Tentando ser lamparina (ou seria vagalume?)

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Desde menina tenho esse gênio. Um gênero de calma, dedicação, paciência e detalhamento. Podia observar miudezas por horas, buscava bichinhos em jardins, entretida com o que era considerado pouco pelos adultos. Lido como simples. A minha mãe oferecia a opção dos bolos mais deliciosos com cobertura com chocolate, do que é que você quer, ela dizia. Respondia de bate pronto, bolo de bolo, ela um pouquinho chateada emendava se eu não queria mais, com mais cobertura, um granulado, talvez. Enfática, respondia que bolo de bolo. Isso é, um bolo sem cobertura, nem recheio. A paciência e tempo desacelerado continuou nas tarefas escolares, na elaboração das primeiras comidas (a água que eu servia para familiares era com uma rodela de limão na borda do copo), em tudo, fazia questão de que ao receber a minha presença, soubessem o quão especiais eram, o quanto os amava. Esse gênero de calma, dedicação, paciência e detalhamento. Hoje dancei o último módulo básico da Dança do Ventre, a professora elogiou a criatividade. Reparou e muito bem, em como meu corpo por vezes não acelera no compasso da música, isso é, meu estilo de dança é suave, lento, para sentir a música de outro modo, sugeriu tentar uma acelerada nos passos se a música exige. Ainda sobre acelerações, dada a nova rotina no novo emprego (tenho hora para entrar, não muito para sair – inclusive nos finais de semana), fez com que eu tomasse a decisão de encerrar a Dança do Ventre. Tal modalidade exige um comprometimento com estudos, ensaios e tudo o mais, inatingíveis nesse novo momento. Vou procurar algo novo, possibilitando o que raramente tive empenho em explorar enquanto potência corporal: A força e a agilidade, o fluxo da raiva. Sei que sou forte, ágil, é difícil saber. Em alguns contextos familiares e escolares, no olho crítico de um médico gordofóbico é comum lerem meus modos como alguém lerda. Eis uma ofensa que me irrita profundamente, seja dos tempos de menina, seja enquanto mulher adulta, crescida e mais independente: Lerda. Ser processual e tentar ter o auto-controle, foi o modo que o meu corpo encontrou de ser maduro, de protestar, de mostrar como se faz, fazer melhor, dar o exemplo. Já presenciei muitas pessoas em situações de descontrole e minha reação ao ver alguém perdendo a cabeça é a) Apaziguar b) Se a pessoa não se acalma, partir e deixar ela nervosa sozinha.

A teimosia, a insistência e a petulância também são traços desse gênio calmo, dedicado, paciente, detalhado. Um menino o qual educo disse semana passada “Você nunca fica brava comigo, nunca. Ele não sabe que foram raríssimas as vezes que perdi realmente a cabeça, deixei a raiva me dominar. Sexta-feira, em meio ao caos de doze crianças de idades diferentes, agitadíssimas, gritando, batendo pandeiros e flautas, passou a minha supervisora pela janela e perguntou se estava tudo bem. Eu estava sozinha com a minha turma, mais dois irmãos mais velhos de duas dessas crianças. Acenei com o semblante calmo que tudo estava certo. Assim também me comportei em muitos momentos de stress elevado, más notícias, acompanhar pessoas vítima de violência, mediar conflitos entre pessoas coléricas. Respiro fundo e digo, tudo bem. Tudo vai ficar bem. Já acalmei crianças agitadíssimas com saudade da mãe e em prantos, assim. Calma, abraçando, acolhendo. Tudo vai ficar bem. “Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, nenhuma espada corta”. Essa resiliência me mantém, literalmente viva, persistindo. Sei que é meu tipo de força, meu tipo de agilidade. Como no dia em que o mesmo menino se recusava a comer melancia dado que ela possui uns pequenos fiapos amarelados, estendi meu braço e mostrei as minhas veias, ele disse que as dele eram roxas, as minhas azuis, concordei. Contei a ele que assim como as pessoas possuem veias, a melancia também contém as delas e não existem melancias sem pequenos fiapos amareladinhos. Ele entendeu. E comeu a melancia. E todas as outras crianças mostraram suas próprias veias e comeram melancias juntas. A sagacidade é um tipo de agilidade, de linguagem, de inteligência, é a minha estratégia. Não é no grito, não é na cólera. Noutro dia, brinquei de pega-pega com a turma, consegui desviar algumas vezes, um menino me contou “- Nossa, Deborah, você já está ficando craque!”. E é nesse tipo de craque em que desejo aprimorar. Quem brinca junto, quem mesmo no caos, na birra, no grito, tenta entender o que há por trás daquela emoção, observar a ranhura de uma folha curiosa como fazia de menina entre canteiros de jardim, ávida igualmente enquanto pesquisadora universitária capaz de escrever centenas de páginas. Por ora, desejo reinventar um novo tipo de força e agilidade, não para que me validem como sujeito de destrezas corporais, mas, para provar para meu próprio corpo que ele pode desbloquear diferentes movimentos e saberes.

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