E a periferia, heim?

nutella
Não sei se vocês sabem, mas nos mercadinhos da periferia também vendem Nutella

Época de eleição, voto no Grajaú. Foi o local em que passei a maior parte da vida, então tenho uma certa ligação com o lugar. Foram naquelas escolas que estudei e larguei a oitava série. Foi ali na Capela do Socorro onde terminei a EJA. Também morava ali quando ouvi falar de Amélie Poulain e pegava ônibus pra alugar VHS na Blockbuster, já que as locadoras do bairro não tinham esse tipo de fita. Gosto de voltar lá para ver como andam as coisas. A Padaria Viva Noite continua do mesmo modo, os pontos imaginários nos quais não tem ponto, mas a gente sabe que é, também. Abriram uma hamburgueria (dessas bem hipsters com paredes pretas), além de uma barbearia bem próxima dali (com as paredes também em preto). As demandas globais e locais são mais próximas e evidentes, a maioria das pessoas tem acesso à internet (nem que seja pelo celular), tempos de Tumblr, tombamento, blogayras de moda. Dia de eleição, pessoas de várias idades andando pra lá e pra cá, montes de cachorros vira-lata desviando dos carros, santinhos no chão, churrasquinho de gato assando, crianças pequenas, um domingo qualquer. Ao contrário do que o Tumblr gosta de anunciar a maioria das pessoas ali não tinham visuais super coloridos, “tombamentos”, paredes sem reboco, tudo parecia completamente “normal”, jeans, camisetas, bermudas, chinelos, gente com carro. Não era um clipe do 50 cent ou da Karol Conká. Não havia aquela mitologia criada em cima da periferia. Não tem um Sarau em cada esquina, não tem discurso contundente o tempo inteiro. As pessoas não tem 2PAC na parede das casas, os jovens não desfilam camisetas do Malcolm X, os professores não são todos de esquerda. Em verdade, a maioria do discurso das escolas se aproxima e muito de um conservadorismo ferrenho. Coleciono histórias de pessoas que foram expulsas de suas casas porque engravidaram, não são hétero, apanham de pais abusivos, de pobre fazendo piadinha de pobre. Homofobia, racismo, transfobia, especismo (tô falando de gente da minha rua e de outras, que já ouvi, que tiveram animais multilados, envenenados, etc). Loucura, misoginia, pedofilia, etarismo, já vi, bem perto, na pele, no quintal, em casa, na igreja, no bairro. Não é exagero, não tô aumentando. Isso tudo pra dizer que a Zona Sul não é o Éden igualitário que vocês pintam não. Sabe toda a violência e a merda que o mundo tem? Lá tem também. Sabe as pessoas com vontade, tentativa e disposição para fazer do mundo um lugar melhor? Tem igualmente.

Tem pão com mortadela? Tem. Tem Nutella com tapioca? Tem. A periferia não é uma forma 2D como o desenho chapado no papel sem dimensões. Tem viado, tem puta, tem mina que engravida antes dos 20. Também tem (E MUITO) família evangélica que se orgulha de ser intolerante, fazendo piada “de macumbeiro que se deu mal”, líder religioso que só falta bater nos outros com a Bíblia, mas tem amante. Tem professor, pai de família, trabalhadora doméstica com trabalhadora doméstica, casa com TV a cabo, tablet, toda reformada e de fachada bonita, três andares, com carro na garagem. Sabe o que é elitista pra caralho? Querer que a Zona Sul (não tô falando do Brooklin, hahahahaha), salve São Paulo do conservadorismo. Porque supostamente pobre é muito e com muito filho, né? Porque supostamente, como as pessoas demoram três ou mais horas pra chegar nas áreas centrais e de prestígio na cidade, elas tem uma super consciência de classe, coletiva e engajada, para derrubar os poderosos do poder(!). Isso é tão surreal e dentro de uma bolha romântica que nem a mais florida das cirandas das Universidades Públicas, poderia esperar. Antes de culpar os pobres por serem pobres ou alienados, coitadinhos e ludibriados, vê bem com quem e como você passa suas ideias. Imagina eu chegando pra minha avó, evangélica (aliás, esse domingo enquanto almoçávamos ela se despedia na janela pra ir pro culto), falando de proletariado, monossexualidade, desconstrução, capital cultural, status quo, práxis. Isso só nos afastaria ainda mais. Tem várias formas da gente dizer as coisas e se a gente opta por falar do modo mais complicado, cheio de referências prévias necessárias, a gente tá excluindo a possibilidade de aproximação e elaboração conjunta das ideias. A gente não precisa “dar entendimento” pra periferia, ela não precisa “ser salva” por universitários com suas teses. Tampouco, a gente deve deixar como está todo o pensamento conservador muito fértil nesses e em outros ambientes, porque “faz parte da cultura periférica” cantar machismo e putafobia. A periferia fala por si, mas como muitas vezes não conversa com a periferia romantizada/trágica de alguns setores da esquerda (nelas todo mundo é engajado e unido ou é corpo na vala e esgoto em céu aberto), esperam que eles encontrem “a luz” nos moldes caricatos.

Parece que a única experiência válida e louvável em ser alguém da periferia é tocar violino feito de materias reciclados, rimar Piaget com enchantée, isso é, alguém que embora saiba exatamente onde estão os pontos imaginários dos microônibus, fale mano e mina, também saiba conversar numa mesa de universitários versados na cultura legítima. Periférico bom e levado em conta é aquele que assiste Café Filosófico, quem assiste Legendários e o programa do Datena, é alienado. Mas vai lá, queridão, vai lá no horário do Cidade Alerta e vê se não é nesse canal que a maioria das casas está sintonizada. Vai lá escutar o tanto de gente que pensa que “bandido bom é bandido morto”, “pixador é desgraçado”, mesmo quando tem parentes que já foram presos por isso ou aquilo. Vá lá ver o tanto de gente na periferia que rala pra caralho pra comprar um celular ou um carro e do quanto eles podem desejar literalmente, a morte de quem danificou a propriedade. Tradição, família, propriedade, a hipervalorização da meritocracia e do trabalho, tem muita adesão na periferia. Quem “escapa” do destino de classe de muitos (drogas, gravidez precoce, roubo/furto) se enche se orgulho de “apesar das dificuldades, ter filhos bem criados e honestos”. Enquanto a maioria quer apenas trabalhar, ter seu cantinho, criar bem os filhos e netos, ir pra igreja e ter uma graninha pra ter conforto, vocês não entendem como o PSDB pode ganhar tantos votos, como as pessoas não querem se envolver com política. A descrença no poder público é generalizada, ali não seria diferente, a periferia não precisa ser salva, muito menos, espere que ela salve vocês do discurso tão distante que demora muito mais pra chegar nas pessoas, do que as horas que elas ficam presas de pé no ônibus na Av. Interlagos, numa sexta-feira, ás 7 da manhã.

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