18 de carisma

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Domando a cobra e mostrando o pau

Na última sessão de terapia, Renata, a estimada profissional, labutou por volta das vinte e uma horas e trinta e dois minutos, a torrente de pensamentos desordenados que escorriam de minha boca, criando linhas e rotas de fuga por entre as bibocas no asfalto esburacado chamado memória. Qual a surpresa em tropeçar pela enésima vez no mesmo paralelepípedo, meu carisma. Um grande amigo (e ex namorado)  de notável sensibilidade já acenava, há tempos, o que entrava e saia de minhas orelhas dispersas: sabe aquele pessoal que você conheceu naquele dia lá, em minutinhos? Eles ainda lembram de você. Minha progenitora, cheia de saber, e eu, filha, cheia de ahãm, mãe, tá bom, você me acha linda porque sou seu filhote, dei de ombros. Meu pai, contando do amigo dele após me ver rodopiando Morrissey, “Sua filha que dança Smiths! Traz ela! ”.  O fotógrafo do casamento do meu primo, pelas palavras da amiga da família “Você abriu a pista, ele está apaixonado, não para de tirar fotos tuas”. O bebê de fraldas que conta para a mãe dele que dança somente comigo e só quer comer a maçã que eu corto, o detalhe é que só fico com esse bebê no final do dia, e ele lembra com carinho tudo o que fazemos nessa curta duração (certa vez precisei sair da sala e ele chorou, chamando meu nome). Crianças ditas insuportáveis ou geniosas são as que se acalmam, entram em acordo. Esse mel todo não funciona sempre, é claro, tenho meus tempos de azedume, rancor e farpas, tais pormenores e defeitos ficam para outras tantas ocasiões humanamente acessíveis, como exemplo, minha tpm e o ódio profundo por meias molhadas dentro de um sapato fechado, mas imagino, isso não interessa a você e nesse instante, careço tornar esses entraves detalhes menores.

Continuando… estava eu naquele consultório de cheiro reconfortante, segurando meu chá de hortelã com gengibre, dando tempo para Renata pensar, de olhos fechados e iniciar a sua mágica. Falando, falando. As habilidades sociais, a desconfiança em ambientes coletivos, as pequenas conquistas, como ir num bar ou algo similar com colegas de trabalho, numa sexta-feira. Esse fato ordinário inédito, colossal nas proporções que incuti, por supor, escaldada, repudiarem de imediato a presença de meu corpo. Se assim faço, me fecho. Sento separada, vou ao fundo da foto, me escondo, espanto não receber ojeriza, reprovação. Mas vejam só, os tomates podres, não estão aqui. Porque a vida não é o filme de terror adolescente ao qual acostumei protagonizar. Não sou o chiclete grudado no banco, desses que esbarram sem querer e buscam desesperadamente limpar passando as costas da mão na calça. Eu sou e posso ser, a pessoa que entra nos espaços e faz as cabeças girarem e cochichar, não por escárnio (e se for, foda-se), mas de vontade de aproximação e conhecer melhor. Meu coração é feito relógio de bolso, raro e quebrantado, restaurado com muito custo. Lindo de doer, corrente dourada, pedrinhas coletadas e pouco costume aos raios de sol por medo de roubo ou extravio. Se me solto, ele escapa as bordas e ricocheteia o reflexo nos olhos alheios, curiosos em desvendar mais. É o paralelepípedo cravejado de safiras, nessa rua, nessa rua toda minha, ladrilhada com pedrinhas as quais já não quero mais ignorar.

Esse post foi escrito ao som de D.A.N.C.E – Justice

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