Eu não sou a Professora Helena, porra!

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A Educação Infantil no Brasil é ligada historicamente ao cuidado maternal. Isso porque o modo pelo qual vemos as mulheres impacta diretamente como nós percebemos a infância, e os cuidados com as crianças pequenas. Se na nossa sociedade consideramos que tudo o que pode “dar errado” na vida de uma criança e de como ela se transformará num adulto, é responsabilidade unicamente das mães e que mães, devem ser apenas um poço de bondade, paciência e assexuaidade, temos uma super responsabilização de um indivíduo e tiramos qualquer responsabilidade do Estado e da comunidade, em educar uma criança. Portanto, ao invés de cobrarmos do Estado escolas para as crianças pequenas e considerarmos as mães como pessoas com direito ao trabalho remunerado, lazer, prazer, estudo, vida social e carreira profissional, a gente subintende que se você tem um bebê, deve abrir mão de tudo e ficar na toca lambendo o filhote pro resto da vida. Ou quem sabe, contratar uma mulher mais pobre (não raramente, mais negra) para olhar as crianças que você educa. Parece absurdo e chocante? Mas é exatamente assim que a história da Educação Infantil no Brasil se deu em muitos momentos.

Em 1943, por causa das pressões exercidas pelas mulheres que trabalhavam em fábricas, a CLT considerou que as empresas com mais de 30 mulheres acima dos 16 anos, deveriam dispor de um espaço para crianças pequenas. Essas creches eram interpretadas como espaço de guardar crianças, tal qual uma chapelaria em que deixamos algo no início e antes de ir embora, retiramos. Os movimentos sindicais embora reconhecessem que mulheres casadas nem sempre eram contratadas nas fábricas e era grande o número de mulheres despedidas por suspeita de gravidez, assumiam a creche como uma bandeira menor. Bom pontuar aqui que o que chamamos costumeiramente de “entrada da mulher no mercado de trabalho” em geral se trata da entrada da mulher branca no mercado de trabalho, pois as mulheres não-brancas e pobres já exerciam há muito tempo duplas e triplas jornadas em postos de trabalho pouco reconhecidos e de baixa remuneração.Em 1960 a Liga Feminina do Estado da Guanabara (articulado por mulheres comunistas) também defendiam a defesa das creches, em 1964 o golpe militar levou muitas mulheres grávidas e crianças a passarem por torturas. Nos anos 70, as mulheres brasileiras continuaram lutando pelo direito a creche. O que para alguns setores da sociedade não foi bem recebido por lerem nessa prática uma medida populista, assistencialista, para com as mulheres e famílias pobres. O movimento de mulheres e mulheres feministas defendiam que as creches deveriam ser além de um depósito de crianças e sim, uma responsabilidade de toda a sociedade, do Estado inclusive. Entre os anos 70 e 80 as mulheres periféricas se mobilizaram em articulações como Movimento de Custo de Vida no qual se questionavam os altos preços dos produtos mais básicos e o direito à creche, mas na medida que esse movimento passou para os sindicalistas de maioria masculina, a creche também foi interpretada como uma medida assistencialista e de menor importância. Os movimentos de mulheres pressionando o Estado fez com que as crianças fossem aos poucos reconhecidas como sujeitos de direitos e a Educação Infantil mais do que um espaço de “guardar crianças”, um ambiente para socializar, se desenvolver com direito ao sol, grama, terra, música, expressão, educação para as diferenças.

A Educação Infantil é muito além de um espaço para cuidar, nutrir e assistir a criança pequena do ponto de vista fisiológico. A escola não existe para “formar futuros cidadãos”, a criança já é sujeito de direito, também não serve para escolarizar precocemente (fazer ler, escrever, contar, avaliar, promover). É preciso superar o mito do apego e o trauma da separação da mãe, é saudável oferecer experiências de intercâmbio entre crianças, fortalecer o sistema imunológico, tirar dos ombros das mães a ideia de que somente elas são as responsáveis pela educação de suas crianças. Avós educam, vizinhos educam, a escola educa, colocar numa bolha e privar a criança de seus direitos mais básicos como brincar e aprender, é inconstitucional. Por muitas vezes assumem que as crianças pequenas só demandam tomar banho, limpar nariz, higienizar genitais e bunda, dar de comer, estarem limpas e cheirosas. E esse trabalho é realizado em maioria por mães sem qualquer necessidade de profissionalização, dando a entender que qualquer uma pode fazer. Sim, qualquer uma que for paciente, atenciosa, gentil, mulher e mãe. Vira e mexe surgem propostas de lei que incentivam remunerar muito abaixo do mercado, mulheres pobres e sem formação profissional para cuidar de crianças pequenas tirando do Estado e da sociedade mais uma vez, a responsabilidade de educar e oferecer os direitos garantidos por lei. No imaginário coletivo é bastante recorrente a noção de que trabalhar com crianças é quase um sacerdócio: precisa de dom, vocação, voluntariado, abnegação e celibato. Se escapa um vídeo de uma professora de Educação Infantil dançando de biquíni com os amigos, nas férias, para muitos aquela é a prova máxima de que tal pessoa não deveria educar crianças pequenas no ambiente de trabalho. O mesmo vale para professores de Educação Infantil que são gays, lésbicas e bissexuais. Quanto mais cheia de pudores, inclusive fora do ambiente de trabalho, mais competente acham que você é para a função.

Desse modo, ao invés de valorizarmos Pedagogos que estudaram para compreender as crianças de uma forma integral, preferimos dar atenção para Psicólogos, Pediatras, líderes religiosos e demais profissionais da saúde ou da moralidade. Gripe se cura em casa com chá e cuidados, mas nem tudo se resolve assim. Do mesmo modo, dar giz de cera, massinha e sulfite em casa, é diferente de propor uma atividade pensada para determinada fase do desenvolvimento. O objetivo não é dizer que mães não saibam educar, mas é preciso reconhecer o quão desumano é esperar que seja apenas da atribuição delas a educação de crianças. E quanto aos profissionais que estudam e se aplicam na educação de crianças pequenas, não esperem santidade ou sacerdócio deles, são pessoas com sexualidade e vida própria. Isso significa que nem toda professora de Educação Infantil é a Professorinha Helena. Imagina só você ficar quatro anos (ou mais) estudando sua área profissional e ao executar seu serviço alguém te diz “ah, é só gostar do assunto né? E se você gosta de estudar e faz isso porque sente prazer em realizar seu trabalho, porque não faz de graça?”. Professora de Educação Infantil não é “tia”, é uma profissional que estudou bastante para ser uma educadora. Não é trabalho voluntário, não é de graça, não é de qualquer jeito, não basta e nem precisa ser mulher, não basta e nem precisa ser mãe. É uma profissão e demanda ser levada com a devida seriedade. Brincar, apender e ensinar crianças pequenas é muito além de ser “tia”. “Tia” pode levar sobrinho pra passear e no final do dia deixar a criança com a mãe novamente. Professora é outra coisa. Professora é profissão de extrema responsabilidade e exige dedicação. Fora da escola e do ambiente de trabalho, não estranhe em observar professoras e professores sendo pessoas comuns. Se encontrar um professor tomando uma cervejinha com os amigos, falando palavrão ou dançando no forró, numa casa noturna ou no baile funk, não estranhe.Não são robôs nem fizeram voto de pobreza.

Fontes

CERISARA, Ana beatriz. Professoras de Educação Infantil entre o feminino e o profissional. São Paulo: Editora Cortez, Coleção: Questões da nossa época, 2002.

TELES Maria Amélia, A participação feminista na luta por creches! In: FINCO, Daniela; GOBBI, Márcia Ap. e FARIA, Ana Lúcia. Creche e feminismo: desafios atuais para uma educação descolonizadora, 2015

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