“Todo homem trai”

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I. Todo. Todo*. Não. Os gêneros são capazes de desenvolver (ou desejar muito, mesmo lutando contra as pulsões) relações extra conjugais. A monogamia não é a maior das prisões porque isso não existe. Nenhuma estrutura tem poder sozinha. Todavia, é incontestável o respaldo que a mesma encontra no Estado, na religião, nas manifestações e representações culturais e midiáticas. O amor romântico tradicional ainda dualiza mente e corpo, coração e tesão, como se quem seguisse e respeitasse o que o corpo pede tivesse pouco caráter.

As pessoas superestimam fidelidade na esfera pública. Mas vai ouvir o que elas fazem no privado… homens, mulheres, pessoas de todas as idades e classes sociais. Por tédio, por carência, por vingança, por se sentirem incompreendidas, por tesão. A grande questão não é pontuar se toda pessoa trai ou não. É sobre admitir honestamente o quanto em termos gerais a monogamia é hipócrita e uma grande fachada.

* Considerar que todo homem em qualquer tempo histórico, independente da ontogênese, em qualquer recorte geográfico, econômico e cultural fez exatamente a mesma coisa é extrapolar o microcosmo como medida de análise.


II. “Homem” tem seu peso e relevância como categoria de entendimento histórico, como análise macro e estrutural. Porém, tendo a fazer vários recortes juntos, mesmo com o estrutural posto. Por exemplo em GoT, uma coisa é você ser um homem herdeiro do trono sendo bastardo ou legítimo, sendo anão ou com um corpo dentro dos padrões capacitistas. Seria tudo diferente sendo uma mulher anã ou bastarda, mas o fato é que mesmo a categoria mais estruturante dando um montão de privilégios e sustentações não pode ser lida sozinha, é sempre preciso considerar as variáveis porque mesmo pequenas elas fazem o resultado geral ser muito específico. Nas pesquisas qualitativas (meu tipo preferido de trabalho de campo), a gente tenta sondar justamente esse micro permeado de macro. E toda hora precisamos mostrar na metodologia o quanto aquilo é uma amostragem porque fotografia total a gente nunca vai ter braço pra alcançar mesmo. 

Nas do tipo quantitativa e/ou de grande abrangência, os pesquisadores tentam uma amostragem significativa, grandes números grandes dados, grandes análises (tipo que o Bourdieu fazia). Em dados precisos ainda tem margens de erro, para mais ou para menos. É desse tipo de margem que eu tô falando. Mesmo em categorias amplas tem a miudeza muito relevante, como na construção do gosto, pensar nas estratificações extra-econômicas (gênero, escolaridade dos pais, alimentação, etc). Linguisticamente a gente precisa de conceitos encapsulados para construir argumentos, todavia, a frase solta “todo homem x” não pontua o que exatamente está denominado enquanto “todo”, tampouco, “homem”. Com isso, abre margem para interpretações rasas do tipo:

◔ Feminismo meu macho minha vida: quem fica com omi comprometido não tem sororidade
◔ Feminismo monogamia só rola entre e com mulheres: porque só omi tem fogo nas venta e no cu
◔ Senso comum: homem tem instinto e desde “o tempo cavernas” quer espalhar semente em ancas protuberantes (jacuzzi de bebê)
◔ Homem como categoria atemporal e sem qualquer recorte

Se o pessoal é político demanda critério e cuidado na avaliação. Ainda mais em um tema tão passional quanto as relações com os corpos e a sexualidade, adentrando as instituições conservadoras derivadas da monogamia heterossexual como a família e o matrimônio.

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