Pinta de modelo – Eu quero a Playboy com mina gorda!

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Minhas parentes tinham várias revistas destinadas ao corpo feminino. Teve uma fase que eu gostava de ler umas Capricho ou Atrevida, o divertido mesmo era buscar referências de sedução e beleza na Nova (acho que agora chama Cosmopolitan). Ali, na prateleira baixa, junto com livros de receitas, trabalhos e livros didáticos (a enciclopédia para consulta ficava no lugar alto, foi ali que aprendi palavras e conceitos interessantes como “os golfinhos são animais inócuos”). Depois de chegar da escola gostava de sentar no chão do corredor, folhear essas revistas e ver aquelas mulheres tão bonitas que me deixavam vidrada por alguma razão, em especial as com cabelões cheios de onda. Por vezes a minha tia que era modelo comprava umas revistas só de super modelos, a primeira vez que vi a Cindy Crawford fiquei encantada, pelo menos a pinta, eu tinha!. Essa tia era alta, magra, cabelinho curto, tinha até um book. É claro que não sonhava em ser modelo quando crescesse, já era bastante realista. Gostava da sensação de ter um sinal pelo qual mesmo que de longe pudesse ser considerada bonita. A busca pessoal por beleza passou por várias fases, metia até a fé no meio. Lembro de orar pedindo pra Deus fazer meu corpo ser bonito pelo menos vestido. Eu devia ter uns nove anos. Até que encontrei a Cindy Crawford e vi que possuía, mesmo que timidamente, um atributo de beleza, a pinta perto da boca. Aos poucos fui encontrando maneiras de descobrir meu corpo e alguma vaidade nele. As organistas da igreja com base nas unhas e escova nos cabelos, com saltão, roupa justa, ficavam faladas e cobiçadas, achavam marido e pretendentes rapidinho (em média, com 16 anos já estavam casadas).

A beleza sempre me pareceu um atributo do qual já se nascia, não parecia um fingimento. Algo impossível de simular. Ou se era, ou não. Em ocasiões especiais a minha vó costurava umas roupas novas, mas a tradição mesmo em casa era receber roupas de doação. Da minha tia pra mim (quando cabia), do meu guarda roupa pra o da minha irmã. Shorts modeladores também passavam da minha mãe, pra mim, eu realmente detestava um bege que tinham umas bolinhas magnéticas que prometiam acelerar queima de gordura, devia ter uns treze anos. Voltando sobre as simulações, toda vez que eu tentava parecer mais bonita ou feminina me sentia um tanto esquisita. Batom acontecia naquelas fotos de escola, de modo forçado. O salto que eu conseguia usar sem me sentir tão ridícula era o plataforma (de madeira, com florzinha talhada). As primeiras depilações foram realizadas por uma parente um tanto rude. Ela improvisava a cera com açúcar e os panos usados eram os retalhos variados de tecido da minha avó. Sentia muita dor. Num desses rituais ela arrancou a pinta do meu rosto pra tirar o buço, sangrou, eu chorei. Passou um tempo, cresceu novamente.

O horror ao meu próprio corpo era tão grande que um dia sem querer chegou uma moça da igreja em casa com a parente citada, entraram no quarto sem avisar. Berrei. Fiquei nervosa. Sentei no chão e chorei até passar. A ideia do corpo abjeto era tão forte que demorei pra deixar meu primeiro namoradinho efetivamente me ver pelada. Tinha dia que deixava ele ver a parte de cima (tronco), tinha dia que eu deixava ver a parte de baixo (buceta/pernas), até que ele me dizendo de muitas maneiras ele realmente gostava do que via/sentia, eu também com o tesão subindo pelas paredes, fiz sexo com penetração sem roupa, consentido, pela primeira vez, aos quase vinte anos de idade. Ou seja, as minhas travas eram imensas. Entre muitos fatores porque mesmo sendo uma jovem bonita (de rosto), ouvi muitas e muitas vezes que meu corpo era feio, desajeitado, “só pagando ou sendo forçado”. Saindo de um ambiente religioso no qual a vaidade e a feminilidade mais assertiva não eram celebrados, caí direto em sites de feminismo radical, aqueles que falavam que maquiagem era imposição. Então ao mesmo tempo que por vezes eu queria muito aprender a achar um batom bonito e usar delineador, parecia que aquelas coisas eram todas não feitas pra mim, minha boca era meio sem graça, se passava rímel esquecia e coçava, ademais,  eram todas imposições, não eram? Então não tinha porque aprender. Meu namorado dizia que ficava lindo batom vermelho nas outras, mas em mim, realmente, ficaria meio destoante. Outro referencial de beleza, dessa vez, de formato corporal foi a Nadia Aboulhosn, conheci na internet.

O tanto de maquiagem que eu usava cabia num estojo: Lápis, rímel incolor e o preto. Conheci moças que não conseguiam sair de casa sem maquiagem. Eu pensava que o meu tanto de beleza era impossível de rebocar, no máximo poderia parecer uma paródia de mulher bonita, como aquelas caricaturas de mulheres feias que fazem nos quadros de humor. Na hora que eu sentia que aquilo realmente era esquisito (a tentativa de me apropriar da maquiagem e adereços muito femininos), jogava tudo fora. Meu primeiro batom vermelho veio em 2012/2013. Comecinho de Unifesp. Comprei uma paleta de vermelhos da Contém 1g. Usei num dia frio. As moças da classe falaram que eu fiquei muito bonita. Achei graça, fui tentando um pouquinho e mais um pouquinho, até hoje ter uma pequena, mas bonita coleção. O batom é um jeito interessante de chamar atenção pra pinta. A maioria das mulheres gordas e bonitas que conheço são aquelas que já tive o prazer de abraçar, ver pessoalmente. As gordas bonitas no papel e na mídia são bem poucas, uns filmes aqui, umas capas ali, mas nada de extraordinário. Em geral elas são as gordas sofridas (Gabourey Sidibe) ou as gordas engraçadas (Rebel Wilson, Cacau Protásio, Fabiana Karla). Atualmente existem modelos gordas que tem relativa projeção, sim, relativa, eu, mulher gorda sei o nome de algumas, mas pergunta pra uma adolescente magra o nome de uma modelo plus size, além da Tess Monster, pra ver se ela sabe. Essa semana o assunto (além da PEC 241 e os demais projetos eugênicos de Temer), é a Playboy finalmente colocar uma moça gorda na publicação, Ju Romano. É claro que a moça lindíssima é branca, com proporções que nem toda mina gorda tem, mas tô curiosa pra ver como é. Como é comprar uma revista na qual o corpo de uma mulher gorda é o destaque, quero saber como é ver braços roliços, barriga positiva em destaque máximo. Se isso é empoderamento? Talvez sim, talvez não. Nem toda mina gorda tem o dever de se colocar 100% do tempo. Tudo bem querer se sentir gostosa, maravilhosa, linda pra caralho, ainda mais se essa possibilidade é constantemente proibida. Nem toda existência de resistência é imediatamente panfletária.

Para quem acredita em apologia da gordura (pausa pra não rir), um exercício interessante que você pode fazer é andar com um caderninho por duas semanas e anotar todas as vezes que encontra um anúncio emagrecedor. Cada panfletinho de Herbalife, cada vez que passar em banca de jornal e ver matéria, cada vez que alguém elogia alguém que emagrece mas nunca alguém que engorda. Repara bem nas histórias de quem tem ou teve distúrbios alimentares e preste atenção como mesmo doentes, com anemia, fracas, elas receberam elogios pelo emagrecimento. Não querem corpos ativos. Querem é corpos que pareçam magros e jovens, mesmo se entupidos de remédios ou bebida. Eu quero é mina gorda escrevendo, dançando, posando, com sorriso largo. Ju Romano e qualquer gorda que se coloque como uma mulher bonita com exposição do corpo vai ouvir xingamento de outras gordas, algumas feministas a chamando de marionete do patriarcado, crentes, conservadores, gordofóbicos em geral, indústria cosmética e da moda. Eu quero ver o que há de bonito num papel pra folhear, sorrir pelo corpo gordo, mesmo que nesse lapso histórico, quero presenciar além do corpo doente dado como única leitura para dobrinhas, gorduras, celulites e tudo o que faz o corpo gordo ser uma expressão de beleza e vitalidade.

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Um comentário sobre “Pinta de modelo – Eu quero a Playboy com mina gorda!

  1. Quando minha amiga me marcou no post desse texto (http://juromano.com/comportamento/pela-primeira-vez-vai-ter-uma-gorda-na-playboy-com-gordurinhas-e-celulite-o) ontem, rapidamente fui ler.

    Ao ler o texto, logo deparei com isso (comentário de uma das amigas da Ju Romano): “Não sei por que você achou graça, Ju. Eu fico pensando que se eu tivesse visto uma representação da gorda como uma mulher sexy, em revistas ou em seriados, talvez eu tivesse tido menos problemas com o meu corpo, talvez eu tivesse me sentido mais sensual e mais confiante na hora do sexo, na hora de tirar a roupa e até na frente do espelho…”.

    E entendi perfeitamente…

    O que fazem com TODAS as mulheres desde cedo é uma tortura psicológica absurda. Com as meninas fora do padrão, então! Nem se fala… e nem se fala mesmo, porque é tabu.

    Me inspira ler textos de gente que aprendeu/está aprendendo se amar. Fico feliz por elas, e me dá um start, pra fazer o mesmo por mim. Portanto, obrigada por suas palavras. ❤

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