Você prefere ser gostosa ou inteligente?

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Essa semana a imagem acima tomou as redes sociais. Nela, uma figura feminina bronzeada, de cabelos platinados, salto com amarrações e peitos grandes caminha toda garota. Em sequência, uma figura feminina de saia até o joelho, mini-blusa e brinco grande se espanta ao ver um livro no chão, a terceira imagem é de uma mulher de cabelo castanho claro e solto, mini-blusa e salto, examinando a capa. Na penúltima ilustração,  uma moça com jeans, tênis, rabo de cabalo, lê o livro, e por fim, uma figura feminina de legging, botas de cano médio, coque com cabelo castanho escuro, blusa de manga comprida e livro fechado na mão. A imagem foi apelativa para públicos diversos por muitas razões dado o modo em que ela disposta (linha contínua de transformação), pode aludir as representações da Teoria da Evolução de Darwin (não o irmão do Gumball, aquele outro, o barbudão que falava de seleção natural). A maior parte dos leitores dessa imagem são levados a intuir que se trata de uma evolução, uma melhoria progressiva, em etapas e estágios classificatórios. Somados a esse dado em nossa sociedade há uma separação entre mente e corpo (cabeça e o “resto”), sendo o primeiro de maior importância em detrimento do segundo. Ao feminino, é mais importante ser recatada e inteligente (mas não muito, senão te chamam de frígida e petulante espanta-marido). Quem já leu revistas femininas sabe o quanto o sexy sem ser vulgar é a corda bamba desejada pelos homens, invejada pelas mulheres e ainda ser um modelo, um fio difícil de estabilizar. Em caso de desequilíbrio e queda a mulher é levada ao lugar de temor e mudam as posições: desejada pelos homens no privado e hostilizada por todos, não importa onde esteja já que é uma vadia. Nessa linha de raciocínio dual tanto faz ser um livro secular ou religioso, a prisão do corpo libera o espírito, é o que dizem tanto os ortodoxos do saber acadêmico, científico, quanto os líderes religiosos em seus púlpitos e altares.

Para que um leitura ocorra é preciso considerar os caminhos e raciocínios que o leitor fez para chegar até ali. Isso significa a trajetória pessoal desse leitor, o que mexe com os brios, imaginação, o que desperta raiva e desejo, em que meio ele encontrou aquela produção, quais os referenciais dele acerca do tema, seus conhecimentos prévios da área, se ele conhece a disposição espacial daquelas informações, etc. Por exemplo, como já li receitas, mesmo se eu encontrar em um idioma novo mantida a formatação tradicional, isso é, uma foto de algo que parece comestível, duas partes, uma listada (ingredientes), outra com texto corrido (modo de preparo), entenderei que aquilo é uma espécie de receita, assim funciona para qualquer leitura. No caso dessa receita fictícia, mesmo se eu arrancar a folha e mostrar para outra pessoa aleatória na rua perguntando o que ela acha que é, ela dirá, muito provavelmente, se tratar de uma receita culinária. Porém, arrancar a imagem acima do contexto original de produção e espalhar nas redes sociais, gera muito mais respostas e reações diferenciadas, uma vez que dá bastante prazer expressar o que nós pensamos a respeito de um assunto. A gente ama palpitar nas mesas de bar, na igreja, na faculdade, se o assunto está na moda então, aí que a gente corre pra não ficar de fora. As pessoas gostam de saber que suas opiniões são consideradas relevantes, as redes sociais impulsionam esse comportamento apressado, gerando cobranças inclusive, Como é que você ainda não falou sobre a tragédia tal? A polêmica da semana? E dá-lhe textão. Os que reclamam que só falam a mesma coisa, quem reclama de quem não reclama, quem reclama de que a vida devia ser mais simples, quem reclama que na verdade as coisas são complexas e os outros que são alienados e por aí vai.

Voltando a imagem principal, da loira sem livro até a morena com livro, qual seu contexto e fonte? Sortimid é uma conta do DeviantArt, a página divulga o trabalho de artistas independentes com suas galerias e espaço para texto. É utilizada por ilustradores, desenhistas, coloristas…Sortmid produz conteúdo com apelo sexual e entre os temas preferidos estão os fetiches e transformações, tais como crossdressing (homens vestidos de mulher) e bimbofication (encarnar o esteriótipo da patricinha burra e fútil). Essas transformações passam não apenas pela montagem do personagem, mas uma mudança de voz, atitude, postura. A feminização extrema como jogo também pode ser realizada por mulheres, o álbum Primadonna da Marina and the Diamonds, é excelente nesse sentido (Bubblegum Bitch é uma das faixas que mais gosto). Pois bem, alguém sugeriu ao Sortimid ilustrar o processo inverso, ele criou.

Ou seja, é uma representação de um jogo interpretativo, em inglês, um role play. Esse tipo de jogo pode ou não, envolver mais pessoas. Há quem tenha tesão de ser “forçado” a feminizar, quem busque montagem sozinho e em segredo, outros se exibem na rede, há quem se solte só para o companheiro ou companheira, enquanto outros fazem questão de sair montadas. Depois de três ou mais horas de montagem incluindo depilação completa, faz bastante sentido existir um desejo de exibição na sequência. O que era uma produção de nicho, clandestina (o meio fetichista com suas terminações em inglês e modos de ser pouco óbvios), abre margem para leituras precipitadas, reducionistas, moralistas, conservadoras. O Crossdressing (CD) é uma prática recorrente entre homens casados,  os quais frequentemente escondem a vida dupla de suas esposas e companheiras com medo do abandono, rejeição e exclusão social. Já pensou o que o pessoal da firma faria ao descobrir que o cara que eles bebem cerveja no final do expediente curte colocar um saltão, roupa curta e sonha em tomar banho de porra ou ser enrabado por uma mulher dominante?! Tais práticas e fetiches podem surgir em pessoas que não tem qualquer interesse em estudos Queer, inclusive em transfóbicos, conservadores, ou apenas gente com tesão em vestir a calcinha da esposa, marcar encontro em salas de bate-papo da madrugada para saciar o desejo pontual e voltar ao lar cristão e de bem. Assim, é preciso considerar não apenas o que foi produzido (a ilustração), mas as leituras e leitores que essa produção afetou, o que essas repercussões dizem sobre como lidamos com o corpo, o espírito, o desejo, o público, o privado, feminilidades e masculinidades.

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Artigo Buzzfeed explica a repercussão da ilustração (em inglês)

Programa – A Liga apresenta o universo Crossdressing (entrevistam uma CD que é hétero e curte futebol)

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