A criança não lê com quatro anos! E agora?

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Que papel lisinho e que colorido interessante!

Quem tem uma criança em casa pode ficar preocupado porque os outros adultos pressionam para “um pequeno gênio”. “Coloca numa bilíngue, põe no balé, no inglês e na natação!”. Aí você olha pro seu bebê e ele tá fazendo bolha de baba, comendo cola, lambendo tijolo, metendo o dedinho no nariz. Mas afinal, o que as diretrizes falam? Pelas Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil, (DCNEI), as quais abrangem o atendimento de crianças de 0 a 5 anos e 11 meses, esse período não deve conter avaliação para promoção, ou seja, não tem “prova”, não tem ranking classificatório, nada do tipo deve ser aplicado. A Educação Infantil deve incentivar o cuidado de si e do Outro, conhecer o mundo, respeitar o direito à diferença, incentivar a se manifestar e respeitar a vez e a voz de terceiros. O DCNEI pode ser compreendido em dois eixos centrais a interação e a brincadeira. É tempo de experiências éticas e estéticas, de dar segurança para se expressar dentro das linguagens que a criança desejar, seja o desenho, a arte, a música, a dança…por que um menino dançando Bang! da Anitta é visto como uma “ameaça” uma coisa esquisita, enquanto outra pequena que decora a capital dos países é um exemplo e espanta pela “genialidade”? Porque separamos mente e corpo (e nesse caso, a questão de gênero binário também faz parte do estranhamento), separamos esses saberes desde muito cedo, sendo que os dois são igualmente interessantes e demandam uma série de processos cognitivos. A criança que não sabe dançar, não sabe ler “como as outras, no ritmo das outras” não deve se sentir péssima.

A valoração do indivíduo, não importa a faixa etária, não deve ser mensurada pelo o que o corpo dele “não é capaz de fazer” em comparação com a média. Infelizmente, a gente aprende mesmo na vida adulta que é mais importante focar em tudo que a gente faz com dificuldade ou não consegue fazer, do que nas coisas que somos realmente bons. Quanto ao desenho, muitos adultos ficam preocupados com as crianças que colorem fora do traço, é importantíssimo deixar a criança se expressar dentro da linguagem que ela julga mais significativa (isso significa pintar uma árvore de azul e o céu de verde se der vontade!), ao modo dela, tanto para trabalhar a motricidade (segurar no lápis, pincel, giz…), quanto as representações que ela tem de linguagem escrita (não tem nada de errado em escrever espelhado, embaralhar letras, quando se experimenta essas combinações (como até virou meme a “Inbonha”), tudo isso faz parte de assimilação do conhecimento e está tudo bem. As políticas públicas mais recentes de alfabetização (como a Meta 5 do Plano Nacional de Educação), preveem que todas as crianças aprendam a ler e escrever aos 8 anos de idade. Para tanto, muitas outras políticas públicas foram implementadas como o ensino de nove anos, uma vez que agora as crianças entram com 6 anos no Ensino Fundamental, dando mais tempo para elas se familiarizarem com os fundamentos básicos dos saberes, tanto quanto para compreenderem o uso do corpo na escola e seu sistema disciplinar (para escrever de forma legível você precisa sentar e dominar a motricidade de uma caneta/lápis). De nada adianta uma criança pequena saber contar até cem se ela não compreende o que é o cinco, que o cinco é uma unidade representativa que indica uma quantidade específica que vem seguida do seis, anterior a ela vem o quatro. Muitas vezes, nem tem como uma criança tão pequena saber tudo isso porque o organismo dela muitas vezes nem está maturado para compreender essas estruturas mentais. Não adianta forçar um bebê de dois anos que está em muitos casos, expressando suas primeiras palavras a falar estruturas complexas.

Uma coisa é você querer dar muitos estímulos para uma criança pequena para ela conhecer muitas linguagens, ganhar segurança e descobrir outros modos de ser e estar no mundo. Outra coisa é você querer forçar ela num punhado de atividades para mostrar para os outros adultos os “truques” que “sua criança” sabe fazer. Pouco adianta você super elogiar a criança sobre o quanto ela é especial e inteligente por saber decorar frases fazendo ela se sentir “melhor que os outros”, se ela não aprender a respeitar as pessoas, não adianta decorar o dicionário. Ela vai encontrar outras crianças que não sabem tudo o que ela sabe por muitas razões, entre elas, não ter família com capital cultural e econômico que proporcionem essas experiências. Criança esperta e curiosa não é sinônimo de criança esnobe. Se ela aprende com facilidade as coisas, incentive ela a ensinar os colegas e amigos, o conhecimento é para ser partilhado, não importa a idade. Explique para criança ter paciência com os próprios processos e com os processos dos outros. Ninguém é obrigado a saber tudo de tudo. Ademais, os programas infantis já são super pedagogizantes (isso é uma crítica, da minha parte) e já ensinam as cores, os números, as letras. A Educação Infantil não é pra aprender a ler-escrever-contar, é para se expressar e descobrir sua corporeidade, sua subjetividade e alteridade, é pra conhecer novas linguagens. O Ensino Fundamental é muito além do ler-escrever-contar. Claro, isso é um direito básico e deve ser explorado nas escolas, mas tecido com outros saberes, criando significados amplos e densos, não apenas decoreba pra passar em testes.

Fontes:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil/Secretaria de Educação Básica – Brasília: MEC, SEB, 2010.

BRASIL, Ministério da Educação. Ensino fundamental de nove anos – Orientações gerais, 2004. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ensfund/noveanorienger.pdf Acessado em 24 de Agosto de 2013

BRASIL, Plano nacional de educação,2001. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm Acessado em 24 de Agosto de 2013

DOLZ, Joaquim; GAGNON, Roxane; DECANDIO, Fabrício. Produção escrita e dificuldades de Aprendizagem. São Paulo: Mercado de Letras, 2010.

FERREIRO, Emília. Reflexões sobre Alfabetização. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1985.

FINCO, Daniela; SILVA, Peterson R; DRUMOND, Viviane. Repensando as relações da Educação Infantil a partir da ótica de gênero. Culturas infantis em creches e pré-escolas: estágio e pesquisa. 1ed Campinas: Autores associados, 2011, v. Pg 59-87

HOGEMANN, Edna Raquel Rodrigues Santos 7º Encontro nacional da ANDHEP.A relevância do afeto e da alteridade na garantia dos direitos humanos. 2012.

LEAL, Telma. BRANDÃO, Ana. É possível ensinar a produzir textos! Os objetivos didáticos e a questão da progressão escolar no ensino da escrita. In: Produção de texto na escola: reflexões e prática de ensino. CEEL/MEC, 2007.

REGO, L. B. Descobrindo a escrita antes de aprender a ler: implicações pedagógicas. In: KATO, M. A. (Org.) A concepção da escrita pela criança. Campinas : Pontes, 2002, p. 105-134.

Você também pode se interessar por:

ARAUJO, B. L. D. ; SÁ, D. C ; MIRANDA, A. D. ; SIOTANI, E. ; FUJISAKA, L. C. H. . O Museu do Desenho da Criança: um estudo da produção gráfica infantil. Revista Educação, v. 4, p. 55-77, 2014.

SÁ, D. C;   JACOMINI, M. A. Alfabetização de todas as crianças até o final do Terceiro Ano do Ensino Fundamental: acompanhamento da Implantação da Meta 5, do PNE 2011/2020 http://goo.gl/Kd1nik

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