Gorda menor é uma ova! Bite my shiny metal ass!

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“Menor” é o meu vestido

Caminhava na faixa de pedestre do bairro dos Pimentas, fui buscar meu diploma, na UNIFESP e o semáforo dos pedestres fechou na medida em que me aproximava da calçada. Um motorista apressado, colocou a cabeça para fora da janela e gritou “Sai da rua, leitoa!”. Em choque, continuei caminhando fingindo que nada havia acontecido. Essa não é a primeira vez que um total desconhecido faz referência a uma criatura não-humana para me xingar. Esse verme misógino deve ter uma existência bem miserável, não me espantaria se fosse desses que se acabam na punheta por mulheres gordas, confusos e com vergonha do próprio desejo (escrevi sobre isso em 2013 – O (raivoso) admirador secreto e a indiscrição). Há quem diga que existe uma diferenciação entre gordofobia e pressão estética, o primeiro diz respeito a barreira de direitos que existem para que pessoas gordas ocupem o lugar público, as catracas são estreitas, as roupas que não se encontram nem em araras plus size. Pressão estética seria a coerção para o enquadramento, a qual, atinge invariavelmente a maioria de nós que não trabalhamos como modelos. Desse modo, consideram duas categorias, gordas maiores e gordas menores. Gordas maiores seriam aquelas com o formato e biotipo mais odiado, as que encontrariam no direito de ir e vir, construir relações afetivas e demais interações sociais os maiores entraves. Gordas menores são as que não se preocupam se a cadeira dará para o peso, com corpo em formato ampulheta, podem ser suicide girls, modelos plus size e etc. Não é uma leitura de toda errada, mas seria mais acertado dizer que existem gordas mais ou menos assimiladas. As mais assimiladas seriam a de corpo curvilíneo, barriga menor que o peito, bundão na nuca, rosto de boneca e assim por diante, ou seja, as que encontram algum tipo de representação mesmo se pouca e em nichos de mercado. Tem mais a ver com assimilação dos padrões de beleza, se ela é uma versão aumentada do padrão da gostosona ela é assimilável, tem a ver com forma. E as pessoas tem tanto medo de assumir que uma gorda é bonita, ficam tão perdidas, que necessitam rapidamente fazer comparações tais como Flúvia Lacerda é Gisele Bündchen Plus Size, Mayara Russi é a Ana Paula Arósio GG . Elas sentem que precisam de um paralelo com algo vendável e bonito para a maioria.

Não faz sentido na minha cabeça que uma ~gorda menor~ não sofra gordofobia. Ju Romano, uma blogueira, saiu na Playboy, no recheio, não na capa, com um bíquini grandão, muita gente caiu matando falando que ela incentivava as pessoas a ficarem doentes. A Flúvia Lacerda saiu na capa de uma ~edição especial~ da mesma revista, detalhe, não sairá nas bancas, você compra pra bater uma online mesmo, escondida, para os brothers não tirarem sarro de você bater uma pra mulher gorda. Flúvia, mulherão da porra, com um corpo incrível e uma bunda linda saiu com foto de rosto, na capa. Isso mesmo, uma playboy com close de rosto…Flúvia usa manequim 48, Ju Romano, 50, Preta Gil, 44. Aparentemente, eu sou maior que essas mulheres, uma vez que uso calças tamanho 52. É óbvio que há diferenças gritantes no tratamento entre uma gorda mais ou menos assimilada, só que diferenciar o grau de gordofobia simplesmente dizendo que ~gordas menores~ não sofrem gordofobia é silenciar as violências gordofóbicas que essas passam. Previsão agourenta de médico com base em aparência (não tem nada agora, que você é nova…), patologização do corpo gordo, xingamento desumanizante (leitoa, porca, baleia), toda a experiência de infância e adolescência sendo tratada como “a gorda” do rolê, com gente falando que vai pagar para te beijarem a força, me diz aí, se não é gordofobia, o que raios é? Noto também que conforme se alcança algum tipo de status e reconhecimento, ser gorda é atenuado ou até mesmo apagado por determinados grupos sociais. Na faculdade, mesmo reclamando daquelas malditas cadeiras me machucarem todo santo dia e eu ter de contorcer inteira para levantar e sair delas, ninguém nunca tirou com a minha cara lá por ser gorda. Quer dizer, teve só a vez que uma mina feminista no bandejão disse que gostava de minas gordas mais como a mina que estava do meu lado, manequim 44, do que eu (?!), ou o otário daquele moleque ruivo que me convidou para ir na Augusta com ele para beber e fingir que não ficaríamos (segundo ele, essa era a parte boa de beber?!), enfim, no geral, as pessoas aparentemente focavam em outros aspectos, como eu ser a aluna que lia 98% do que os professores exigiam e bastante participativa. Enfim, notei que conforme fui me afirmando como alguém mais assertiva, em determinados meios, na maior parte do tempo, eu era mais do que “a gorda”. Por essa razão, por vezes eu esqueço que para os outros essa é uma questão é tão importante, sou lembrada em dias como hoje por um zé povinho aleatório que vê a superfície (bonita, macia e cheirosa, aliás), reduzindo o que sou em uma das variadas características que meu corpo demonstra.

Já não sei mais o que guardar

Sou uma acumuladora. De pensamentos, de passado, de tormentos. Mesmo sem estar tão pronta a vida me ensinou sem as palavras o que era ter medo, o que ninguém mais poderia saber. E o que me dói é que esse e tantos segredos, habitam em mim. E eu não sei mais guardar. Resguardei tanto pra proteger o máximo possível quem estava perto. Não quero que ninguém seja dano colateral da minha dor. Não gosto de ser privada e íntima porque esse sempre foi o meu lugar reservado. Do silêncio. Do não poder contar pra ninguém, nem com ninguém. Devo guardar essas dores só pra minha terapeuta? E nem mais uma viva alma? Voltei a desenhar e as palavras secaram (ao contrário dos olhos, vertendo lágrimas cada vez mais pesadas as quais nem entendo direito). O segredo é o que eu sou. Se eu contar, se eu mostrar, vou ter de arcar. Com o sentimento de fraude, culpa, remorso, raiva, desconfiança e desamor.

Why did you give me so much desire?
Por que você me deu tanto desejo?
When there is nowhere I can go
Quando não há onde eu possa ir
To offload this desire?
Para descarregar esse desejo?
And why did you give me so much love
E porque você me deu tanto amor
In a loveless world.
Num mundo sem amor
When there is no one I can turn to
No qual não há alguém com o qual eu tornar
To unlock all this love?
Liberar todo esse amor?

Pois bem, agora há tanto para liberar o afeto do desejo, quanto os demais. Se só podemos dar o que nos tem sem faltar a nossa própria reserva e subsistência, em dias como hoje e ontem eu queria um pouco mais de sabedoria e firmeza para lidar com o embate corpo adentro. Direcionar bons conselhos de amiga, ser meu próprio ombro. Lembrar do incentivo alheio se a pressão for tanta e rir aliviada, ao lembrar das palavras da terapeuta: “Até agora, eu não tive a notícia de ninguém que explodiu”. Não importa o quanto meu sangue ferva e se dissolva em suor ou lágrimas, o quanto ainda não entendo. Posso respirar e deixar fluir. Ninguém morre de explosão. E ao menos agora não estou mais (tão) sozinha.

2016, o ano de limpar os caroços para comer a fruta

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Coração de melão

Deixei o cabelo crescer, comecei namoro, terminei namoro (e descobri que manter contato com ex é algo possível, embora, inédito na minha vida afetiva). Comecei amizade, terminei amizade. Fui chamada pra palestrar em universidade pública. Terminei um módulo de Dança do Ventre. Equilibrei uma espada na cabeça. Dei em cima das pessoas e o mais chocante de tudo, elas deram em cima de mim. As avaliadoras da banca da minha monografia foram unânimes, 10, 10, 10. “Excelente mesmo!”, “Tem gente no mestrado que não escreve assim, não é maduro assim”. Li alguns livros. Fui ao cinema algumas vezes. Viajei de avião para viver uma aventura e acabei encontrando um grandessíssimo amor, desses que em nada eclipsam minhas forças, sonhos e afetos, em verdade, só me faz maior.

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Gatinho, você é uma das melhores coisas que já aconteceram e eu te amo, precisava dizer. E tô com saudade. E quero te encher de beijinhos

 Tei, mesmo de longe você é e sempre será uma inspiração, é lindo ver o quanto você avança, you go, girl! 

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Cuidei de muita gente, muita gente cuidou de mim. Chorei até pingar lágrima do cabelo. Entristeci diante de todos. Reergui e consegui orgasmos mais intensos, de corpo todo. Escrevi carta, recebi mimos e lindezas. Voltei a desenhar. Comecei uma terapia com alguém respeitosa e profissional, a qual escuta de verdade. Aprendi a fazer olho com delineado de gatinho. Aprendi a usar primer, corretivo, base e pó. Uso protetor solar e sou apaixonada por passar tônico na pele antes de dormir. Emagreci e engordei. Estou lendo os mangás de Sailor Moon. Me aproximei mais da minha família. Mudou a minha forma de sonhar (agora sonho em primeira pessoa e não preciso mais ficar salvando as pessoas o tempo todo). Percebi que o Facebook é o maior rouba brisa, geral só compartilha desgraça e bad, desconfiança e desamor. Desativei a conta. Estou procurando mecanismos para manter a minha ansiedade e crises dissociativas/disfóricas em controle. Estou aprendendo que o choro pode ser um gesto regulador importante pra minha saúde psíquica. Buscando mais contato humano, ao mesmo tempo prezando e muito meus momentos de introspecção e auto-cuidado. Distribuí currículos. Tenho tentado viver mais o presente sem ser sugada para o passado ou aflita pelo que virá. Tenho sentido mais, me explicado menos.  2017 hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.

Saudade de mais de um

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Deixa contar um segredinho: Quando você ama mais de uma pessoa ao mesmo tempo os afetos e saudades são insubstituíveis. Eu posso ter me encontrado com vários amigos, afetos, vivido várias coisas bacanas durante a semana, mas deixei de ver uma pessoa específica que eu gosto muito, muito mesmo, que eu amo profundamente. Essa saudade vai ficar. E às vezes dá até uma raivinha de aaaaaaahhhh porque você não está aqui, eu quero demais você!1111 Mas amar mais de uma pessoa também tem dessas. Tem tempos, tem épocas. Tem época que por trabalho ou demais coisas da vida não consigo ver um, não consigo ver outro. E vida segue. É uma prática de respirar fundo e entender que não pertenço a ninguém e ninguém me pertence. Cada um protagonista da própria história. E quando se encontra tem romance, tem amor, tem cuidado, tem amorzinho. E longe, mesmo longe, tem áudio mandado, tem “Como foi seu dia? Boa tarde, mozão, Bom dia, mozão”. Um monte de emoji. Meu coração é um brinquedo de encaixar, não adianta tentar colocar estrela no lugar do quadrado, não vai entrar, não vai dar certo. E uma vez que entra, ainda fica o vazio, lá, só cai a peça pra dentro. Porque saudade não é coisa que se sacia de uma vez só. Levanta a caixa, pega as peças novamente, encaixa, encaixa, encaixa. E a peça só entra se ela também quiser entrar em mim. Se ela não quiser, eu que vou ter de lidar com minhas expectativas, vazios, lacunas. O amor não correspondido é o auto-engano que eu fiz sem perceber. É jogar parafusos no buraco, peças menores, depois levantar e ver que ó, ó o que eu fiz sozinha, achei que recebia amor e não era, era só eu tentando preencher esses vazios. No entanto, o amor correspondido, aquela pecinha que desliza devagar e gostoso pra dentro, ah, essa eu quero sempre repetir. O desejo recíproco também funciona assim. Deslizando e entrando, às vezes mais gostoso pra um do que pra outro. Mas quando os dois gostam do encaixe e do deslizar, ah, aí vem a saudade…de peito, de corpo, de coração, de pica, do nome que derem. Eu gosto de sentir saudade, de corpo todo, de emoção inteira. Com espaço, com lacuna, pra eu ser eu mesma, pra você ser quem você é, pra eu te esperar, aberta.

Repita comigo: Você não sabe lidar com crianças, você não odeia crianças

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Toda garota com bolsa da Hello Kitty, saindo pro rolê

Crianças são uma categoria social de extrema vulnerabilidade. Se preferir, uma minoria. Crianças são sistematicamente abusadas por familiares, amigos de familiares, vizinhos, líderes religiosos, professores. Moralmente, fisicamente, sexualmente. Todos os dias as pessoas não respeitam as dores, os medos, as denúncias, as trajetórias dos pequenos. Você dizer que odeia crianças mostra como você é uma pessoa preconceituosa e higienizada. Quem diz que só não se incomoda com criança quietinha (de corpo e de linguagem), não suporta conviver com pessoas. Que questionam, que quebram o silêncio e o decoro. Você pode não saber lidar com elas. Isso é problema teu. Elas não precisam da sua permissão pra existir. As crianças e bebês não serão cidadãs, indivíduos, sujeitos. Elas já são. E tem o direito de ocupar o espaço público tanto quanto você. Você não sabe lidar. Odiar e não gostar é um eufemismo das suas limitações e preconceito.

“Empoderamento” tá na boca do povo

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Confira aqui o vídeo

Se faz necessário pontuar os limites da representatividade. Ela não é por si sempre benéfica, bastando colocar alguém extraído de uma minoria. Marcela Temer, Sara Winter, Rachel Sheherazade são mulheres e vão de encontro com um monte de pautas que causam diariamente a morte de mulheres pobres e não-brancas, como é o caso do direito ao aborto legal. Reconhecendo esses limites, importantes e necessários, não compreendo porque o alarde na popularização de termos como “empoderamento”, por exemplo. Tudo o que o capital puder apropriar, ele vai, se sair histórias para crianças pequenas com personagens com dois pais, duas mães, com crianças não-brancas como protagonistas e isso vender, é isso que vai acontecer. É um risco que se corre quando uma palavra é popularizada, ela pode ser torcida e readaptada em roupagens mais palatáveis, mais vendáveis. Assim como eu posso me apropriar do xingamento de gorda para dar novos sentidos a esse rótulo, “o lado de lá” também pode tentar perverter o uso das palavras gestadas no berço das militâncias e movimentos sociais. A luta também é discursiva, “colocar a cara no sol” é também saber que tornar-se visível não é o último estágio e passo. “Não começa nem termina é nunca é sempre”. É nessa crescente realizada principalmente pelas feministas que músicas incríveis como “100% feminista” da MC Carol & Karol Conka (produção do popular  Tropkillaz), podem ganhar corpo e existir com a devida e merecida projeção. Nem toda resistência é underground. Nem toda criação e expressão pra ser genuína precisa ter som e aparência suja, trevosa. As feministas e o discurso feminista não podem se expressar apenas em dois ou três tipos de espaços e numa paleta de poucas linguagens. Eles devem ocupar todos os espaços. Em vários formatos. E seguir. Palavra é como filho, a gente não cria pra si, cria pro mundo.

 

Feliz dia para todas as crianças

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Inclusive para aquelas que os adultos não deixam ser criança. Aquelas que não podem ralar joelho, amassar a roupa, bezuntadas de àlcool gel. Feliz dia das crianças pra quem já tem agenda com tênis, inglês, natação, balé e esgrima. Feliz dia para as que tem que aguentar adultos e outras crianças a humilhando por ser gorda, não deixando comer o que quer, reclamando que não se movimenta, mas se resolve se movimentar vira motivo de piada porque o corpo balança ou se cai ganha mais apelido ainda. Feliz dia para as crianças negras que passam por racismo desde nenéns, desconhecendo a estrutura do próprio fio do cabelo, não encontrando boneca, boneco, princesa, rainha que pareça com elas. Feliz dias das crianças não brancas que por serem lidas como orientais esperam a super inteligência e todo estereótipo possível. Feliz dia das crianças presas no condomínio crescendo com medo do mundo. Feliz dia das crianças indígenas que são muito além daquele patético cocar feito de sulfite pelas professoras da Educação Infantil.  Feliz dia das crianças que são hostilizadas por usarem contas enquanto os colegas católicos podem usar seus crucifixos em paz. Feliz dia das crianças para as pequenas que são autistas largadas na escola pública com um estagiário de Pedagogia, tendo de lidar com uma sala mista de todos os alunos que ninguém sabe educar, o esquisofrênico, o que te DDA, o surdo, o com motricidade comprometida. Feliz dia das crianças para as crianças que sobrevivem aos pais abusivos e parentes agressivos. Feliz dia das crianças para os meninos e meninas que não se encaixam no que esperam de um menino e de uma menina. Feliz dia das crianças para as meninas que gostam de lutinha, bola, monstros, carrinhos. Feliz dia das crianças para os meninos que brincam de boneca, colocam camiseta na cabeça pra imitar cabelo grande, vestem os sapatos de salto da mãe. Feliz dia das crianças que continuam desenhando e escrevendo mesmo os professores falando que elas não fazem isso direito. Feliz dia das crianças para todas as crianças inclusive as que vão nascer logo e terão que usar sabe-se lá que escolas e sabe-se lá que hospitais com congelamento da saúde e educação. Feliz dia das crianças para as crianças latino americanas que são vistas pelo Banco Mundial como um cofrinho no qual se põe e espera um retorno no mínimo, senão nem tem conversa. Obrigada a todas as crianças por serem inventivas, curiosas, dançantes, afetuosas, ensinarem tanto ao mundo adulto e duro que as coisas podem ser diferentes. Vocês não são nem serão o futuro, vocês já são, cada uma do seu jeito, cidadãs, pessoas, indivíduos, sujeitos e merecem toda a dignidade e diversão que pode existir. Feliz dia.