A raiva é outro tipo de parto (ou, amanhã é 31)

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Amanhã, precisamente, ás 7:35, faz 31 anos. Prematura, dois meses de adianto. Era o tempo por direito, parto expulsivo, é o que dizem. Minha mãe fazendo força pra eu ficar (medo de sair com alguma má formação), eu forçando pra sair. Pulei, caí no mundo. Quero dizer, incubadora por uns tempos até ficar forte pra sair de vez (única época em que direcionavam suas preces a meu ganho de peso). Cresci. Muito. Tanto. Fiquei “bitela” como diz minha avó. Adolescente tradicional; não compreendi muito a expansão de um corpo orgânico, me comparava com as outras meninas, menores, sem tantas marcas e estrias e outras sequelas, um corpo germinado e repouso de histórias… corpos Outros, que no meu entendimento, encaixavam melhor, eram mais bem torneados e acabados. Foram-se os anos, neles, a raiva cozinhada em banho maria. Até os trinta e quase um me brindarem com a fúria. Pernas que não se sustentam, voz embargada de ódio, mãos que silvam anunciando a descarga necessária. Deus, o todo-fodelão do Universo perdeu a cabeça e mandou um dilúvio. Jesus desceu o sarrafo com o chicote na mão por misturarem capitalismo e fé. E eu, tão divinamente diabólica quanto a humanidade pode ser, tentando segurar essa barra que é não tilintar de raiva. Nem sempre a vida e o coração são leves, às vezes para entrar nos trilhos é preciso descarrilar. E não mais, julgar esse o pé inicial da loucura e do descontrole, do desamparo e ostracismo, do “caralho, eu sou muito pesada e difícil, ninguém vai saber lidar comigo”. Por vezes, o peso, o vacilo, serão dos Outros e do mesmo modo que minha compaixão se estende a esses, assim também o é admitindo limites e fraquezas. Não dá pra ser empática de verdade se ao me colocar no lugar do Outro, o sentido d’Outro tem muito mais valia. Isso é, se no descontrole de A, eu enquanto B o respeito, merda nenhuma vale quando a mancada é minha achar que tudo está perdido e o desamor (inclusive o próprio) evaporar. Há muito deslize, onde quer se olhe. Raiva, amor, todos os afetos, tem de baciada e não dá pra distribuir mais do mesmo nos mesmos lugares, num empapuçar tedioso e sufocante. Ninguém merece uma medalha por permanecer na adversidade ao lado dos seus, cada um sabe o caroço da fruta que chupa e o quanto de polpa se extraí. Se ainda vale a pena ou não. E isso vale para si. O cultivo e extrato da polpa de dentro, em geral, só se quer admitir as boas safras e esquece a maturação, o amargor, os bichinhos e pragas, o cuidado com o solo e as intempéries do tempo. Pois bem, há luz na escuridão, amigos, ela é atraente, quente, fulgaz, um sinal de fumaça que não pode ser ignorado. Amanhã é 31, mas peço a licença poética que seja hoje.

The fire walk with me…

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2 comentários sobre “A raiva é outro tipo de parto (ou, amanhã é 31)

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