02 Aug. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982010000200010.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s