Algumas mulheres adultas gostam e concordam em levar/dar uns tapas

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I. Essa afirmação pode parecer muito, muito assustadora para certas mulheres. Alguns setores do feminismo defendem que a encenação erótica com cenas de violência serão sempre e para toda a eternidade, problemáticas e até mesmo incentivadoras, fazendo com que essas dramatizações encarnem em quem exerce o poder e ultrapasse limites, ocasionando danos irreversíveis do ponto de vista físico, moral e psicológico. Meu foco no texto de hoje é outro, não é para quem discorda dessas práticas consentidas entre adultos, se você se ofende e detesta esse tipo de dinâmica, não pratique, você não é alguém menos sexual, menos interessante, com gozo menor, com potência diminuída, se trata apenas de alguém com expectativas sexuais comuns. Se o seu modo de fazer sexo¹ não faz com que as pessoas praguejarem a sua morte com DSTS, procurarem um CID que te encaixa, não te faz correr o risco de perder os amigos, o emprego, a respeitabilidade moral e profissional, se você não pode falar sobre como faz sexo mesmo durante conversas “picantes” com as pessoas porque vão te chamar de nojento, vetor de doença, pervertida/tarada, doente, você é apenas uma pessoa com sexualidade normal, mediana, não assustadora, pode ficar bem tranquilinha que ninguém vai arrombar sua porta e te forçar a nada. Não existe Ditatura LGBT, assim como não existe Ditadura BDSM. Se você não gosta, não sabe lidar, vira a cara, sai de perto. Assim como tem gorda que não espera o Esquadrão da Moda pra determinar o que ela pode usar, vai na praia e usa biquíni ofendendo a opinião pública, assim também existem mulheres que não esperam a autorização e carimbo de padre, pastor, médico, assistente social, família e do bairro pra começar a praticar o sexo de uma maneira não convencional. As pessoas não vão deixar de praticar sexo não convencional só porque você não tem estrutura/vontade de lidar com ele. Não quer, não faça. 

Agora, se você se sente uma pessoa péssima porque tem desejos “esquisitos” da maioria das pessoas porque eles “parecem violentos/agressivos” embora te excitem demais, vamos com calma. É preciso considerar como seu desejo te atravessa, se você acha gente pra praticar com você, se essas pessoas concordam de verdade com o que vai acontecer. Se você está com muita vontade de fazer uma dinâmica com uma pessoa e essa pessoa não concorda com o que vai acontecer, a dinâmica não pode em hipótese nenhuma acontecer. Se não é “teatrinho”, se não é uma fantasia sexual que as pessoas concordam, não pode acontecer. Se você passa na rua e um completo estranho começa a te seguir te chamando por palavras que te ofendem e te deixa com medo e assustada, isso não é fetiche, isso não é BDSM, isso não é safadeza e putaria, isso é assédio. Agora, se você tem uma parceira ou um parceiro com o qual gosta de fazer sexo com ele ou ela, então um dia vocês combinam que você adoraria ser chamada de gostosa e vadia e levar uns puxões de cabelo, isso é fetiche, isso é um tipo de prática de BDSM, isso é sexo entre adultos que gostam de sexo não muito convencional. Teatralizar/dramatizar uma situação sexual em um ambiente controlado e seguro pode ser muito libertador, se as pessoas envolvidas são adultas, concordam com o que vai acontecer, ninguém mais tem nada a ver com isso. Para ficar mais explícito, mais um exemplo:

Se seu chefe no seu trabalho ameaça te despedir caso recuse fazer sexo com ele = assédio moral e sexual

Se um dia você tem a fantasia de fingir que é uma chefe e combina com sua namorada, dela fingir que é sua secretária. Nesse caso, sua namorada também tem um tesão absurdo em imaginar ela cumprindo tarefas e te fazer gozar = fantasia erótica consentida de uma relação de poder existente na sociedade, mas teatralizada num ambiente seguro, controlado.

Ou seja, tudo depende de contexto. Se você é um homem e adora assediar mulheres, travestis, prostitutas e viados no transporte público, na rua, no trabalho, onde for, você não é um fetichista, você não é um cara cheio de tesão e espertinho, você é um abusador e deve ser responsabilizado pelos crimes que comete. Constranger, ameaçar, humilhar, bater, arranhar, sem o consentimento, é crime, crime de ódio. Vá procurar terapia. Falta de empatia pode levar a sérias consequências como o extremo totalitarismo, o fascismo, a eugenia, se você pensa em cometer crimes de ódio (como o caso da lâmpada na Avenida Paulista ou os homens que espetavam mulheres com seringas no transporte público), vá procurar tratamento. Também, se for do tipo que gosta de estudar, recomendo assistir umas aulas de História, Filosofia e Sociologia, além de claro, aprender a escutar as pessoas que não são apenas do seu círculo social.

Com isso, é preciso tirar o estigma social do ombro das mulheres que tem o prazer em dizer “sou cachorrona mesmo e late que eu vou passar”, todas as mulheres devem ter a integridade física e psicológica resguardada. Se você tem vontade de dar pra seis caras ao mesmo tempo, certifique que eles são mesmo pessoas confiáveis e que irão te respeitar. Use camisinha. Faça sexo seguro. Respeitar a sexualidade das mulheres tão somente se elas fazem sexo depois do casamento, com uma pessoa só, papai-e-mamãe, só pra procriação, é mais do que conservador e cristão ortodoxo. É misógino, é machista, é querer controlar e limitar como, quando e para que a buceta úmida pode ser satisfeita. Se uma mulher vai pra orgia, ela merece respeito. Se ela quer ser chamada de vadia por alguns, não significa que ela quer ouvir de qualquer um. Até que alguém te dê consentimento, você não pode sair enfiando os dedos simplesmente onde deseja. Não ultrapasse limites se não tem intimidade. Não importa o tamanho do shortinho jeans ou de vinil, se a meia é arrastão ou soquete. Não é porque você ouviu dois viados se chamando de bicha que você pode fazer o mesmo. Respeito é de graça e não faz cair o cu da bunda. Caso pense que nos tempos atuais as mulheres são forçadas a dar pra todo mundo sem critério pra “provarem que são empoderadas”, lembre-se que há várias formas de isso se manifestar. Do mesmo modo que algumas mulheres recebem incentivos em alguns contextos para se colocar como vadias orgulhosas, se elas o fazem, são culpabilizadas por toda a violência não consentida que recai nelas

“É um absurdo ter colocado sua honra e sua virtude na força antinatural de sua resistência às inclinações que receberam em muito maior profusão que nós. Essa injustiça de nossos costumes é tanto mais gritante que consentimos de uma só vez enfraquecer as mulheres à força da sedução, para em seguida puni-las por terem cedido a todos os esforços que fazemos para provocar sua queda” (SADE, 2009, pg. 90/91)


II. Prevejo gente falando besteira supondo que mulheres que gostam de sexo não convencional das duas uma A) Passou por violências e tem Síndrome de Estocolmo B) Nunca passaram por violência e ficam romantizando/incentivando abusos.

A) Isso é supor que toda mulher é uma tapada, coitadinha, ingênua, como aquelas mocinhas loiras e peitudas dos filmes de terror, com a roupa toda rasgada fugindo de um monstro enquanto anda cada vez mais na direção dele, dizendo: “Oi, tem alguém aí?”. Pra dizer que a gente é uma tontinha emocional não precisa você, tá? Ser subestimada já faz parte da vida. Entra pra uma Liga Pela Moral E Os Bons Costumes que fará mais sentido levar “a palavra da salvação para quem não enxerga a luz”.

B) Muitas mulheres fetichistas realmente passaram por abusos. Mas isso é um dado geral da sociedade porque vivemos num mundo machista, não é maior a incidência entre fetichistas. Leia menos 50 Tons de Cinza e Contos de Fada, nos quais “pelo poder do amor” as pessoas são “salvas”. Não patologize, nem paternalize fetichistas. Em tempo, 50 Tons é uma relação de abuso, aquilo não é consentido. BDSM é para pessoas adultas com discernimento o suficiente para conhecer os próprios limites tendo pessoas éticas e respeitosas envolvidas. Não é sobre homens adultos e sexualmente experientes abusando da ingenuidade e falta de experiência de mocinhas incautas. É preciso tomar cuidado para não culpabilizar mulheres fetichistas pelos abusos que elas realmente sofrem. Do mesmo modo que uma moça que vai pra orgia não espera que seu vídeo seja divulgado sem consentimento, a fetichista não espera ter que parar na Delegacia da Mulher e escutar do tamanho da saia ou perguntando do porque ela está usando uma coleirinha.


III. Os comentários aqui são moderados. O que quer dizer que se você for desrespeitosa, vou excluir lindamente. Construir diálogo é diferente de ser invasiva, putafóbica, transfóbica, fiscal de genital e de orifício. O feminismo precisa considerar além de belas, recatadas e do lar.


¹ Sexo: Estou chamando de sexo toda interação consentida entre adultos, com plenas capacidade de discernimento, operando com dinâmicas, encenações e objetos para fins de excitação sexual, com ou sem genitais.

Fonte:
SADE, Marquês de. Diálogo entre um padre e um moribundo e outras diatribes e blasfêmias. São Paulo (SP): Iluminuras, 2001.

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