Saudade de mais de um

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Deixa contar um segredinho: Quando você ama mais de uma pessoa ao mesmo tempo os afetos e saudades são insubstituíveis. Eu posso ter me encontrado com vários amigos, afetos, vivido várias coisas bacanas durante a semana, mas deixei de ver uma pessoa específica que eu gosto muito, muito mesmo, que eu amo profundamente. Essa saudade vai ficar. E às vezes dá até uma raivinha de aaaaaaahhhh porque você não está aqui, eu quero demais você!1111 Mas amar mais de uma pessoa também tem dessas. Tem tempos, tem épocas. Tem época que por trabalho ou demais coisas da vida não consigo ver um, não consigo ver outro. E vida segue. É uma prática de respirar fundo e entender que não pertenço a ninguém e ninguém me pertence. Cada um protagonista da própria história. E quando se encontra tem romance, tem amor, tem cuidado, tem amorzinho. E longe, mesmo longe, tem áudio mandado, tem “Como foi seu dia? Boa tarde, mozão, Bom dia, mozão”. Um monte de emoji. Meu coração é um brinquedo de encaixar, não adianta tentar colocar estrela no lugar do quadrado, não vai entrar, não vai dar certo. E uma vez que entra, ainda fica o vazio, lá, só cai a peça pra dentro. Porque saudade não é coisa que se sacia de uma vez só. Levanta a caixa, pega as peças novamente, encaixa, encaixa, encaixa. E a peça só entra se ela também quiser entrar em mim. Se ela não quiser, eu que vou ter de lidar com minhas expectativas, vazios, lacunas. O amor não correspondido é o auto-engano que eu fiz sem perceber. É jogar parafusos no buraco, peças menores, depois levantar e ver que ó, ó o que eu fiz sozinha, achei que recebia amor e não era, era só eu tentando preencher esses vazios. No entanto, o amor correspondido, aquela pecinha que desliza devagar e gostoso pra dentro, ah, essa eu quero sempre repetir. O desejo recíproco também funciona assim. Deslizando e entrando, às vezes mais gostoso pra um do que pra outro. Mas quando os dois gostam do encaixe e do deslizar, ah, aí vem a saudade…de peito, de corpo, de coração, de pica, do nome que derem. Eu gosto de sentir saudade, de corpo todo, de emoção inteira. Com espaço, com lacuna, pra eu ser eu mesma, pra você ser quem você é, pra eu te esperar, aberta.

Repita comigo: Você não sabe lidar com crianças, você não odeia crianças

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Toda garota com bolsa da Hello Kitty, saindo pro rolê

Crianças são uma categoria social de extrema vulnerabilidade. Se preferir, uma minoria. Crianças são sistematicamente abusadas por familiares, amigos de familiares, vizinhos, líderes religiosos, professores. Moralmente, fisicamente, sexualmente. Todos os dias as pessoas não respeitam as dores, os medos, as denúncias, as trajetórias dos pequenos. Você dizer que odeia crianças mostra como você é uma pessoa preconceituosa e higienizada. Quem diz que só não se incomoda com criança quietinha (de corpo e de linguagem), não suporta conviver com pessoas. Que questionam, que quebram o silêncio e o decoro. Você pode não saber lidar com elas. Isso é problema teu. Elas não precisam da sua permissão pra existir. As crianças e bebês não serão cidadãs, indivíduos, sujeitos. Elas já são. E tem o direito de ocupar o espaço público tanto quanto você. Você não sabe lidar. Odiar e não gostar é um eufemismo das suas limitações e preconceito.

“Empoderamento” tá na boca do povo

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Confira aqui o vídeo

Se faz necessário pontuar os limites da representatividade. Ela não é por si sempre benéfica, bastando colocar alguém extraído de uma minoria. Marcela Temer, Sara Winter, Rachel Sheherazade são mulheres e vão de encontro com um monte de pautas que causam diariamente a morte de mulheres pobres e não-brancas, como é o caso do direito ao aborto legal. Reconhecendo esses limites, importantes e necessários, não compreendo porque o alarde na popularização de termos como “empoderamento”, por exemplo. Tudo o que o capital puder apropriar, ele vai, se sair histórias para crianças pequenas com personagens com dois pais, duas mães, com crianças não-brancas como protagonistas e isso vender, é isso que vai acontecer. É um risco que se corre quando uma palavra é popularizada, ela pode ser torcida e readaptada em roupagens mais palatáveis, mais vendáveis. Assim como eu posso me apropriar do xingamento de gorda para dar novos sentidos a esse rótulo, “o lado de lá” também pode tentar perverter o uso das palavras gestadas no berço das militâncias e movimentos sociais. A luta também é discursiva, “colocar a cara no sol” é também saber que tornar-se visível não é o último estágio e passo. “Não começa nem termina é nunca é sempre”. É nessa crescente realizada principalmente pelas feministas que músicas incríveis como “100% feminista” da MC Carol & Karol Conka (produção do popular  Tropkillaz), podem ganhar corpo e existir com a devida e merecida projeção. Nem toda resistência é underground. Nem toda criação e expressão pra ser genuína precisa ter som e aparência suja, trevosa. As feministas e o discurso feminista não podem se expressar apenas em dois ou três tipos de espaços e numa paleta de poucas linguagens. Eles devem ocupar todos os espaços. Em vários formatos. E seguir. Palavra é como filho, a gente não cria pra si, cria pro mundo.

 

Feliz dia para todas as crianças

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Inclusive para aquelas que os adultos não deixam ser criança. Aquelas que não podem ralar joelho, amassar a roupa, bezuntadas de àlcool gel. Feliz dia das crianças pra quem já tem agenda com tênis, inglês, natação, balé e esgrima. Feliz dia para as que tem que aguentar adultos e outras crianças a humilhando por ser gorda, não deixando comer o que quer, reclamando que não se movimenta, mas se resolve se movimentar vira motivo de piada porque o corpo balança ou se cai ganha mais apelido ainda. Feliz dia para as crianças negras que passam por racismo desde nenéns, desconhecendo a estrutura do próprio fio do cabelo, não encontrando boneca, boneco, princesa, rainha que pareça com elas. Feliz dias das crianças não brancas que por serem lidas como orientais esperam a super inteligência e todo estereótipo possível. Feliz dia das crianças presas no condomínio crescendo com medo do mundo. Feliz dia das crianças indígenas que são muito além daquele patético cocar feito de sulfite pelas professoras da Educação Infantil.  Feliz dia das crianças que são hostilizadas por usarem contas enquanto os colegas católicos podem usar seus crucifixos em paz. Feliz dia das crianças para as pequenas que são autistas largadas na escola pública com um estagiário de Pedagogia, tendo de lidar com uma sala mista de todos os alunos que ninguém sabe educar, o esquisofrênico, o que te DDA, o surdo, o com motricidade comprometida. Feliz dia das crianças para as crianças que sobrevivem aos pais abusivos e parentes agressivos. Feliz dia das crianças para os meninos e meninas que não se encaixam no que esperam de um menino e de uma menina. Feliz dia das crianças para as meninas que gostam de lutinha, bola, monstros, carrinhos. Feliz dia das crianças para os meninos que brincam de boneca, colocam camiseta na cabeça pra imitar cabelo grande, vestem os sapatos de salto da mãe. Feliz dia das crianças que continuam desenhando e escrevendo mesmo os professores falando que elas não fazem isso direito. Feliz dia das crianças para todas as crianças inclusive as que vão nascer logo e terão que usar sabe-se lá que escolas e sabe-se lá que hospitais com congelamento da saúde e educação. Feliz dia das crianças para as crianças latino americanas que são vistas pelo Banco Mundial como um cofrinho no qual se põe e espera um retorno no mínimo, senão nem tem conversa. Obrigada a todas as crianças por serem inventivas, curiosas, dançantes, afetuosas, ensinarem tanto ao mundo adulto e duro que as coisas podem ser diferentes. Vocês não são nem serão o futuro, vocês já são, cada uma do seu jeito, cidadãs, pessoas, indivíduos, sujeitos e merecem toda a dignidade e diversão que pode existir. Feliz dia.

Pinta de modelo – Eu quero a Playboy com mina gorda!

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Minhas parentes tinham várias revistas destinadas ao corpo feminino. Teve uma fase que eu gostava de ler umas Capricho ou Atrevida, o divertido mesmo era buscar referências de sedução e beleza na Nova (acho que agora chama Cosmopolitan). Ali, na prateleira baixa, junto com livros de receitas, trabalhos e livros didáticos (a enciclopédia para consulta ficava no lugar alto, foi ali que aprendi palavras e conceitos interessantes como “os golfinhos são animais inócuos”). Depois de chegar da escola gostava de sentar no chão do corredor, folhear essas revistas e ver aquelas mulheres tão bonitas que me deixavam vidrada por alguma razão, em especial as com cabelões cheios de onda. Por vezes a minha tia que era modelo comprava umas revistas só de super modelos, a primeira vez que vi a Cindy Crawford fiquei encantada, pelo menos a pinta, eu tinha!. Essa tia era alta, magra, cabelinho curto, tinha até um book. É claro que não sonhava em ser modelo quando crescesse, já era bastante realista. Gostava da sensação de ter um sinal pelo qual mesmo que de longe pudesse ser considerada bonita. A busca pessoal por beleza passou por várias fases, metia até a fé no meio. Lembro de orar pedindo pra Deus fazer meu corpo ser bonito pelo menos vestido. Eu devia ter uns nove anos. Até que encontrei a Cindy Crawford e vi que possuía, mesmo que timidamente, um atributo de beleza, a pinta perto da boca. Aos poucos fui encontrando maneiras de descobrir meu corpo e alguma vaidade nele. As organistas da igreja com base nas unhas e escova nos cabelos, com saltão, roupa justa, ficavam faladas e cobiçadas, achavam marido e pretendentes rapidinho (em média, com 16 anos já estavam casadas).

A beleza sempre me pareceu um atributo do qual já se nascia, não parecia um fingimento. Algo impossível de simular. Ou se era, ou não. Em ocasiões especiais a minha vó costurava umas roupas novas, mas a tradição mesmo em casa era receber roupas de doação. Da minha tia pra mim (quando cabia), do meu guarda roupa pra o da minha irmã. Shorts modeladores também passavam da minha mãe, pra mim, eu realmente detestava um bege que tinham umas bolinhas magnéticas que prometiam acelerar queima de gordura, devia ter uns treze anos. Voltando sobre as simulações, toda vez que eu tentava parecer mais bonita ou feminina me sentia um tanto esquisita. Batom acontecia naquelas fotos de escola, de modo forçado. O salto que eu conseguia usar sem me sentir tão ridícula era o plataforma (de madeira, com florzinha talhada). As primeiras depilações foram realizadas por uma parente um tanto rude. Ela improvisava a cera com açúcar e os panos usados eram os retalhos variados de tecido da minha avó. Sentia muita dor. Num desses rituais ela arrancou a pinta do meu rosto pra tirar o buço, sangrou, eu chorei. Passou um tempo, cresceu novamente.

O horror ao meu próprio corpo era tão grande que um dia sem querer chegou uma moça da igreja em casa com a parente citada, entraram no quarto sem avisar. Berrei. Fiquei nervosa. Sentei no chão e chorei até passar. A ideia do corpo abjeto era tão forte que demorei pra deixar meu primeiro namoradinho efetivamente me ver pelada. Tinha dia que deixava ele ver a parte de cima (tronco), tinha dia que eu deixava ver a parte de baixo (buceta/pernas), até que ele me dizendo de muitas maneiras ele realmente gostava do que via/sentia, eu também com o tesão subindo pelas paredes, fiz sexo com penetração sem roupa, consentido, pela primeira vez, aos quase vinte anos de idade. Ou seja, as minhas travas eram imensas. Entre muitos fatores porque mesmo sendo uma jovem bonita (de rosto), ouvi muitas e muitas vezes que meu corpo era feio, desajeitado, “só pagando ou sendo forçado”. Saindo de um ambiente religioso no qual a vaidade e a feminilidade mais assertiva não eram celebrados, caí direto em sites de feminismo radical, aqueles que falavam que maquiagem era imposição. Então ao mesmo tempo que por vezes eu queria muito aprender a achar um batom bonito e usar delineador, parecia que aquelas coisas eram todas não feitas pra mim, minha boca era meio sem graça, se passava rímel esquecia e coçava, ademais,  eram todas imposições, não eram? Então não tinha porque aprender. Meu namorado dizia que ficava lindo batom vermelho nas outras, mas em mim, realmente, ficaria meio destoante. Outro referencial de beleza, dessa vez, de formato corporal foi a Nadia Aboulhosn, conheci na internet.

O tanto de maquiagem que eu usava cabia num estojo: Lápis, rímel incolor e o preto. Conheci moças que não conseguiam sair de casa sem maquiagem. Eu pensava que o meu tanto de beleza era impossível de rebocar, no máximo poderia parecer uma paródia de mulher bonita, como aquelas caricaturas de mulheres feias que fazem nos quadros de humor. Na hora que eu sentia que aquilo realmente era esquisito (a tentativa de me apropriar da maquiagem e adereços muito femininos), jogava tudo fora. Meu primeiro batom vermelho veio em 2012/2013. Comecinho de Unifesp. Comprei uma paleta de vermelhos da Contém 1g. Usei num dia frio. As moças da classe falaram que eu fiquei muito bonita. Achei graça, fui tentando um pouquinho e mais um pouquinho, até hoje ter uma pequena, mas bonita coleção. O batom é um jeito interessante de chamar atenção pra pinta. A maioria das mulheres gordas e bonitas que conheço são aquelas que já tive o prazer de abraçar, ver pessoalmente. As gordas bonitas no papel e na mídia são bem poucas, uns filmes aqui, umas capas ali, mas nada de extraordinário. Em geral elas são as gordas sofridas (Gabourey Sidibe) ou as gordas engraçadas (Rebel Wilson, Cacau Protásio, Fabiana Karla). Atualmente existem modelos gordas que tem relativa projeção, sim, relativa, eu, mulher gorda sei o nome de algumas, mas pergunta pra uma adolescente magra o nome de uma modelo plus size, além da Tess Monster, pra ver se ela sabe. Essa semana o assunto (além da PEC 241 e os demais projetos eugênicos de Temer), é a Playboy finalmente colocar uma moça gorda na publicação, Ju Romano. É claro que a moça lindíssima é branca, com proporções que nem toda mina gorda tem, mas tô curiosa pra ver como é. Como é comprar uma revista na qual o corpo de uma mulher gorda é o destaque, quero saber como é ver braços roliços, barriga positiva em destaque máximo. Se isso é empoderamento? Talvez sim, talvez não. Nem toda mina gorda tem o dever de se colocar 100% do tempo. Tudo bem querer se sentir gostosa, maravilhosa, linda pra caralho, ainda mais se essa possibilidade é constantemente proibida. Nem toda existência de resistência é imediatamente panfletária.

Para quem acredita em apologia da gordura (pausa pra não rir), um exercício interessante que você pode fazer é andar com um caderninho por duas semanas e anotar todas as vezes que encontra um anúncio emagrecedor. Cada panfletinho de Herbalife, cada vez que passar em banca de jornal e ver matéria, cada vez que alguém elogia alguém que emagrece mas nunca alguém que engorda. Repara bem nas histórias de quem tem ou teve distúrbios alimentares e preste atenção como mesmo doentes, com anemia, fracas, elas receberam elogios pelo emagrecimento. Não querem corpos ativos. Querem é corpos que pareçam magros e jovens, mesmo se entupidos de remédios ou bebida. Eu quero é mina gorda escrevendo, dançando, posando, com sorriso largo. Ju Romano e qualquer gorda que se coloque como uma mulher bonita com exposição do corpo vai ouvir xingamento de outras gordas, algumas feministas a chamando de marionete do patriarcado, crentes, conservadores, gordofóbicos em geral, indústria cosmética e da moda. Eu quero ver o que há de bonito num papel pra folhear, sorrir pelo corpo gordo, mesmo que nesse lapso histórico, quero presenciar além do corpo doente dado como única leitura para dobrinhas, gorduras, celulites e tudo o que faz o corpo gordo ser uma expressão de beleza e vitalidade.

Algumas mulheres adultas gostam e concordam em levar/dar uns tapas

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I. Essa afirmação pode parecer muito, muito assustadora para certas mulheres. Alguns setores do feminismo defendem que a encenação erótica com cenas de violência serão sempre e para toda a eternidade, problemáticas e até mesmo incentivadoras, fazendo com que essas dramatizações encarnem em quem exerce o poder e ultrapasse limites, ocasionando danos irreversíveis do ponto de vista físico, moral e psicológico. Meu foco no texto de hoje é outro, não é para quem discorda dessas práticas consentidas entre adultos, se você se ofende e detesta esse tipo de dinâmica, não pratique, você não é alguém menos sexual, menos interessante, com gozo menor, com potência diminuída, se trata apenas de alguém com expectativas sexuais comuns. Se o seu modo de fazer sexo¹ não faz com que as pessoas praguejarem a sua morte com DSTS, procurarem um CID que te encaixa, não te faz correr o risco de perder os amigos, o emprego, a respeitabilidade moral e profissional, se você não pode falar sobre como faz sexo mesmo durante conversas “picantes” com as pessoas porque vão te chamar de nojento, vetor de doença, pervertida/tarada, doente, você é apenas uma pessoa com sexualidade normal, mediana, não assustadora, pode ficar bem tranquilinha que ninguém vai arrombar sua porta e te forçar a nada. Não existe Ditatura LGBT, assim como não existe Ditadura BDSM. Se você não gosta, não sabe lidar, vira a cara, sai de perto. Assim como tem gorda que não espera o Esquadrão da Moda pra determinar o que ela pode usar, vai na praia e usa biquíni ofendendo a opinião pública, assim também existem mulheres que não esperam a autorização e carimbo de padre, pastor, médico, assistente social, família e do bairro pra começar a praticar o sexo de uma maneira não convencional. As pessoas não vão deixar de praticar sexo não convencional só porque você não tem estrutura/vontade de lidar com ele. Não quer, não faça. 

Agora, se você se sente uma pessoa péssima porque tem desejos “esquisitos” da maioria das pessoas porque eles “parecem violentos/agressivos” embora te excitem demais, vamos com calma. É preciso considerar como seu desejo te atravessa, se você acha gente pra praticar com você, se essas pessoas concordam de verdade com o que vai acontecer. Se você está com muita vontade de fazer uma dinâmica com uma pessoa e essa pessoa não concorda com o que vai acontecer, a dinâmica não pode em hipótese nenhuma acontecer. Se não é “teatrinho”, se não é uma fantasia sexual que as pessoas concordam, não pode acontecer. Se você passa na rua e um completo estranho começa a te seguir te chamando por palavras que te ofendem e te deixa com medo e assustada, isso não é fetiche, isso não é BDSM, isso não é safadeza e putaria, isso é assédio. Agora, se você tem uma parceira ou um parceiro com o qual gosta de fazer sexo com ele ou ela, então um dia vocês combinam que você adoraria ser chamada de gostosa e vadia e levar uns puxões de cabelo, isso é fetiche, isso é um tipo de prática de BDSM, isso é sexo entre adultos que gostam de sexo não muito convencional. Teatralizar/dramatizar uma situação sexual em um ambiente controlado e seguro pode ser muito libertador, se as pessoas envolvidas são adultas, concordam com o que vai acontecer, ninguém mais tem nada a ver com isso. Para ficar mais explícito, mais um exemplo:

Se seu chefe no seu trabalho ameaça te despedir caso recuse fazer sexo com ele = assédio moral e sexual

Se um dia você tem a fantasia de fingir que é uma chefe e combina com sua namorada, dela fingir que é sua secretária. Nesse caso, sua namorada também tem um tesão absurdo em imaginar ela cumprindo tarefas e te fazer gozar = fantasia erótica consentida de uma relação de poder existente na sociedade, mas teatralizada num ambiente seguro, controlado.

Ou seja, tudo depende de contexto. Se você é um homem e adora assediar mulheres, travestis, prostitutas e viados no transporte público, na rua, no trabalho, onde for, você não é um fetichista, você não é um cara cheio de tesão e espertinho, você é um abusador e deve ser responsabilizado pelos crimes que comete. Constranger, ameaçar, humilhar, bater, arranhar, sem o consentimento, é crime, crime de ódio. Vá procurar terapia. Falta de empatia pode levar a sérias consequências como o extremo totalitarismo, o fascismo, a eugenia, se você pensa em cometer crimes de ódio (como o caso da lâmpada na Avenida Paulista ou os homens que espetavam mulheres com seringas no transporte público), vá procurar tratamento. Também, se for do tipo que gosta de estudar, recomendo assistir umas aulas de História, Filosofia e Sociologia, além de claro, aprender a escutar as pessoas que não são apenas do seu círculo social.

Com isso, é preciso tirar o estigma social do ombro das mulheres que tem o prazer em dizer “sou cachorrona mesmo e late que eu vou passar”, todas as mulheres devem ter a integridade física e psicológica resguardada. Se você tem vontade de dar pra seis caras ao mesmo tempo, certifique que eles são mesmo pessoas confiáveis e que irão te respeitar. Use camisinha. Faça sexo seguro. Respeitar a sexualidade das mulheres tão somente se elas fazem sexo depois do casamento, com uma pessoa só, papai-e-mamãe, só pra procriação, é mais do que conservador e cristão ortodoxo. É misógino, é machista, é querer controlar e limitar como, quando e para que a buceta úmida pode ser satisfeita. Se uma mulher vai pra orgia, ela merece respeito. Se ela quer ser chamada de vadia por alguns, não significa que ela quer ouvir de qualquer um. Até que alguém te dê consentimento, você não pode sair enfiando os dedos simplesmente onde deseja. Não ultrapasse limites se não tem intimidade. Não importa o tamanho do shortinho jeans ou de vinil, se a meia é arrastão ou soquete. Não é porque você ouviu dois viados se chamando de bicha que você pode fazer o mesmo. Respeito é de graça e não faz cair o cu da bunda. Caso pense que nos tempos atuais as mulheres são forçadas a dar pra todo mundo sem critério pra “provarem que são empoderadas”, lembre-se que há várias formas de isso se manifestar. Do mesmo modo que algumas mulheres recebem incentivos em alguns contextos para se colocar como vadias orgulhosas, se elas o fazem, são culpabilizadas por toda a violência não consentida que recai nelas

“É um absurdo ter colocado sua honra e sua virtude na força antinatural de sua resistência às inclinações que receberam em muito maior profusão que nós. Essa injustiça de nossos costumes é tanto mais gritante que consentimos de uma só vez enfraquecer as mulheres à força da sedução, para em seguida puni-las por terem cedido a todos os esforços que fazemos para provocar sua queda” (SADE, 2009, pg. 90/91)


II. Prevejo gente falando besteira supondo que mulheres que gostam de sexo não convencional das duas uma A) Passou por violências e tem Síndrome de Estocolmo B) Nunca passaram por violência e ficam romantizando/incentivando abusos.

A) Isso é supor que toda mulher é uma tapada, coitadinha, ingênua, como aquelas mocinhas loiras e peitudas dos filmes de terror, com a roupa toda rasgada fugindo de um monstro enquanto anda cada vez mais na direção dele, dizendo: “Oi, tem alguém aí?”. Pra dizer que a gente é uma tontinha emocional não precisa você, tá? Ser subestimada já faz parte da vida. Entra pra uma Liga Pela Moral E Os Bons Costumes que fará mais sentido levar “a palavra da salvação para quem não enxerga a luz”.

B) Muitas mulheres fetichistas realmente passaram por abusos. Mas isso é um dado geral da sociedade porque vivemos num mundo machista, não é maior a incidência entre fetichistas. Leia menos 50 Tons de Cinza e Contos de Fada, nos quais “pelo poder do amor” as pessoas são “salvas”. Não patologize, nem paternalize fetichistas. Em tempo, 50 Tons é uma relação de abuso, aquilo não é consentido. BDSM é para pessoas adultas com discernimento o suficiente para conhecer os próprios limites tendo pessoas éticas e respeitosas envolvidas. Não é sobre homens adultos e sexualmente experientes abusando da ingenuidade e falta de experiência de mocinhas incautas. É preciso tomar cuidado para não culpabilizar mulheres fetichistas pelos abusos que elas realmente sofrem. Do mesmo modo que uma moça que vai pra orgia não espera que seu vídeo seja divulgado sem consentimento, a fetichista não espera ter que parar na Delegacia da Mulher e escutar do tamanho da saia ou perguntando do porque ela está usando uma coleirinha.


III. Os comentários aqui são moderados. O que quer dizer que se você for desrespeitosa, vou excluir lindamente. Construir diálogo é diferente de ser invasiva, putafóbica, transfóbica, fiscal de genital e de orifício. O feminismo precisa considerar além de belas, recatadas e do lar.


¹ Sexo: Estou chamando de sexo toda interação consentida entre adultos, com plenas capacidade de discernimento, operando com dinâmicas, encenações e objetos para fins de excitação sexual, com ou sem genitais.

Fonte:
SADE, Marquês de. Diálogo entre um padre e um moribundo e outras diatribes e blasfêmias. São Paulo (SP): Iluminuras, 2001.

Eu não sou a Professora Helena, porra!

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A Educação Infantil no Brasil é ligada historicamente ao cuidado maternal. Isso porque o modo pelo qual vemos as mulheres impacta diretamente como nós percebemos a infância, e os cuidados com as crianças pequenas. Se na nossa sociedade consideramos que tudo o que pode “dar errado” na vida de uma criança e de como ela se transformará num adulto, é responsabilidade unicamente das mães e que mães, devem ser apenas um poço de bondade, paciência e assexuaidade, temos uma super responsabilização de um indivíduo e tiramos qualquer responsabilidade do Estado e da comunidade, em educar uma criança. Portanto, ao invés de cobrarmos do Estado escolas para as crianças pequenas e considerarmos as mães como pessoas com direito ao trabalho remunerado, lazer, prazer, estudo, vida social e carreira profissional, a gente subintende que se você tem um bebê, deve abrir mão de tudo e ficar na toca lambendo o filhote pro resto da vida. Ou quem sabe, contratar uma mulher mais pobre (não raramente, mais negra) para olhar as crianças que você educa. Parece absurdo e chocante? Mas é exatamente assim que a história da Educação Infantil no Brasil se deu em muitos momentos.

Em 1943, por causa das pressões exercidas pelas mulheres que trabalhavam em fábricas, a CLT considerou que as empresas com mais de 30 mulheres acima dos 16 anos, deveriam dispor de um espaço para crianças pequenas. Essas creches eram interpretadas como espaço de guardar crianças, tal qual uma chapelaria em que deixamos algo no início e antes de ir embora, retiramos. Os movimentos sindicais embora reconhecessem que mulheres casadas nem sempre eram contratadas nas fábricas e era grande o número de mulheres despedidas por suspeita de gravidez, assumiam a creche como uma bandeira menor. Bom pontuar aqui que o que chamamos costumeiramente de “entrada da mulher no mercado de trabalho” em geral se trata da entrada da mulher branca no mercado de trabalho, pois as mulheres não-brancas e pobres já exerciam há muito tempo duplas e triplas jornadas em postos de trabalho pouco reconhecidos e de baixa remuneração.Em 1960 a Liga Feminina do Estado da Guanabara (articulado por mulheres comunistas) também defendiam a defesa das creches, em 1964 o golpe militar levou muitas mulheres grávidas e crianças a passarem por torturas. Nos anos 70, as mulheres brasileiras continuaram lutando pelo direito a creche. O que para alguns setores da sociedade não foi bem recebido por lerem nessa prática uma medida populista, assistencialista, para com as mulheres e famílias pobres. O movimento de mulheres e mulheres feministas defendiam que as creches deveriam ser além de um depósito de crianças e sim, uma responsabilidade de toda a sociedade, do Estado inclusive. Entre os anos 70 e 80 as mulheres periféricas se mobilizaram em articulações como Movimento de Custo de Vida no qual se questionavam os altos preços dos produtos mais básicos e o direito à creche, mas na medida que esse movimento passou para os sindicalistas de maioria masculina, a creche também foi interpretada como uma medida assistencialista e de menor importância. Os movimentos de mulheres pressionando o Estado fez com que as crianças fossem aos poucos reconhecidas como sujeitos de direitos e a Educação Infantil mais do que um espaço de “guardar crianças”, um ambiente para socializar, se desenvolver com direito ao sol, grama, terra, música, expressão, educação para as diferenças.

A Educação Infantil é muito além de um espaço para cuidar, nutrir e assistir a criança pequena do ponto de vista fisiológico. A escola não existe para “formar futuros cidadãos”, a criança já é sujeito de direito, também não serve para escolarizar precocemente (fazer ler, escrever, contar, avaliar, promover). É preciso superar o mito do apego e o trauma da separação da mãe, é saudável oferecer experiências de intercâmbio entre crianças, fortalecer o sistema imunológico, tirar dos ombros das mães a ideia de que somente elas são as responsáveis pela educação de suas crianças. Avós educam, vizinhos educam, a escola educa, colocar numa bolha e privar a criança de seus direitos mais básicos como brincar e aprender, é inconstitucional. Por muitas vezes assumem que as crianças pequenas só demandam tomar banho, limpar nariz, higienizar genitais e bunda, dar de comer, estarem limpas e cheirosas. E esse trabalho é realizado em maioria por mães sem qualquer necessidade de profissionalização, dando a entender que qualquer uma pode fazer. Sim, qualquer uma que for paciente, atenciosa, gentil, mulher e mãe. Vira e mexe surgem propostas de lei que incentivam remunerar muito abaixo do mercado, mulheres pobres e sem formação profissional para cuidar de crianças pequenas tirando do Estado e da sociedade mais uma vez, a responsabilidade de educar e oferecer os direitos garantidos por lei. No imaginário coletivo é bastante recorrente a noção de que trabalhar com crianças é quase um sacerdócio: precisa de dom, vocação, voluntariado, abnegação e celibato. Se escapa um vídeo de uma professora de Educação Infantil dançando de biquíni com os amigos, nas férias, para muitos aquela é a prova máxima de que tal pessoa não deveria educar crianças pequenas no ambiente de trabalho. O mesmo vale para professores de Educação Infantil que são gays, lésbicas e bissexuais. Quanto mais cheia de pudores, inclusive fora do ambiente de trabalho, mais competente acham que você é para a função.

Desse modo, ao invés de valorizarmos Pedagogos que estudaram para compreender as crianças de uma forma integral, preferimos dar atenção para Psicólogos, Pediatras, líderes religiosos e demais profissionais da saúde ou da moralidade. Gripe se cura em casa com chá e cuidados, mas nem tudo se resolve assim. Do mesmo modo, dar giz de cera, massinha e sulfite em casa, é diferente de propor uma atividade pensada para determinada fase do desenvolvimento. O objetivo não é dizer que mães não saibam educar, mas é preciso reconhecer o quão desumano é esperar que seja apenas da atribuição delas a educação de crianças. E quanto aos profissionais que estudam e se aplicam na educação de crianças pequenas, não esperem santidade ou sacerdócio deles, são pessoas com sexualidade e vida própria. Isso significa que nem toda professora de Educação Infantil é a Professorinha Helena. Imagina só você ficar quatro anos (ou mais) estudando sua área profissional e ao executar seu serviço alguém te diz “ah, é só gostar do assunto né? E se você gosta de estudar e faz isso porque sente prazer em realizar seu trabalho, porque não faz de graça?”. Professora de Educação Infantil não é “tia”, é uma profissional que estudou bastante para ser uma educadora. Não é trabalho voluntário, não é de graça, não é de qualquer jeito, não basta e nem precisa ser mulher, não basta e nem precisa ser mãe. É uma profissão e demanda ser levada com a devida seriedade. Brincar, apender e ensinar crianças pequenas é muito além de ser “tia”. “Tia” pode levar sobrinho pra passear e no final do dia deixar a criança com a mãe novamente. Professora é outra coisa. Professora é profissão de extrema responsabilidade e exige dedicação. Fora da escola e do ambiente de trabalho, não estranhe em observar professoras e professores sendo pessoas comuns. Se encontrar um professor tomando uma cervejinha com os amigos, falando palavrão ou dançando no forró, numa casa noturna ou no baile funk, não estranhe.Não são robôs nem fizeram voto de pobreza.

Fontes

CERISARA, Ana beatriz. Professoras de Educação Infantil entre o feminino e o profissional. São Paulo: Editora Cortez, Coleção: Questões da nossa época, 2002.

TELES Maria Amélia, A participação feminista na luta por creches! In: FINCO, Daniela; GOBBI, Márcia Ap. e FARIA, Ana Lúcia. Creche e feminismo: desafios atuais para uma educação descolonizadora, 2015